segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 5 Inferência à Explicação Melhor

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Capítulo anterior


[37]Capítulo 5

Inferência à Explicação Melhor


Ao fazer essa inferência alguém infere, a partir do fato de que uma certa hipótese explicaria a evidência, a verdade dessa hipótese. No geral, haverá haver várias hipóteses que poderiam explicar a evidência, assim alguém deve ser capaz de rejeitar todas as hipóteses alternativas semelhantes antes que ele seja autorizado a fazer a inferência. Dessa maneira, alguém infere, a partir da premissa de que uma dada hipótese proveria uma explicação “melhor” para a evidência do que qualquer outra hipótese, a conclusão de que a hipótese dada é verdadeira.

Gilbert Harman1


Inferência à Explicação Melhor


Nós estivemos tratando a expressão inferência à explicação melhor como jargão técnico. Ela é uma maneira de considerar a evidência ou, pelo menos, suposta evidência em um argumento indutivo. Se nós considerarmos as palavras componentes nessa expressão, nós descobriremos bastante. Em primeiro lugar, nós estamos lidando com uma inferência. Para nossos propósitos, nós podemos considerar isso como apernas outra maneira de dizer que nós temos um argumento para ser considerado. Essa inferência é para uma explicação. Mas nós não estamos lidando apenas com uma explicação mas com a explicação melhor. Isso implica duas coisas muito importantes. Primeiro, para haver uma comparação, precisa haver outras explicações possíveis dos dados no argumento, explicações rivais. E o argumento também está comprometido com essa explicação original ser melhor do que todas essas rivais. Portanto, parece haver alguma ordem de classificação dos candidatos explicativos, mesmo se ela não for explicitamente declarada.

Eu usarei tudo isso como uma maneira de articular um teste de qualidade da evidência no interior de um argumento. Esse teste será o mais descomplicado quando você for o que eu chamo de um consumidor de um argumento. Connie pensava que ela tinha evidência de que o [38]namorado dela estava beijando Mary Jane. Holmes tinha evidência da decisão de Watson sobre o investimento e sobre o que aconteceu na Mansão Ridling Thorpe. Nós precisamos decidir se esses argumentos são bons. Qual a evidência para a força dessas hipóteses? O que eu chamar de “receita” da inferência-à-explicação-melhor (IEM) é um procedimento para responder a esses tipos de questões avaliativas.


Receita da Inferência-à-Explicação-Melhor

  1. Esquematize o argumento.

  2. Liste algumas explicações rivais sérias (esperançosamente desafiadoras).

  3. Classifique em ordem todas as explicações – a original assim como as rivais.

  4. Baseado na ordem de classificação, veja se a original é a explicação melhor. Se ela é, a evidência passou no teste e parece muito boa. Se ela não é, ela falhou no teste e a evidência é fraca e talvez inexistente.


Primeiro apliquemos o teste ou receita ao argumento simples apresentado na música pop “Lipstick on Your Collar” que nós introduzimos no capítulo 1.


Esquematizando o Argumento de Connie


Naquela fatídica noite no record hop, Connie foi confrontada com dados, principalmente de suas próprias observações, que necessitam urgentemente de explicação. De onde a mancha de batom veio? Por que ele esteve fora por tanto tempo? Por que ele disse que ela pertencia a ela quando a mancha era vermelha e o batom dela era rosa bebê? Por que quando Mary Jane apareceu o batom dela estava todo bagunçado? Embora nem um cientista natural treinado nem uma detetive experiente, Connie facilmente forma uma hipótese explicativa. Quando ela escreve sua canção, ela implicitamente nos pede para explicar o que aconteceu. Aqui está como eu esquematizaria a evidência de Connie para a teoria dela de que o namorado dela estivera beijando Mary Jane quando ele deixou-a sozinho no record hop.


e1. Ele deixou Connie completamente sozinha no record hop.

e2. Ele esteve fora por meia hora ou mais.

e3. Quando ele retornou, havia uma mancha de batom no colarinho.

e4. Quando confrontado, ele alegou que a mancha vinha do batom de Connie.

e5. A mancha era vermelha.

e6. O batom de Connie era rosa bebê.

e7. O batom de Mary Jane estava todo bagunçado.

