segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 3 O Conceito de Conhecimento

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Capítulo anterior


[17]Capítulo 3

O Conceito de Conhecimento


Então quando um homem obtém uma noção de alguma coisa sem uma razão, a mente dele realmente pensa nisso, mas ele não a conhece, pois, se ele não pode dar e receber uma razão de uma coisa, ele não tem conhecimento dessa coisa. Mas quando ele obteve uma razão, tudo isso tornou-se possível para ele e ele está totalmente provido de conhecimento.

Platão1


Definições e Jogos de Palavras


Suponha que você esteja preocupado com a questão da justiça econômicao fato de que uns poucos são ridiculamente ricos, enquanto muito são lamentavelmente pobres. Você pode convocar uma conferência acadêmica e sugerir algum tipo de política social coerente. Economistas podem contar-nos como a distribuição de renda está empiricamente relacionado à produtividade nacional. Cientistas políticos podem contar alguma coisa sobre taxas de imposto e a quantidade de serviços de governo. Sociólogos poderiam tratar dos efeitos sociais da pobreza de longo prazo. Historiadores poderiam dar-nos algum sentido de se o problema está melhor ou pior do que estava há cem anos. Absolutamente não seria surpresa se um filósofo contribuísse com um artigo sobre o significado de justiça econômica. Afinal, como nós razoavelmente poderíamos construir alguma política social que visasse a uma maior justiça econômica se nós estivemos completamente claros quanto ao que nós queremos dizer com esse conceito? Sob outra luz, contudo, a contribuição do filósofo parece frívola e até contraprodutiva. Se há ampla concordância de que esse é um problema que tem de ser resolvido, a preocupação do filósofo [18]com pensadores há muito falecidos tais como Platão, Adam Smith e Marx pode ocorrer-nos como um irresponsável desperdício de tempo e energia intelectual. Para conduzir esse exemplo apenas um pouco mais adiante, suponha que o artigo do filósofo ofereça uma definição de justiça econômica que sugira algum tipo de tensão com outros valores e políticas sociais amplamente sustentados e prossiga até sugerir que nós nunca teremos um conceito de justiça econômica com o qual todos se sentirão confortáveis. Agora a preocupação do filósofo com teoria e definição de termos pode ocorrer-nos como subversiva. Pode ser difícil e controverso articular uma teoria sobre a natureza da justiça econômica como a qual todos concordem. Não obstante, nós conhecemos injustiça quando a vemos. E sugerir que nós despendamos nosso tempo definindo termos em vez de oferecer soluções construtivas aos problemas óbvios que afligem nossa sociedade é tanto perigoso quanto imoral. Mas tudo isso é bastante injusto. Nenhum filósofo são sugerira que nós despendamos todo o nosso tempo e energia em acadêmicas buscas intelectuais. Obviamente, há crises que pedem ação imediata, e todos nós reconhecemos a necessidade de tomar decisões sob informação menos do que perfeita. Mas também há necessidade de trabalho intelectual abstrato. Parece loucura propor mudanças sociais significantes sem algum tipo de entendimento claro do que nós estamos tentando realizar. Pausando para refletir sobre a natureza da justiça econômica – determinar nossos termos, como eles dizem – pode ser valioso até em uma hora de urgência.

Por favor, desculpe a digressão acima. Eu incluía-a aqui porque acredito que alguns estudantes iniciantes veem muito da epistemologia tradicional sob a mesma luz pouco caridosa com a qual nosso filósofo foi retratado. Todo leitor deste livro é um falante maduro de português. O verbo conhecer (know) e o substantivo abstrato conhecimento (knowledge) são palavras bastante normais na língua portuguesa. Obviamente, nós precisamos saber o que elas querem dizer. Contudo, nós descobriremos que se provará muito difícil articular uma definição, ou teoria, clara e coerente do conhecimento.


