terça-feira, 21 de setembro de 2021

Inferir e Explicar - Capítulo 4 Argumentos

Inferir e Explicar


Por Jeffery L. Johnson


Capítulo anterior


[25]Capítulo 4

Argumentos


Quando nós damos razões para sustentar uma visão ou alcançar uma conclusão, o processo é intrinsecamente articulado. Dar razões requer linguagem, conceitos e habilidade com palavras, não apenas uma habilidade para falar. Para duas (ou mais) pessoas compartilharem seus raciocínios requer-se um tipo de articulação reflexiva, uma habilidade para expressar o raciocínio de uma maneira que seja inteligível para uma audiência particular … O que aqui nós chamaremos de “argumento” pretende capturar tudo aquilo que nós tornamos explícito quando damos razões para uma visão ou proposição … Muito da dificuldade de raciocinarmos juntos vem de simplesmente não entendermos os argumentos uns dos outros – de não entendermos o significado das palavras para expressar razões e as visões que elas suportam.

Larry Wright1



A Importância dos Argumentos


Eu estou em uma carreira incomum, onde argumentos dominam minha vida profissional. Eu sou pago para ensinar a meus estudantes o que filósofos tinham a dizer sobre uma grande variedade de tópicos. Quase sempre, esses filósofos, quer eles sejam os “grandes (biggies)históricos ou pensadores contemporâneos, suportam suas teorias com argumentos. Obviamente, se eu vou fazer meu trabalho, eu preciso ajudar meus estudantes a separem os argumentos bons dos ruins. Como um professor, eu também participo do que é chamado de “governança compartilhada,” e como uma consequência, eu sou requerido a votar e ajudar a decidir políticas, currículos, e outras questões de importância universitária. Os administradores e meus colegas consistentemente defendem posições de grande importância com argumentos apaixonados. Uma vez que eu levo essa parte de minha profissão muito seriamente, eu considero essencial decidir quais desses argumentos eu considero mais persuasivos.

A maior parte de nós não é simplesmente de consumidores de argumentos, nós também somos produtores. Em meu próprio trabalho, eu apresento e defendo teorias sobre privacidade, a constituição, a pena de morte, a existência de Deus e um número de outros tópicos filosófica, política e legalmente controversos. [25]Como um participante ativo em governança compartilhada, eu tomo lados, defendo posições e, ocasionalmente, tomo a iniciativa por causas particulares. Tudo isso exige que eu defenda minhas visões. Nesses casos, é meu nome no argumento e há um sentido elevado não apenas de propriedade, mas de responsabilidade pessoal e profissional. Eu preciso que meus argumentos sejam tão fortes quanto eles possam ser, não apenas convincentes, mas plausíveis e, felizmente, apontando a direção correta.

A sua vida pode não ser tão intensiva em argumentos quanto a minha, mas se você parar refletir um pouco, acho que encontrará argumentos à sua volta. Anunciantes argumentam porque você deveria comprar os produtos deles e políticos, porque eles merecem o seu voto. Você pode necessitar do aconselhamento de contadores e economistas, felizmente apoiado por argumentos, para planejar um investimento principal de negócios ou sua aposentadoria. E você também é um produtor de argumentos. Aquele memorando que você escreveu para o seu chefe sobre a maneira que as coisas são feitas ou o caso que há pouco você fez para seu parceiro sobre a necessidade de comprar um novo carro é um argumento.

Este livro é sobre argumentos e uma técnica sugerida para a distinção entre argumentos bons e ruins. Essas dicas gerais são destinadas a serem usadas tanto quando você encontra-se na posição do consumidor de um argumento e precisa tomar alguma decisão sobre a qualidade da evidência dele como quando você é o produtor do argumento é deseja apresentar a evidência mais forte que você pode. Eu não alego ter uma bala mágica que automaticamente mostrará a verdade sobre questões complicadas. Mas eu acho que você ficará agradavelmente surpreso com quão frequentemente essa técnica prova-se útil para pensar através dessas questões, descobrindo onde você posiciona-se e até começando o processo de formulação de seus próprios argumentos sobre elas.


O que é um Argumento?