------------------------------

t0. Ele estivera beijando Mary Jane durante a ausência de meia hora.


Explicações Rivais (dos Dados de Connie)


Para nossos propósitos, explicações rivais serão explicações dos dados que negam completamente a explicação original e substituem uma história completamente diferente dos dados oferecidos como evidência. Será útil imaginar cada explicação verdadeiramente rival de evidência como se iniciando por uma longa frase preliminar – “não, não, não, ela não estava beijando Mary Jane durante sua ausência do record hop; antes …” Isso é importante porque a explicação original pode ser expressa em linguagem muito diferente.


0. Ele e Mary Jane queriam livrar-se de Connie assim eles poderiam beijar-se.


Ou uma explicação poderia oferecer uma consideração mais (ou menos) detalhada do que aconteceu.


[39]t´´0. Ele procurava um refrigerante mas encontrou Mary Jane e não pôde controlar-se.


Nem t´0 nem t´´0 contam como explicações rivais. Se você fosse desafiar Connie com elas, eu não acredito que ela diria, “Oh, sim, talvez eu estivesse errada,” mas antes ela exclamaria, “Exatamente!”

Então, o que mais poderia ter ocorrido? Connie nunca sugere qualquer explicação rival, mas elas suficientemente fáceis de formular. Ele procurava um refrigerante, exatamente como ele disse. Quando perguntado sobre a mancha de batom, ele respondu que ela vinha de Connie, uma vez que ela era a única que ele estivera beijando. O detergente de lavandeira da mãe dele deixou um resíduo no colarinho que quimicamente mudou o batom rosa bebê para uma cor vermelha brilhante. Mary Jane estivera beijando um novo cara que ela conheceu no record hop, e isso bagunçou o batom dela. Nós podemos rotular isso de explicação rival t1.


t1. O batom mudou de rosa para vermelho por causa de uma reação química com o detergente para roupa da mãe dele.


Ou as circunstâncias poderiam ser mais sinistras. Ele deixou Connie sozinha porque ele estava sentindo-se mal, mas considerou mais decoroso dizer que ele queria um refrigerante. Mary Jane estava guardando rancor contra Connie desde o último encontro do conselho estudantil. Ela encontrou-o na entrada, distraiu-o, e limpou batom no colarinho dele. Após ele sair para retornar a Connie, Mary Jane borrou o batom dela com o dorso da mão. Quando ele retornou e foi perguntado sobre a mancha, ele contou a Connie que era dela porque ela era a única que ele estivera beijando. Rotulemos essa de t2.


t2. Mare Jane organizou a coisa toda como vingança.


t1 e t2 foram as explicações rivais às quais eu cheguei quando primeiro introduzi esse exemplo em um artigo de conferência há vários anos. Subsequentemente eu usei o exemplo em questionários em vários de meus cursos de pensamento crítico. Muitos de meus estudantes sugeriram uma explicação rival que agora eu acredito é muito mais desafiadora da teoria original de Connie do qualquer uma das tentativas anteriores. Talvez a mancha realmente veio de Connie mas não daquela noite no record hop. Ela poderia usar vermelho brilhante quando eles beijaram-se no último fim de semana. Ele não é tão entusiasmado para lavar as roupas regularmente e usou a camisa manchada no record hop.


t3. A mancha veio de um episódio anterior troca de beijos, quando Connie estava usando batom vermelho.


Ordem de Classificação das Explicações (para o Argumento de Connie)


Agora nós temos sobre a mesa quatro explicações concorrentes do que aconteceu no record hop.


t0. Ele estivera beijando Mary Jane durante a ausência de meia hora.

t1. O batom mudou de rosa para vermelho por causa de uma reação química com o detergente para roupa da mãe dele.

t2. Mare Jane organizou a coisa toda como vingança.

t3. A mancha veio de um episódio anterior troca de beijos, quando Connie estava usando batom vermelho.


[40]A inferência à explicação melhor pede-nos para julgar uma dessas explicações como melhor do que as outras. Como diabos nós começamos o processo de julgar uma explicação como superior a outra? O que conta e o que não conta em uma semelhante comparação? Nós trataremos disso com algum detalhe em um capítulo posterior, mas agora, simplesmente expressemos a questão como “Que explicação produz o melhor sentido do que nós conhecemos?