O Mito da Definição


Este capítulo discute as perspectivas para a oferta de uma análise, ou definição, útil do conceito de conhecimento. Como um ponto de partida, nós precisamos levar um pouco de tempo afastando um equívoco comum sobre a importância de definições, tanto em contextos cotidianos quanto em filosóficos. Acredita-se amplamente que as pessoas não conhecem o significado das palavras que elas usam – elas não sabem sobre o que estão falando – a menos que elas possam fornecer definições adequadas de todas aquelas palavras. Essa é simplesmente uma visão equivocada de significado.

Alguém pode ser um atleta excelenteum rebatedor (hitter) em basebol, por exemplo – contudo ser um treinador ou professor muito ruim de como rebater. Surpreendentemente, talvez, outros podem ser rebatedores medíocres mas transformarem-se em excepcionais treinadores de rebatida. A razão dessas coisas serem possíveis é que há toda a diferença do mundo entre fazer alguma coisa e descrever, ou explicar, como fazer alguma coisa. Pense por um momento naquelas coisas em que você é mais habilidoso fazendolançar arremessos livres, tocar um instrumento musical, andar de bicicleta e assim por diante. Quão confiante você estaria de que poderia ensinar alguém a como ser habilidoso nessas atividades? Você poderia escrever um manual para eles sobre fazer qualquer uma delas?

[19]Falar uma linguagem é muito mais como rebater uma bola de beisebol do que ser um bom de treinador de rebatidas. A linguagem é uma atividade habilidosa que seres humanos dominam com notável facilidade de maneiras que filósofos, psicólogos e linguistas estão somente começando a apreciar. Eu posso assumir segurante que qualquer leitor deste livro é um usuário suficientemente talentoso do português para que você conheça muito bem o significado de quase qualquer palavra na qual os filósofos despenderam uma grande quantidade de tempo e energia tentando analisar ou definir. Todos vocês conhecem o significado de termos tais como beleza, justiça e conhecimento porque podem usar sentenças tais como as seguintes para se comunicar com outros falantes de português.

  1. Essa é uma bela pintura.

  2. Simples justiça exige que todas as crianças possam brincar.

  3. Você realmente não sabe se os Dodgers obterão a bandeira; você apenas espera que ele obtenham.

Tudo isso é importante porque é tão fácil de esquecer no meio de batalhas filosóficas. Nós analisaremos o conceito de conhecimento neste capítulo. Nós veremos que essa tarefa é difícil, controversa, e no fim talvez impossível de completar satisfatoriamente. Isso não significa nem por um segundo que você ou as grandes mentes da filosofia ocidental não saibam como usar palavras tais como conhecer (know) e conhecimento (knowledge) para os propósitos de comunicação clara.


A Necessidade de Clareza Conceitual


Embora eu suporte 100 por cento do que eu disse anteriormente, isso não significa que cuidadosa análise conceitual não seja importante. Algumas vezes as pessoas fazem afirmações notáveis sobre o conhecimento. Há pouco nós vimos como o cético pode reunir argumentos plausíveis e perturbadores de que nós conhecemos quase nada. Os argumentos do capítulo anterior são exemplos clássicos dos tipos de preocupação intelectual que ocupam a atenção de filósofos profissionais. Contudo, disputas sobre conhecimento não estão limitadas a filósofos. Frequentemente nós ouvimos que cientistas modernos não sabem se a evolução por seleção natural é verdadeira. Muitos reivindicam que é apenas uma “teoria.” Algumas vezes isso é suportado por um argumento. A ciência, assim essa linha de pensamento prossegue, preocupa-se apena como aquilo que pode ser diretamente observado ou provado com experimentos de laboratório. Mas a evolução, reivindica-se algumas vezes, não pode ser observada diretamente, tanto porque é um processo muito lento quanto porque as observações mais interessantes teriam de ter ocorrido em um tempo antes que houvesse observadores humanos. Além disso, os criacionistas reivindicam que nenhum experimento controlado de laboratório pode provar que a evolução é verdadeira.