Um aspecto potencialmente errôneo em alguns de meus exemplos anteriores é que quando se chega a questões controversas, tais como aborto ou pena de morte, as temperaturas podem ficar altas. E acredite-me, debates sobre currículo ou política universitária podem ser tão emocionalmente explosivos. Há um uso perfeitamente correto da palavra argumento (argument) que basicamente significa uma luta verbal. Joe e Sally entraram em uma terrível discussão (argument) sobre a falha dele em fazer sua parte da limpeza de casa. Contudo, não é isso que nós queremos dizer com o termo. Claro, haverá vezes quando argumentos serão muito importantes, e desacordos sobre suas força ou fraqueza tocarão nossas emoções assim como nossa razão. Haverá muitas outras vezes, contudo, quando os argumentos estão simplesmente aqui para nossa consideração, e nós podemos avaliá-los livres de paixões ou comprometimento pessoal. De fato, tanto quanto possível, eu recomendaria adotar uma abordagem desapaixonada, até quando você sentir fortemente sobre o que está em questão.

É útil ver um argumento como um arranjo complexo de três coisas bastante diferentes. Haverá o que os lógicos chamam de uma conclusão – alguma teoria, hipótese ou posição que o argumento busca defender. Haverá premissas – fatos, dados ou evidências que o argumento usa para suportar a conclusão. E haverá uma relação entre as premissas e a conclusão através da qual a conclusão segue-se das (follows from) premissas. Nós podemos representar esquematicamente um argumento como se segue:


[26]e1. Premissa

e2. Premissa

e3. Premissa

en. Premissa

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t0. Conclusão


Comecemos pela base. Cada argumento terá uma conclusão – isso é parte da definição de um argumento. Quando nós colocamos um argumento no que nós chamaremos de sua forma esquemática, ele sempre chegará a um fim, sob a grande linha pesada. Mas no mundo real dos argumentos, nós devemos tratar o termo conclusão como jargão técnico. Nem sempre conclusões vêm no término (conclusion) do argumento de uma pessoa. Algumas vezes elas vêm no começo.


Dick está traindo Jane. Ele contou a ela que ele teve de trabalhar até tarde, mas Sally viu o carro dele no Bar do Joe. Não apenas isso, ele olha maliciosamente para outras mulheres e, das últimas três vezes que ela ligou para ele, ele não respondeu.


Algumas vezes elas vêm no meio.


O exame para levar para casa de Charlie era palavra por palavra idêntico ao de Sarah. Claramente, Charlie copiou-o de Sarah. O cara é um perdedor, nunca vem à aula e não sabe como escrever muito bem.


E, é claro, algumas vezes, elas estão no final.


A luz de virtualmente todas as galáxias está “deslocada para o vermelho.” Isso mostra que toda galáxia está afastando-se de todas as outras galáxias. Portanto, o universo físico está expandindo-se.


Eu usei a letra minúscula t em minha representação esquemática para representar teoria. O subscrito “0” é usado para realizar duas tarefas. Apesar de haver apenas uma teoria defendida na conclusão do argumento (embora essa única conclusão possa ser complicada e composta de muitas partes – “portanto, Jake fez isso, ou ajudou a planejar isso, ou alguém leu o seu diário”), nós necessitamos registrar outras teorias possíveis além daquela defendida no argumento. Assim “0” pode ser entendido como o número zero e começo de uma sequência numerada de teorias. Mas o “0” também pode ser lido como a letra o e representando original – a teoria ou conclusão originais do argumento.

Para padronizar as coisas, nós usaremos a letra minúscula e para representar um fragmento individual de evidência. Não há números determinados de premissas, ou pedaços da evidência, em um argumento. Ocasionalmente, haverá um único dado e às vezes, haverá bastante dados suportantes. Os exemplos anteriores ilustram não apenas que conclusões podem vir em muitas posições na afirmação de um argumento, mas que o mesmo é verdadeiro para as afirmações da evidência.