Eu assumo que tanto t1 quanto t2 classificar-se-iam bem baixas em nossa lista, comparadas com t0 e t3. Não é parte da razão para isso que ambas introduzem alguma coisa “do nada (out of the blue)” para explicar a ausência? De onde vem esse misterioso detergente de roupa? Ou esse rancor todo da parte de alguém que ela considerara sua melhor amiga?

E quanto a t0 e t3, contudo? Ambas parecem suficientemente razoáveis. Permita-me simplesmente asserir alguns fatores do que não contam na ordem de classificação de explicações. A explicação melhor não é necessariamente aquela de que nós gostamos melhor, nem aquela que melhor concorda com nossas perspectivas políticas, religiosas ou morais. É aquela que é mais plausível.

Aqui surge um fato assustador! Você tem de julgar sobre qual é a explicação melhor. Não há teste ou fórmula “objetivo,” “confiável” que você possa utilizar e que automaticamente identifique a explicação melhor. Portanto, a receita toda depende de um passo que é francamente, inevitavelmente, subjetivo. Quando se chega a sabores de sorvete ou estilos de cerveja, ser subjetivo significa que as preferências da pessoa são relativas a quem ela é e, consequentemente, são inconsistentes. Se avaliação de evidência é o mesmo, nós estamos terminados, e eu posso parar de escrever o meu livro e de ensinar meus cursos como eu faço. Felizmente, eu acredito, plausabilidade explicativa é muito diferente de preferências de cerveja. Mesmo embora cada um de nós, sujeitos individuais, precisa classificar em ordem explicações alternativas para nós mesmos, revela-se que, em um grande número de contextos – tribunais de justiça, as ciências naturais, e até histórias sobre manchas suspeitas de batom – julgamentos subjetivos sobre plausabilidade podem revelar-se ser intersubjetivos. Quando tudo isso está dito e feito, quando nós pensamos sobre isso tão livres de preconceito e viés como nós podemos, nós descobrimos acordo generalizado sobre qual é a explicação melhor. Nós somos a espécie mais inteligente que alguma vez existiu, e parte de ser inteligente é ser muito bom em notar a explicação melhor do que está acontecendo à nossa volta.

Eu classifico em ordem nossas quatro explicações na seguinte ordenação:


t0. Ele estivera beijando Mary Jane durante a ausência de meia hora.

t3. A mancha veio de um episódio anterior troca de beijos, quando Connie estava usando batom vermelho.

t1. O batom mudou de rosa para vermelho por causa de uma reação química com o detergente para roupa da mãe dele.

t2. Mare Jane organizou a coisa toda como vingança.


Eu concedo que t0 e t3 estão bem próximas uma da outra, mas eu penso que, em absoluto, Connie não teria ficado tão surpresa disso se ela regularmente usasse batom vermelho brilhante, e além disso, a ideia toda de Connie ter batom vermelho é um pouco do nada, também.


Avaliação da Evidência (de Connie)


Todo o propósito da receita da inferência-à-explicação-melhor é avaliar a qualidade da [41]evidência em um argumento. Nós precisamos encontrar a explicação melhor. Em primeiro lugar, o teste todo depende do que é. Em meu julgamento considerado, a teoria de Connie foi a explicação melhor e, portanto, a evidência dela é muito boa. Por toda a conversa sobre intersubjetividade, eu compreendo completamente que algum de vocês terão classificado t3 à frente de t0. Aqueles de vocês que chegaram a esse julgamento diriam que, uma vez que há uma explicação melhor dos fatos no record hop, a evidência de Connie é fraca.