Se nós temos de fazer algum progresso, quanto mais resolução, no entendimento desses tipos de disputas intelectuais, nós precisaremos ser muito mais claros em nossas mentes sobre o que conta como conhecimento. Eu afirmo saber que estou em meu computador compondo este capítulo. Não obstante, o cético conta-me que eu não conheço isso; isso poderia ser apenas um sonho. Criacionistas afirma que eu não conheço e que minha “fé” na teoria não é diferente da crença religiosa. Como nós possivelmente esperamos progredir na direção da resolução dessas disputas sem algum acordo bastante específico quanto ao que conta como conhecimento genuíno?

Para alguns, o tipo de análise conceitual com o qual nos envolvemos neste capítulo pode ser engraçado e [20]excitante por conta própria. Contudo, a maioria de vocês deverá vê-la como um meio necessário para um fim. Eu assumo que a maioria de vocês importa-se sobre se cientistas conhecem sobre o que eles estão falando. Se você for como eu, você provavelmente se importa. Mas, para se sentir realmente confiante sobre isso, você necessita ter algumas respostas para o que o cético filosófico, quem diz que tudo poderia ser um sonho, e o cético procedural, quem argumenta a partir de um modelo de conhecimento científico para duvidar sobre coisas tais como evolução e mudança climática. Para responder produtivamente a qualquer um desses céticos você necessita algum acordo sobre a natureza do conhecimento.


Conhecimento e Crença


Seres humanos parecem ser uma espécie muito crédula; nós acreditamos em uma surpreendente variedade de coisas. Nossos ancestrais acreditavam em bruxas, que a terra era plana, e no direito divino dos reis. Hoje as pessoas acreditam que os futuros delas está preditos em horóscopos, que que a boa escrita pode ser atingida nos primeiros rascunhos, e que os times de esporte favoritos delas finamente se organizarão. A partir da perspectiva da história, é fácil encontrar crenças sem conta que nós sinceramente sustentávamos que nos ocorriam como tolas, perigosas e imorais. Mas é claro, nem todas as crenças cabem nessa categoria.

Em outras coisas nós não meramente acreditamos, nós conhecemos. É claro, eu acredito que sou um professor de filosofia, um antigo jogador de softball e marido de uma linda mulher. Mas eu não apenas creio nessas coisas, eu conheço-as. A distinção entre crença e conhecimento não é como uma entre ser um irmão e ser um filho único – não é uma diferença exclusiva, ou … ou. Antes é como a diferença entre um automóvel e um conversível. Ser um conversível é ser um tipo especial de automóvel. Como os lógicos colocam, ser um automóvel é uma condição necessária de ser um conversível. Nem todos os automóveis são conversíveis, mas todos os conversíveis são automóveis.

Modelos, ou definições, tradicionais de conhecimento tentaram articular uma lista de condições necessárias que juntas são suficiente para ter um conhecimento genuíno. O nome abstrato de conhecimento é um pouco artificial. Eu penso que nós faremos melhor em usar um verbo mais familiar. Nossas observações sobre conhecimento e crença sugerem a primeira entrada em nossa lista de condições necessárias:

         J conhece que P somente se:

  1. J acredita que P.

Há uma maneira bastante comum de falar que parece colocar isso em questão. Suponha que você tenha um amigo que está comandado por mágoa em parte porque ele recusa-se a tomar seriamente a evidência óbvia da infidelidade da namorada dele. Nós poderíamos dizer, “Jake sabe que ela é mentirosa, mas ele não pode forçar-se a acreditar nisso.” Ou talvez nós tenhamos um colega que tolamente esteja recusando atenção aos sintomas médicos: “Sarah sabe que alguma coisa errada, mas ela somente não quer acreditar nisso.” Quão seriamente nós devemos ter de levar a afirmação de que tanto Jake quanto Sarah têm conhecimento mas carecem de crença? Não muito.

Jake vê os sinais óbvios e tem seus momentos de dúvida. Sarah também. Se eles não o fizeram, nós não estaríamos inclinados a dizer que eles sabiam. É claro, é possível para pessoas serem perversamente densas. Pessoas podem ser totalmente óbvias para coisas que são perfeitamente óbvias para outros. Connie genuinamente pode acreditar que o namorado dela é totalmente fiel, a despeito das desculpas esfarrapadas e do batom na gola dele. Mas nós nunca estaríamos tentados a dizer que [21]Connie sabia disso, embora talvez ela devesse. Quando nós usamos a expressão “sabe mas não acredita”, nós estamos chegando em alguma coisa interessante sobre Jake e Sarah. Eles parecem estar engajados naquilo que filósofos chamam de autoengano (self-deception). Isso é um ponto importante tanto em filosofia quanto em psicologia, mas realmente não diz nada sobre como definir o conhecimento.