Reformulemos nosso argumento esquematizado em termo de evidência para uma teoria:


e1. Evidência (dado)

e2. Evidência (outro dado)

e3. Evidência (outro dado)

en. Evidência (outro dado)

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t0. Teoria


[28]Conexão Lógica


Nós falamos um pouco sobre o topo e a base em nossa representação esquemática de um argumento. E quanto aquela conspícua e grande linha forte? Em bons argumentos a conclusão segue-se das (follows from) premissas; a evidência suporta a teoria. O que é exatamente essa relação de suporte ou de seguir-se de (following from)? Isso revela-se ser uma questão muito controversa tanto em filosofia quanto em lógica matemática.

Em alguns casos, a relação é semântica. Se nos apenas entendêssemos o suficiente sobre os significados de todas as palavras nas premissas, nós veríamos que a conclusão tem de ser verdadeira. Frequentemente os exemplos são bastante triviais.


e1. O número é par.

e2. O número é maior do que dezessete.

------------------------------

t0. O número não é primo.


Em outras vezes, contudo, há bastante fragmentos de informação ocultos nas premissas, e as conclusões são um pouco surpreendentes e bastante significantes.


e1. A figura é um triângulo plano.

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t0. Os ângulos interiores da figura são exatamente iguais a 180º.


Argumentos do tipo anterior tem um nome técnico. Eles são chamados de argumentos dedutivos. Em um argumento dedutivo exitoso, a relação entre as premissas e conclusão (aqui é artificial chamá-las de evidência e teoria) é de um caso muito especial. Lógicos chamam isso de validade. Argumentos válidos são aqueles onde, se as premissas forem verdadeiras, a conclusão terá de ser verdadeira. Muitas faculdades e universidades têm curso inteiros sobre lógica dedutiva (ou simbólica). Técnicas muito sofisticadas foram desenvolvidas para a determinação de validade. Nós não despenderemos tempo revisando esse material pois, tão interessante (e apenas simplesmente divertido) quanto ele é, ninguém quase nunca encontra argumentos dedutivos sendo apresentado fora de filosofia e matemática acadêmicas.

Uma segunda maneira de conectar premissas a conclusões depende dos campos técnicos da matemática e estatística. Nós não podemos ignorar tão convenientemente esses argumentos, uma vez que eles desempenham papéis imensos na ciência contemporânea. Contudo, nossa abordagem será um pouco indireto. Em vez de percorrer o básico da teoria de probabilidade e então desenvolver testes estatísticos para fazer sentido de dados numéricos, nós os trataremos como casos especiais de argumentos indutivos. Este último jargão simplesmente significa que o argumento alega que a conclusão segue-se das premissas mas não dedutivamente – quer dizer, é possível para as premissas serem verdadeiras, contudo a conclusão revelar-se falsa. É claro, agora deveria ser relativamente raro que, em bons argumentos indutivos, as premissas fossem verdadeiras e a conclusão falsa; de outra forma esses argumentos não serão muito úteis. É uma questão de grande controvérsia em lógica, filosofia e até nas ciências sobre como descrever essa relação entre evidência e teorias. O resto deste livro é dedicado a mostrar a você uma maneira de caracterizar essa relação.


Inferência à Explicação Melhor


Considere os três breves exemplos anteriormente mencionados. Nós demos a entender que [29]Dick foi infiel – o olhar malicioso, a desculpa sobre estar doente, o carro fora do bar e as ligações telefônicas perdidas. Nós demos a entender a evidência sobre o exame para levar para casa copiado – as submissões idênticas palavras a palavra, as ausências crônicas de Charlie e as falhas dele como escritor. Finalmente, nós tínhamos evidência sobre o universo em expansão – a luz deslocada para o vermelho das galáxias distantes. Em cada um desses casos, a teoria sugerida explica partes significantes de nossa evidência. Charlie ser um traidor não explica sua escrita ruim, mas certamente ajuda-nos a entender como os dois exames terminaram sendo o mesmo. A traição por Dick (de uma maneira muito diferentes) explicaria porque ele estava no bar quando ele disse que estava doente. E um universo em expansão explica o deslocamento doppler (Doppler shift) que nós observamos na luz das galáxias.