Eu tenho pedido a meus estudantes para usar a receita da inferência-à-explicação-melhor para avaliar a qualidade da evidência apresentada em um argumento há mais de três décadas. O erro individual mais comum que meus estudantes cometem, incluindo alguns dos melhores e mais inteligentes, é esquecer do propósito da receita e negligenciar oferecer uma avaliação da evidência no argumento. Frequentemente eles esquematizam-no belamente, inventam algumas explicações rivais desafiadoras e oferecem comentários sutis e perspicazes sobre como e porque eles ordenaram em classificação como eles fizeram-no, mas então permanecem silenciosos sobre a qualidade da evidência. Eu quase estou tentado a incluir um quinto passo na receita, dizendo algo tal como se segue:


  1. Conclua sua análise com uma das seguintes sentenças: “Uma vez que a teoria original provou-se ser a explicação melhor dos dados na evidência, a evidência do argumento é muito boa (forte, etc.)” ou “Uma vez que há uma explicação melhor dos dados na evidência, a evidência do argumento é fraca (pobre, inexistente, etc.).”


O passo 4 requer uma avaliação explícita da evidência, como ela foi apresentada e esquematizada, no argumento original!


E quanto aos Vínculos?


Suponha que você chegou à conclusão de que o beijo de Mary Jane e o beijo de Connie na última semana eram explicações igualmente plausíveis dos dados que você tinha? O que acontece na receita quando a original e uma das rivais estão vinculadas para o primeiro lugar?

Esse é um clássico tipo meio cheio, meio vazio de dilema. Você poderia dizer que desde que a original está vinculada como a explicação melhor, há alguma evidência para essa conclusão. Contudo, você também poderia dizer que, uma vez que há uma explicação rival que está vinculada como a explicação melhor, a evidência não é tão intensa. Eu acredito que, por qualquer caminho que nós formos, a mensagem é realmente a mesma. A original estar vinculada como a explicação melhor permite-nos ver porque alguém ofereceria o argumento em sua defesa em primeiro lugar e porque há alguma evidência que parece suportá-lo. Uma rival estar vinculada como a explicação melhor diz-nos que a evidência está longe de ser conclusiva. Idealmente, em um tal caso, nós saímos e investigamos um pouco mais e vemos se nós podemos descobrir alguns novos dados que ajudariam a quebrar a ligação. E de fato, todo o assunto de novos dados é o tópico para nosso próximo capítulo. Mas antes de se dirigir para lá, apliquemos a receita a um argumento científico.


As Origens da Linguagem Natural


O que se segue vem de um artigo por dois proeminentes cientistas cognitivos, Stephen Pinker e Paul Bloom:


Todas as sociedades humanas possuem linguagem. Tanto quanto sabemos, elas sempre possuíram; a linguagem não foi inventada por alguns grupos e espalhada para outros como agricultura ou o [42]alfabeto. … As gramáticas das sociedades industriais não são mais complexas do que as gramáticas dos caçadores-coletores. … No interior das sociedades, humanos individuais são usuários proficientes de linguagem sem consideração de inteligência, status social ou nível de educação. Crianças são falantes fluentes de sentenças gramaticais complexas pela idade de três anos, sem o benefício de educação formal. Elas são capazes de inventar linguagens que são mais sistemáticas do que aquelas que elas ouvem, mostrando semelhanças com linguagens que elas nunca ouviram, e obedecem a princípios gramaticais para os quais não há evidência em seus ambientes. … A habilidade de usar uma linguagem natural pertence mais ao estudo da biologia humana que da cultura; é um tópico como ecolocalização em morcegos ou estereopsia em macacos, não como escrita ou a roda. … Nós argumentamos que a linguagem não é diferente de outras habilidades complexas tais como ecolocalização e esteropsia, e a única maneira de explicar a origem de tais habilidades é através da teoria da seleção natural.”2


A tese de Pinker e Bloom é de que nosso conhecimento de sintaxe ou gramática não é alguma coisa que nós aprendemos, mas é inato, alguma coisa com a qual nós nascemos. Aranhas não aprendem a fiar teias; elas simplesmente as fiam. Morcegos não aprendem a usar ecolocalização; eles simplesmente a usam para navegar. Bebês não aprendem gramática; eles já a possuem enquanto eles aprendem suas linguagens nativas.

Por favor, tome um momento para testar sua habilidade para esquematizar o argumento de Pinker e Bloom antes de ler mais.


O Argumento Esquematizado


Pinker e Bloom estão defendendo uma hipótese científica sobre as origens da linguagem natural e a convicção deles de que sua história jaz na seleção natural.


t0. A única maneira de explicar a origem da linguagem é através da teoria da seleção natural.