Requer ser esclarecido que conhecimento implica algum tipo de convicção genuína ou confiança intelectual. Dessa maneira, a primeira condição necessária de conhecimento revela-se ser relativamente segura, incontroversa e filosoficamente simples. Gostaria que pudéssemos dizer o mesmo sobre as condições que seguem.


A Busca pela Verdade


Você é o promotor (district attorney), e você pegou um grande caso. O réu é o tipo de suspeito sobre o qual a sociedade precisa fazer alguma coisa. Você também conseguiu evidência sobre ele, muitas evidências físicas, um motivo claro e testemunhas. O caso será fácil de tentar, e será um triunfo pessoal para aquele que o enviar para a prisão. Você apenas “conhece” aquela culpa escorregadia. Há apenas um problema com esse cenário: o cara não fez isso. Não importa quão sincera é sua crença ou quão boa a evidência parece ser – se o que você pensou que conhecia revela-se falso, é necessário voltar ao começo. A verdade é uma precondição absoluta para o conhecimento. Infelizmente, a verdade é uma confusão filosófica.

A filosofia contemporânea está quase tão longe do consenso sobre a natureza da verdade quanto sobre qualquer questão em discussão. Alguns acreditam que verdade é correspondência com realidade. Outros acreditam que é coerência com outras crenças amplamente sustentadas. Outros ainda reivindicam que a asserção de que “’a neve é branca’ é verdadeiraseja apenas uma maneira chique de dizer que “a neve é branca.” Todas essas teorias da verdade têm argumentos plausíveis em suas defesas, e todas sofrem de sérios problemas conceituais. A filosofia profissional não sabe o que a verdade é. Tampouco eu sei o que ela é, mas, mesmo assim, eu direi um pouco mais sobre a verdade no final deste livro.

Contudo, apesar de toda a confusão sobre a natureza da verdade a relação entre verdade e conhecimento é tão clara quanto poderia ser. As únicas crenças que nós temos como candidatas viáveis para ser conhecimento são aquelas que são verdadeiras. A maneira mais certa de derrotar a reivindicação de alguém de que ele conhece alguma coisa é mostrar que o que ele alega conhecer é falso. Isso sugere uma definição epistemológica de verdade que desvia do problema:

        verdade =df não falso

Reconhecidamente, essa é uma definição muito trivial. Contudo, ela tem a vantagem de separar as disputas filosóficas sobre a natureza da verdade da conexão incontroversa entre verdade e conhecimento.

Dessa maneira, a verdade supre uma segunda condição necessária para o conhecimento. Nós podemos expandir nosso modelo em evolução de conhecimento como se segue:

        J conhece que P somente se:

  1. J acredita que P.

  2. P é verdadeiro.


Justificação Epistêmica


Talvez nós já tenhamos tudo de que necessitamos. O conceito de conhecimento parece tanto subjetivo quanto objetivo. Acreditar que algo é equivale a estar em um [22]certo estado cognitivo no qual “sujeitos” individuais encontram-se ou falham em se encontrar. Para essa crença ser verdadeira (ou não falsa) ela precisa ser dependente de coisas inteiramente independentes desses sujeitos – a maneira como as coisas “objetivamente” são. A condição i cuida do elemento subjetivo, e ii cobre o objetivo. Do que mais nós necessitamos?

Eu estive esperando por um aumento. Infelizmente, minha última avaliação deixou muito a ser desejado, e o orçamento do estado parece muito desolado. Eternamente o otimista, eu continuo a pensar no melhor. Eu acordei ontem e, enquanto estava tomando meu café da manhã, dei uma olha no meu horóscopo. A nota para peixes era muito legal: “Você receberá alguma coisa muito atrasada e bem-merecida. Todos os sinais são positivos.” Meu aumento! O que poderia ser mais claro? Eu fui para o trabalho, com um sorriso no rosto, absolutamente confiante de que receberia as boas notícias. E eu recebi! O governador decidiu que todos os funcionários do estado deveriam receber um modesto ajuste de salário, e que à tarde todos estariam formalmente notificados.