Isso sugere uma generalização. Suponha que nós tratemos da teoria sendo defendida em um argumento indutivo como uma explicação dos dados (pelo menos de alguns dos dados) contidos na evidência. Nós obtemos o seguinte quadro muito simétrico de um argumento:



A inferência à explicação melhor assume esse retrato geral dos argumentos indutivos. A relação de suporte ou de seguir-se de torna-se uma de boa explicação. A evidência para uma teoria é forte, ou boa ou correta, se e somente se, a teoria explica melhor os dados relevantes que estão sendo oferecidos como evidência. A definição de boa evidência dá-nos um expediente muito útil pra testar a qualidade da evidência suposta.

No próximo capítulo, eu pretendo estabelecer um tipo de teste prático para responder a questões sobre a força de argumentos, sobre a qualidade da evidência. Connie tem boa evidência de que o namorado dela está beijando Mary Jane durante a ausência dele no record hop? Há um argumento forte de que Charlie copiou o exame para levar para casa? Os astrônomos realmente conhecem que o universo físico está expandindo-se? Nós apenas podemos começar a responder a essas questões quando nós estivermos em acordo absoluto sobre o que é o argumento em primeiro lugar.


Alguns Argumentos de Sherlock Holmes


Examinemos alguns exemplos de evidência que levaram a algumas conclusões por Sherlock Holmes.


Aqui estão os elos faltantes de uma corrente muito simples: 1. Você tinha giz em seu indicador e dedão direitos quando retornou do clube na última noite. 2. Você [30]coloca giz lá quando joga bilhar, para firmar o taco de bilhar. 3. Você nunca joga bilhar, exceto com Thurston. 4. Você disse-me, há quatro semanas, que Thurston tinha uma opção em alguma propriedade sul-africana que expiraria em um mês, e ele desejava que você compartilhasse com ele. 5. O seu talão de cheques está fechado em minha gaveta e você não pediu a chave. 6. Você não planeja investir seu dinheiro dessa maneira.”2


O começo de The Adventure of the Dancing Men inicia com um pequeno estudo de caso do método “dedutivo” de Sherlock Holmes. O método de Holmes, é claro, não é dedutivo no sentido formal, mas indutivo, ou melhor, abdutivo. É uma inferência à explicação melhor. Holmes possui uma boa quantidade de dados.


e1. Watson tinha giz entre seu indicador e dedão esquerdos.

e2. Ele usa giz quando joga bilhar.

e3. Ele somente joga bilhar com Thurston.

e4. Ele contou a Holmes, há quatro semanas, que Thurston tinha uma opção em alguma propriedade sul-africana, a qual expiraria em um mês.

e5. O talão de cheques de Watson está fechado na gaveta de Holmes.

e6. Watson não pediu a chave.


Holmes explica tudo isso com a hipótese de que Watson decidiu contra o investimento. Holmes prossegue para explicar o seu raciocínio com a metáfora de uma corrente.


Você percebe, meu caro Watson … é realmente difícil construir uma série de inferências, cada uma dependente de sua anterior e cada uma simples em si mesma. Se, após constituir uma, alguém simplesmente suprime todas as inferências centrais e apresenta a sua audiência o ponto de partida e a conclusão, ele poder produzir um surpreendente, embora possivelmente um meretrício, efeito. Agora, não é realmente difícil, por uma inspeção do encaixe entre o seu dedo indicador e dedão esquerdos, ter certeza de que você não planejou investir o seu pequeno capital nos campos de ouro.”3


Embora eu acho que Holmes exagere quando ele alega que as inferências seguem um padrão sequencial inflexível, a intuição de que o raciocínio exploratório frequentemente prossegue em passos é importante. Aqui está como eu esquematizaria a inferência de Holmes.


e1. Watson tinha giz entre seu indicador e dedão esquerdos.

e2. Ele usa giz quando joga bilhar.

e3. Ele somente joga bilhar com Thurston.

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0. Watson jogou bilhar com Thurston na última noite.

e4. Ele contou a Holmes, há quatro semanas, que Thurston tinha uma opção em alguma propriedade sul-africana, a qual expiraria em um mês.

e5. O talão de cheques de Watson está fechado na gaveta de Holmes.

e6. Watson não pediu a chave.

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t´´0. Watson decidiu-se contra o investimento.