Eles apresentam uma grande quantidade de dados para suportar a teoria deles. Aqui está como eu esquematizaria a evidência:


e1. Todas as sociedades humanas possuem linguagem.

e2. Elas sempre possuíram linguagem.

e3. A linguagem não foi inventada e não se espalhou.

e4. Gramáticas contemporâneas não são mais complexas do que aquelas dos caçadores-coletores.

e5. Humanos são usuários proficientes da linguagem, sem consideração de inteligência, status social ou nível de educação.

e6. Crianças são falantes fluentes de sentenças gramaticais complexas pela idade de três anos, sem o benefício de educação formal.

e7. Crianças são capazes de inventar linguagens que são mais sistemáticas do que aquelas que elas ouvem, mostrando semelhanças com linguagens que elas nunca ouviram e obedecendo a princípios para os quais não há evidência em seus ambientes.

------------------------------

t0. A origem da linguagem é explicada através a teoria da seleção natural.


Explicações Rivais (dos Dados de Pinker e Bloom)


Uma teoria superficialmente similar foi primeiramente introduzida por Noam Chomsky no final dos anos de 1950. Ele argumentava que a seleção natural produziu cérebros maiores e que a habilidade de dominar uma linguagem natural tão facilmente foi um feliz subproduto desse cérebro de tamanho maior. [43]Ele foi bastante enfático de que a linguagem não foi “selecionada” em nossa história evolucionária. A visão de Chomsky foi expandida pelo importante biólogo evolucionista Steven Gould:


Sim, o cérebro torna-se maior através da seleção natural. Mas, como um resultado de seu tamanho, e da densidade e conectividade neural dessa maneira concedida, cérebros humanos podem realizar uma variedade imensa de funções completamente não relacionadas às razões iniciais para o aumento de massa. O cérebro não se torna maior para que nós possamos ler ou escrever ou fazer aritmética ou mapear as estações – contudo, a cultura humana como nós conhecemo-la, depende de habilidades desse tipo. … Os universais da linguagem são tão diferentes de qualquer outra coisa na natureza, e tão peculiares em sua estrutura, que sua origem como uma consequência lateral da capacidade aprimorada do cérebro, em vez de um simples avanço na continuidade a partir de grunhidos e gestos ancestrais, parece indicada. (Esse argumento sobre linguagens não é de maneira alguma originalmente meu, embora eu alie-me completamente com ele; essa linha de raciocínio segue-se diretamente de uma leitura evolucionária da teoria da gramática universal de Noam Chomsky.)”3


t1. A seleção natural produziu cérebros humanos maiores e mais neuralmente densos. Foi uma “consequência lateral” que esses cérebros deram-nos habilidades linguísticas notáveis.


Minha próxima explicação rival vem de meu próprio ensino. Há vários anos eu estava ensinando um curso de psicologia filosófica e, como parte dele, eu disse a meus estudantes para lerem os artigos de Pinker e Bloom e de Stephen Jay Gould a partir do qual eu tirei a citação acima. Em um ensaio de exame para levar para casa, eu pedi aos estudantes para discutirem a controvérsia e tomarem lados sobre qual argumento era mais forte. Uma de minhas estudantes, alguém com complementação acadêmica (minor) em filosofia e que participara de vários cursos meus e conhecia tudo sobre inferência à explicação melhor, ofereceu uma explicação rival da evidência de Pinker e Bloom, a qual ela argumentou era melhor do que ambas t0 e t1. Eu fiquei tão tomado pela originalidade do argumento dela que me ofereci para ser coautor com ela e ver se nós poderíamos conseguir publicar a ideia dela. Nós fomos bem-sucedidos!4

Joyclynn Potter é uma teísta comprometida. Mas ela também é uma boa estudante de filosofia. A crença dela é uma pedra angular de quem ela é e de como ela pensa. Contudo, ela é intelectualmente curiosa e longe de ser de mente fechada. Ela simpaticamente leu e entendeu o argumento de Pinker e Bloom e o argumento rival de Gould. Ele rejeitou ambos, não porque eles eram ambos naturalistas seculares em espírito, nem porque ambos endossassem evolução por seleção natural, mas porque ela sentiu que ambos possuíam problemas explicativos e que o teísmo tradicional oferecia uma explicação melhor do que nós conhecemos sobre linguagem. Aqui está como eu tentei expressar a posição de Joci.