As duas condições para conhecimento estão satisfeitas. Johnson acredita que ele receberá um aumento, e é verdadeiro que ele receberá um aumento. Portanto, ele sabe que ele receberá um aumento? A maioria de nós seria muito relutante em dizer que ele possui conhecimento. No que ele acredita revela-se ser verdadeiro, mas meramente por coincidência ou boa sorte. O elemento subjetivo da crença e o elemento objetivo da verdade parecem muito tenuemente conectados. O que parece faltar é alguma razão ou evidência para suportar minha crença. Claro, o horóscopo é uma razão no sentido de fornecer uma explicação psicológica de porque eu aconteço de ter essa crença. Mas é uma razão tão pobre – é tão incerta – que nós atribuímos a verdade da crença à boa fortuna e não à força da razão.

Epistemólogos adotaram a expressão de obrigação normativa para entender a conexão mais forte entre crença e verdade que é necessária para conhecimento genuíno. Você está autorizado (entitled) a reivindicar conhecimento, de acordo com essa maneira de pensar sobre coisas, somente se sua crença é justificada – quer dizer, no caso de você ter uma razão muito boa para pensar que ela é verdadeira. Dessa maneira, na assim chamada de análise padrão do conhecimento, uma terceira condição necessária do conhecimento, uma que completa o pacote e torna-o em conjunto suficiente, é a condição da justificação.

        J conhece que P se e somente se:

  1. J acredita que P.

  2. P é verdadeiro.

  3. J está justificado em acreditar que P.


O que é Preciso para estar Justificado?


Nós vimos como os céticos podem produzir um conjunto formidável de argumentos projetados para mostrar como nós nunca podemos estar completamente justificados em acreditar em coisa alguma. O problema concerne à conexão entre verdade e justificação. O único padrão que elimina completamente a possibilidade de nossas crenças serem sustentadas em erro é o de autoevidência ou certeza. Mas como o projeto cartesiano convenceu a maior parte de nós, a certeza é inatingível. Isso significa que qualquer que seja o modelo de conhecimento que seja finalmente endossado, ele estará comprometido com algum tipo de falibilidade epistêmica. Essa não é uma preocupação tão séria para a maioria dos cientistas naturais ou sociais, mas flui contra a tradição dominante na epistemologia ocidental.

Autoevidência e certeza podem ter estabelecido padrões irrealisticamente altos para o conhecimento, mas esses padrões epistêmicos tinham a [23]aparência superficial de ser claros e identificáveis. Modelos de conhecimento que substituem critérios para justificação epistêmica precisam estar preparados para formular algum novo critério para distinguir crenças infundadas de alguma teoria promissora e de conhecimento estabelecido. A literatura contemporânea oferece muitas possibilidades intrigantes – algumas altamente formais e algumas bem no âmbito do senso comum – mas nenhuma que alcançou nada perto de consenso.

Eu sugiro que nós entendamos a ideia de justificação epistêmica em termos de evidência. As coisas que nós conhecemos são aquelas crenças verdadeiras para as quais nós temos evidências muito, muito, muito boas – o que um advogado chama de prova além de uma dúvida razoável. Boa evidência é alguma coisa com a qual todos nós somos familiares e alguma coisa que nós podemos aprender a identificar com segurança. Eu oferecerei, nos capítulos que seguem, um modelo de – ou um tipo de fórmula para testar – evidência boa. Eu espero convencer você de que esse modelo captura quase tudo com o que nos importamos quando nós avaliamos a qualidade da evidência de uma pessoa ou, até onde diz respeito, de suas reivindicações de conhecimento.