Cada uma dessas inferências é para uma “suposta” explicação melhor. t´0 explica o giz na mão dele e é consistente com o conhecimento prévio das preferências de Watson quanto a parceiros de jogo. t´´0 explica a falta de um pedido da chave e é consistente com o conhecimento de Holmes de que, há quatro semanas, Watson contou-lhe a localização do talão de cheques.

[31]Mas The Adventure of the Dancing Men não é realmente sobre giz e investimentos na África do Sul; em última análise, é sobre assassinato, e alguns outros mistérios que levam ao assassino, e sua solução.


Aqui está um link para uma encantadora página web que inclui o texto completo do conto: https://etc.usf.edu/lit2go/178/the-return-of-sherlock-holmes/3228/chapter-iii-the-adventure-of-the-dancing-men/


Você apreciará a história, e seria uma grande prática se aqui você parasse por um tempo e ensaiasse sua habilidade para esquematizar o argumento de Holmes para o que aconteceu na Mansão Ridling Thorpe.

Primeiro, considere o mistério que dá nome à história. Holmes mostra a Watson um pedaço de papel com a marcação4 a lápis acima. Aqui está nosso primeiro pedaço de evidência.


Figura 1. Cifra dos homens dançantes. Recuperada de Sir Arthur Conan Doyle, The Return of Sherlock Holmeshttp://www.gutenberg.org/ebooks/108 (acessado em 26 de junho de 2018).


e1. O documento dos homens dançantes.


Watson imediatamente oferece uma explicação: “Por que, Holmes, é um desenho de criança.” Holmes pensa de outra maneira. Os desenhos de homens dançantes “têm um significado,” mas eles poderiam ser “arbitrários” (pense “um se por terra e dois se por mar”) ou eles poderiam ser sistemáticos (uma cifra). Holmes aposta no último. Seu cliente, o Sr. Cubitt, forneceu mais dados:


e2. A esposa do Sr. Cubitt, Elsie, recebeu uma carta da América que muito a perturbou.

e3. Outras inscrições de homens dançantes, igualmente sobre o papel e o giz aplicado aos prédios, apareceram na Mansão Ridling Thorpe.

e4. Holmes tem conhecimento da frequência relativa das cartas na língua inglesa.

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0. Os homens dançantes representam as cartas. E as mensagens estão em inglês.


Holmes quebra o código. Agora ele é capaz de traduzir as diferentes mensagens que apareceram.

Isso leva a um segundo mistério: Por que Elsie está tão reticente em contar a seu marido sobre seu passado? Por que ela está tão perturbada e assustada pelas mensagens com homens dançantes? Por que ela impede o marido dela de confrontar o estranho que eles pegaram no ato de rabiscar uma das mensagens? Holmes está em uma posição de responder a muitas dessas questões simplesmente ao decodificar as mensagens que ele tem. Adicionalmente, Holmes explica a reticência e medo de Elsie em termos de alguma conexão com atividades criminais no passado dela, e ele conhece que o correspondente é chamado de Abe Slaney. Um telegrama para um colega nos Estados Unidos confirma que Slaney é “o trapaceiro mais perigoso em Chicago.” Slaney está implorando a Elsie para retornar para ele e finalmente ameaçando-a. Holmes e Watson têm muitas evidências de que necessitam apressa-se para a zona rural de Norfolk.


[32]e5. Os conteúdos das mensagens

e6. Slaney é o trapaceiro mais perigoso em Chicago.

e7. Ameaça de Slaney a Elsie

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´0. As vidas de Elsie, e talvez do Sr. Cubitt, estão em perigo.


Tristemente, eles estão atrasados. Imediatamente após a chegada deles à estação de trem, eles tomam conhecimento da tragédia.


É um negócio terrível,” disse o chefe de estação. “Eles foram baleados, tanto o Sr. Hilton Cubitt como a esposa dele. Ela atirou nele e então em si mesma – assim os servos dizem. Ele está morto e a vida dela está desesperada.”5


É claro, o chefe de estação não apenas introduziu nova evidência crucial, mas também ofereceu uma explicação. Holmes prossegue até a cena do assassinato, entrevista dois servos, e examina a sala onde os corpos foram encontrados.


e8. Cubitt foi morto a tiros, e Elsie está gravemente ferida com um tiro na cabeça.

e9. Um revólver foi encontrado, ainda contendo quatro balas.

e10. Os servos relatam várias coisas:

  • Ambos foram despertados pelo som de um tiro alto.