Qual é a explicação melhor desses fatos sobre linguagem humana? Há amplo consenso de que há alguma coisa inata e quase certamente biológica, mas uma explicação totalmente secular e evolucionária é loucamente difícil de produzir. Teístas, contudo, podem facilmente admitir a hipótese de que tanto uma habilidade unicamente humana para adquirir e usar uma linguagem natural quanto uma sintaxe mental que estrutura o pensamento humano de uma maneira quase linguística (uma linguagem de pensamento) são produtos de um criador infinitamente sábio e beneficente.”5


t2. A habilidade unicamente humana para adquirir e usar uma linguagem natural é um dom de Deus.


[44]Agnósticos Ideias


Eu quero compartilhar com você uma ideia pela qual eu estou muito tomado nestes dias. Ela vem de um filósofo contemporâneo, que se revela ser um filósofo cristão muito sincero, chamado de Peter van Inwagen. Ele propõe uma audiência para argumentos (pelos menos aqueles que ocorrem em debates filosóficos) que é psicologicamente impossível, mas, apesar disso, útil de imaginar.


A audiência é composta do que eu poderia chamar de agnósticos ideias. Quer dizer, eles são agnósticos no que se refere ao tema do debate. … Cada membro da audiência não terá opinião inicial sobre [o assunto do debate]… Meus agnósticos imaginários … muito provavelmente chegariam a alguma opinião arrazoada [sobre o debate] … de fato, a alcançar o conhecimento do assunto se isso fosse possível … eles não se importam que posição … eles terminem aceitando, mas eles querem muito aceitar uma ou outra.”6


Agnósticos ideias são absolutamente indiferentes – intelectualmente, pessoalmente e de toda outra maneira que poderia influenciá-los. Mas isso não significa que eles não se importam. Eles também são apaixonadamente comprometidos em descobrirem qual explicação é a mais forte.

Eu não sou um agnóstico ideal e nem você é. Mas eu acho que ambos estamos bem servidos em nossas discussões e investigações para fingir que nós somos. De fato, eu estou sugerindo que em qualquer ocasião em que nós avaliemos evidência potencial, nós tentemos tão intensamente quanto possível adotar a posição do agnóstico ideal, sabendo durante todo esse tempo que nós falharemos em certos aspectos. Quando nós estamos apresentando nosso próprio argumento, eu também sugeriria que nós finjamos que nossa audiência não é composta de partidários, mas, em vez disso, de agnósticos ideais.

Toda essa pequena subsecção pode ocorrer a você como uma distração tediosa. Eu estou abusando disso porque todos nós carregamos vieses conosco que inevitavelmente afetarão nossa classificação em ordem de explicações. Essa é a posição na qual eu encontro-me no argumento presente. Eu importo-me profundamente com argumentos na filosofia da religião e ciência cognitiva. Eu tenho grande respeito por todos os cientistas envolvidos no debate sobre linguagem, e também tenho grande respeito por Joyclynn Poter e a tradição que ela representa no interior da teologia natural. Eu pensei e escrevi sobre essas questões por minha carreira toda. Certamente meu ceticismo perpétuo sobre religião afetou minha avaliação da evidência exatamente como a fé comprometida de Joci afetou a dela. No final, nós tivemos de concordar em discordar, mas, felizmente, nós entendemos melhor os argumentos um do outro, e, em última análise, ficamos em uma posição para compartilhar nosso pensamento compartilhado com uma audiência profissional mais ampla.


Ordem de Classificação das Explicações (para o Argumento de Pinker e Bloom)


Enquanto lendo e graduando o exame de Joci e, posteriormente, enquanto colaborando com ela, eu vim a concordar ainda mais fortemente com Pinker e Bloom. Aqui está como eu classifico em ordem essas três explicações concorrentes do que nós conhecemos sobre linguagem.


t0. A única maneira de explicar a origem da linguagem é através da teoria da seleção natural.

t1. A seleção natural produziu cérebros humanos maiores e mais neuralmente densos. Foi uma “consequência lateral” que esses cérebros deram-nos habilidades linguísticas notáveis.