À luz de tudo isso, transformemos a análise padrão do conhecimento no seguinte:

       J conhece que P somente se:

  1. J acredita que P.

  2. P é verdadeiro.

  3. J tem evidência muito boa para P.


Um Problema Irresolvido


Se você esteve lendo muito cuidadosamente, você pode ter notado uma leve diferença na maneria que eu formulei a análise padrão do conhecimento no fim da seção anterior e a seção imediatamente anterior aquela. Vocês é suficientemente esperto para ver a mudança óbvia na condição iii, mas você pode descobrir a outra diferença? A maneira pela qual a tradição filosófica definiu conhecimento é articular condições necessárias e suficientes para conhecer alguma coisa. A análise padrão do conhecimento afirma que as três condições necessárias são, tomadas em conjunto, suficientes para conhecer alguma coisa. Em minha formulação de uma análise “transformada”, eu acovardei-me um pouco. Eu afirmei que minhas três condições eram todas necessárias – isso é o que o “somente se” significa – mas eu deixei aberto se as três condições eram suficientes. Aqui está o porquê.

Considere o seguinte pequeno experimento de pensamento. Minha esposa e eu despendemos a última hora colaborando em nosso molho especial de spaghetti. Exatamente quando nós estávamos para servir o jantar, descobrimos que estávamos sem queijo parmesão. Nós dividimos as responsabilidades – ela preparará a salada e servirá o jantar; eu farei a corrida emergencial à loja. Enquanto na loja, eu encontro um colega fazendo pesquisa em epistemologia contemporânea – ele quer um exemplo de conhecimento. Eu sugiro que sei que há um jantar de spaghetti aguardando em nossa mesa da sala de jantar exatamente agora. Eu acredito nisso, é verdadeiro, e estou justificado em o acreditar. Tudo está certo. Bem, talvez não. Depois que eu saí, nosso pastor alemão, Guido, ficou indisciplinado e derrubou o pote de molho de spaghetti fervente no chão sujo da cozinha. Minha esposa considerou violência contra o cachorro, mas, antes que qualquer coisa pudesse acontecer, um vizinho chegou com um pote de sobras de molho de spaghetti, anunciando que ele estava saindo de férias e certamente o molho estragaria antes que ele retornasse. Dessa maneira, o molho de spaghetti que [24]tornava meu conhecimento verdadeiro não está conectado ao molho de spaghetti que fornece a justificação para minha crença. É estranho ao extremo afirmar que eu tinha conhecimento do pote de spaghetti aguardando em minha mesa. É pura serendipidade que minha revelou-se ser verdadeira.

Muito da epistemologia contemporânea tem preocupado-se com a exclusão desses casos “Guido” (na realidade, eles são chamados de exemplos de Gettier, segundo o filósofo que primeiro os tornou famosos). Muitos filósofos sugeriram que alguma quarta ou quinta ou sexta, e assim por diante, condição precisa ser adicionada à nossa análise do conhecimento. Eu não estou certo de se pessoalmente concordo. Para estar do lado seguro, contudo, eu ficarei contente com a análise transformada acima. A ação epistêmica neste pequeno livro focar-se-á na condição iii de qualquer maneira. O que diabos é ter evidência ou boa evidência ou muito boa evidência para alguma coisa?


Exercícios


  1. Qual é o mito da definição? Ele mostra que a tradicional busca filosófica por definição de termos (analisando-os) é desnecessária? Por que, por que não?

  2. Explique porque ter uma crença verdadeira de que alguma coisa é o caso não é suficientemente bom para alegar conhecer o que é o caso.

  3. O que o exemplo “Guido” mostra-nos sobre o conhecimento?


Questionário Três


Aqui está algo que eu alego conhecer: mudança climática (aquecimento global) é muito real e perigoso. Como o cético epistemológico responderia a isso? Dada a visão de conhecimento defendida neste capítulo, o que necessitaria ser verdadeiro se minha reivindicação de conhecimento está correta?


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 17-24. Disponível em :<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1Plato, “Teatetus,” em Plato: The Collected Dialogues, trad. F. M. Cornford (Princeton, NJ: Princeton University Press, 1961), 909.

Nenhum comentário:

Postar um comentário