  • Um pouco depois, eles ouviram um segundo tiro.

  • As vítimas estavam no escritório do térreo.

  • Um cheiro forte de fumaça de arma no escritório.

  • A janela do escritório estava fechada e fixa.

  • A casa foi trancada por dentro, e ninguém podia ter saído.

  • Eles estavam consciente do cheiro de pólvora desde o momento em que despertaram no andar de cima.


Ainda há várias páginas para The Adventures of the Dancing Men prosseguir, mas agora Holmes basicamente resolveu o caso. O seu raciocínio é a clássica inferência à explicação melhor (IEM). Como e por que o Sr. Cubitt e Elsie vieram a ser baleados? Por que estavam os servos conscientes do cheiro de pólvora enquanto no andar de cima? E quanto ao misterioso Slaney?

Holmes está particularmente fascinado pelo aroma de pó no andar de cima – “eu recomendo esse fato muito cuidadosamente a sua atenção.”6 A hipótese provisoria de Holmes é de que a janela precisa ter estado aberta e a corrente de ar carregou o cheiro. Exame cuidadoso do estudo produz um últimos fragmento crucial de evidência.


e11. Uma terceira bala é descoberta no caixilho da janela.


Uma terceira bala! Mais alguém está envolvido! Eles examinam do lado de fora da janela e descobrem importantes dados novos.


e12. Flores pisadas, grandes pegadas masculinas e um cartucho gasto.


Mas por que apenas o som de dois tiros? O primeiro foi extremamente alto. Poderiam “ter sido dois tiros disparados quase ao mesmo tempo”?7 Holmes conclui, “sem dúvida foi assim.”8

[33]Holmes prossegue para surpreender Slaney, e ele confirma que foi um dos autores das mensagens dos homens dançantes e que ele e o Sr. Cubitt trocaram disparos através da janela. A história nunca conta precisamente o que ocorreu com Elsie, mas nós sabemos, exatamente como Holmes sabia.


to. Slaney buscou conquistar novamente Elsie e foi recusado. Ele chegou à mansão e trocou alguns disparos simultâneos com Cubitt. Elsie fechou a janela e, ou de coração quebrado pela morte de seu esposo, cheia de culpa e sentindo responsabilidade parcial, ou equivocadamente procurando preservar o bom nome de seu esposo, atirou na própria cabeça.


Esquematizando o Argumento


Deixe-me declarar algo explicitamente. A parte individual mais difícil da análise de argumento ou da receita IEM frequentemente pode ser simplesmente, em primeiro lugar, identificar qual é o argumento. Há um número de razões para isso. Primeiro e mais importante, as pessoas nem sempre são tão claras quanto elas poderiam ser ao declararem seus argumentos. Mas também há outros fatores complicantes. Meu palpite é que Conan Doyle teria dito que ele, em absoluto, não estava apresentando um argumento, mas simplesmente contando uma história. Ainda assim, eu considero que é claro que a história é sobre Holmes seguindo a evidência e chegando a uma conclusão sobre o que aconteceu. Adicione a tudo isso o fato de que alguns argumentos tocam em questões morais e políticas profundamente divisivas e poucos de nós lemo-los e colocamos nossas políticas pessoais de lado. Esses vieses inevitáveis que todos nós levamos conosco frequentemente nos tentarão a simplesmente interpretar mal qual é o argumento. Finalmente, como nós tivemos uma dica nesse conto, mas torna-se assustador quando um argumento é desenvolvido ao longo do curso de um livro inteiro, o simples número de palavras, pensamentos e sentenças torna extremamente desafiador manter a estrutura do argumento claramente na mente.

Concedido tudo isso, o primeiro passo no procedimento IEM que nós desenvolveremos no próximo capítulo não é apenas o mais difícil. Se nós interpretarmos mal qual é o argumento, então todo o trabalho em o analisar será um desperdício de tempo. Que importa se você mostrou “o argumento” ser um sucesso espetacular ou uma falha funesta se, em primeiro lugar, esse não era o argumento real?