[45]t2. A habilidade unicamente humana para adquirir e usar uma linguagem natural é um dom de Deus.


Chomsky e Gould sem dúvida inverteriam t0 e t1. Joyclynn foi forçada no exame a comprometer-se se t0 era melhor do que t1 e, como eu lembro, ela preferiu t0. Mas ela discordou dramaticamente com o professor dela e ordenou as três hipóteses como se segue:


t2. A habilidade unicamente humana para adquirir e usar uma linguagem natural é um dom de Deus.

t0. A única maneira de explicar a origem da linguagem é através da teoria da seleção natural.

t1. A seleção natural produziu cérebros humanos maiores e mais neuralmente densos. Foi uma “consequência lateral” que esses cérebros deram-nos habilidades linguísticas notáveis.


Desacordos


O que nós fazemos com desacordos apaixonados, mas arrazoados? Stephen Jay Gould e Noam Chomsky foram dois dos mais importantes cientistas do final do século XX. Steven Pinker e Paul Bloom são as estrelas do século XXI. Baseado apenas nas credências deles é impossível tomar lados. Joyclynn Potter não é cientista natural, mas ela é uma mulher muito esperta e pensativa. O que nós devemos fazer com o fato de que pessoas muito inteligentes e muito honradas descordam de para onde a evidência aponta?

Alguém poderia argumentar que tudo isso revela uma falha fatal na inteira abordagem da inferência-à-explicação-melhor para a evidência. Como posso continuar a argumentar – como eu já faço e pretendo continuar mais vigorosamente em um capítulo posterior – que nós somos explicadores habilidosos quando pessoas igualmente espertas e comprometidas assim discordam quanto a qual é a realmente a explicação melhor? A resposta breve é que simplesmente essa é a natureza da evidência. Muitas vezes ela aponta para uma direção clara, e nós podemos esperar alguma coisa como acordo intersubjetivo. Nesses casos fáceis, os quais eu acredito constituírem a vasta maioria das vezes quando nós conscientemente avaliamos evidências, a inferência à explicação melhor aproxima-nos do padrão de conhecimento que desenvolvemos no capítulo 3. A evidência para a hipótese de que o fumo é fator causal em câncer de pulmão é tão forte que nós simplesmente não podemos dizer que a evidência aponta naquela direção; em vez disso nós dizemos que sabemos que fumar causa câncer de pulmão.

Provavelmente, nós não estamos naquele grau de certeza sobre o que aconteceu no record hop nem, contudo, nós possuímos a história completa sobre a origem da linguagem natural. Entretanto, nós possuímos muitas evidências relevantes. A inferência à explicação melhor ajuda-nos a alcançar nossa avaliação pessoal da evidência e felizmente nos ajuda a entender o raciocínio daqueles que veem as coisas diferentemente. Nenhum de nós – nem nossos maiores cientistas, juízes da Suprema Corte, nem apenas as pessoas inteligentes com as quais nós interagimos regularmente – possuem a assim chamada a visão do olho de Deus, a qual permitiria a simples “percepção” da verdade. Uma vez que não a possuímos, o melhor que nós podemos fazer é depender da evidência para ajudar a apontar-nos na direção da verdade. E, como a história da ciência ou debates contemporâneos em jurisprudência e ciência cognitiva mostram-nos, nós simplesmente nós esperamos uma certa quantidade de desacordo.


[46]Não se Esqueça da Avaliação Final da Evidência!


Quando eu avalio a evidência para a hipótese de Pinker e Bloom utilizando a receita para a inferência-à-explicação-melhor, minha classificação em ordem no passo 3 compromete-me com minha avaliação final. Para mim, t0 fornece a explicação melhor da evidência alegada em apoio à hipótese de Pinker e Bloom. Portanto, a evidência que eles introduzem é muito forte.

Chomsky e Gould chegariam a uma avaliação muito diferente da evidência. Para eles, t0 falha em fornecer a explicação melhor da evidência de Pinker e Bloom; t1 fornece uma explicação melhor. Portanto, a evidência apresentada no artigo é pobre.

Joyclynn Potter concordaria com Chomsky e Gould, mas por uma razão muito diferente. Ela também acredita que t0 falha em fornecer a explicação melhor para a evidência de Pinker e Bloom, mas ela está convencida de que t2 é a explicação superior. Portanto, ela também diria que a evidência no artigo dele é pobre.


Um Bis Mágico?


Muito por acidente, eu descobri uma falha (glitch) no software no iPod. Em uma noite de sábado do último ano, minha esposa e eu fomos a um banquete para a League of Oregon Cities. O entretenimento foi Pink Martini, uma banda de Portland da qual eu gosto muito. Eu já planejara que eu estava indo pedir duas canções quando eles retornaram para um bis – “Lilly” e “Que Sera Sera.” Como se revelou, eles fizeram “Que Sera Sera” como parte do concerto deles, e não houve chance de pedir quando eles fizeram seu bis. No domingo, enquanto eu dirigi de volta de Portland, eu liguei meu iPod para os ouvir novamente. Eu defini as configurações para “Todas (All)” e para “Reproduzir músicas aleatoriamente (Suffle Songs).” Isso significava que meu iPod buscou através dos dois álbuns deles, encontrou todas as trinta e seis canções e tocou-as em ordem “aleatória.” Essa é a falha! As duas últimas canções foram “Lilly” e “Que Sera Sea.” O bis exato que eu imaginara na noite anterior! Quais as chances disso? Minha teoria é de que essas duas canções vieram por último, não aleatoriamente, mas porque, de todas as canções do Pink Martini, eu ouço essas duas mais frequentemente. Eu estou pensando em escrever para a Apple e contar-lhes sobre o problema.

Esse filósofo louco tem uma teoria de que há uma falha no software do iPod. Por prática, e para assegurar que você entendeu a receita IEM, tome uns poucos minutos e, usando todos os quatro passos na receita da inferência-à-explicação-melhor avalie a qualidade da evidência que ele tem para a teoria dele.


Exercícios


  1. O que é uma explicação rival?

  2. Quais são os quatro passos na receita da inferência-à-explicação-melhor? Por que eu estava tão tentado a adicionar um quinto passo?

  3. Qual é a vantagem de imaginar toda a análise de argumento, ou avaliação de evidência, como uma discussão entre agnósticos ideais?

  4. No final do capítulo 4, eu pedi a você para esquematizar o argumento de Leslie para a teoria dela de que Johnny deixou-a para se dedicar a Judy (p. 35). Esse foi o passo 1 na receita IEM. Agora, use os outros três passos para determinar se a evidência de Leslie é forte, fraca ou apenas mais ou menos.


[47]Questionário Cinco


Em 20 de julho de 2013, um artigo apareceu no New York Times argumentando que famílias femininas podem tornar homens mais generosos. Aqui está um link para o artigo: https://www.nytimes.com/2013/07/21/opinion/sunday/why-men-need-women.html.

Use todos os passos na receita IEM para avaliar a qualidade da evidência para a alegação de que “a mera presença de membros femininos na família – até infantes – pode ser suficiente para impelir homens à direção generosa.”


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 37-47. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1G. Harman, “The Inference to the Best Explanation,” Philosophical Review 74, no.1 (1965): 89.

2Steven Pinker e Paul Bloom, “Natural Language and Natural Selection,” em The Adapted Mind, ed. Jerome H. Barkow, Leda Cosmides e John Toby (New York: Oxford University Press, 1992), 451.

3Stephen J. Gould, “Tires to Sandals,” Natural History, April 1989, 8-15, citado em Daniel C. Dennett, Darwin’s Dangerous Idea (New York: Simon & Schuster, 1995), 390.

4Jefery L. Johnson and Joyclynn Potter, “The Argument from Language and the Existence of God,” Journal of Religion 85, no.1 (January 2005).

5Johnson and Potter, 84.

6Peter van Inwagen, The Problem of Evil (New York: Oxford University Press, 2006), 44.

Nenhum comentário:

Postar um comentário