A esquematização útil requer três virtudes, toda as quais desafiam a simples caracterização. Primeiro e mais importante, como nós há pouco enfatizamos, você deveria esforçar-se por fidelidade de cópia. Sua tarefa é caracterizar “o argumento de outra pessoa,” uma representação da evidência dele ou dela. Você pode pensar em maneiras melhores de produzir o argumento, ou até pode pensar que a evidência aponta em uma direção diferente. Isso tudo é bom e será útil em passos posteriores. Contudo, exatamente agora, seu trabalho é representar fielmente o argumento como ele foi expresso. Você também quer se esforçar por brevidade. Nós há pouco vimos que um argumento poderia requerer várias páginas de um conto, mas apenas imagine quando nós examinarmos, em um capítulo posterior, o “resumo” de Darwin de sua teoria em On the Origin of Species9 e tentarmos manter em ordem toda a evidência apresentada em mais de quatrocentas páginas. Para sua esquematização ser útil para você, digamos, você precisará manter sua representação da evidência até não mais do que uma página. Finalmente, e mais difícil de todos, você deveria esforçar-se por caridade (charity) [34]em seus argumentos esquematizados. Você quer apresentar o argumento na forma mais forte que você pode. Isso não é porque você está sendo legal ou descontando a virtude anterior de fidelidade de cópia. É porque você quer evitar a todo custo enfraquecer a evidência na maneira que você escolhe esquematizá-la. Isso é particularmente importante quando você está lidando com argumentos dos quais você discorda. Se você chega ao julgamento de que a evidência é fraca, você precisa ter certeza que deu à evidência o melhor lance dela.


Comece a partir da Base (Encontre a Conclusão)


Nós já discutimos o fato de que conclusões podem surgir em qualquer parte na afirmação de um argumento. Contudo, na forma esquemática, eu estou insistindo com você, elas sempre vêm na base; eles são sempre identificados como t0 (“0” para começar uma sequência de explicações e o como um lembrete de que essa explicação é a original), e que elas são sempre explicações dos dados, não simplesmente declarações dos dados. Eu sugiro fortemente que você comece sua esquematização do argumento tentando identificar sua conclusão.

Muitas vezes você encontrará dicas na afirmação que o guiarão à conclusão do argumento. Há muitas palavras e frases que são comumente usadas para alertar leitores ou ouvintes de que uma inferência está sendo extraída. Alguns dos clássicos que você encontrará em qualquer livro introdutório de lógica serão os seguintes: “portanto (therefore),” “consequentemente (hence),” “assim (so),” “segue-se que (it follows that),” e muitos outros. Mas, em outras vezes, você simplesmente espera selecionar a teoria que se supõe seja suportada pela evidência. O melhor conselho nos últimos casos é simplesmente perguntar-se alguma coisa muito geral e vaga tal como “qual é o objetivo de tudo isso?” ou, como anteriormente sugerido, “que diabos está acontecendo?” Uma vez que você tenha um candidato, agora veja se ele explica alguns dos dados no argumento. Se ele não parece fazê-lo, você poderia procurar por outro candidato como a conclusão do argumento.

Dois outros comentários gerais são apropriados aqui. Primeiro, não fique desencorajado. Isso é uma coisa difícil. Tornar-se-á mais fácil e mais natural conforme você torne-se mais experiente usar a receita. E segundo, haverá vezes quando você falhará em descobrir a conclusão para começar sua esquematização pois a passagem em prosa diante de você, em primeiro lugar, não é um argumento. Obviamente nós utilizamos a linguagem para muitas coisas – fazer afirmações simples, irritar as pessoas (push people’s buttons), ou simplesmente desafogar – começar um argumento é apenas um uso de linguagem.


Encontre a Evidência Relevante


Em The Adventure of the Dancing Men, nós aprendemos muita coisa. Holmes divertiu-se jogando com a cabeça de Watson. O Sr. Cubitt era “um cavalheiro alto, corado, barbeado.” E o inspetor Martin era um “homenzinho elegante, com um estilo rápida, alerta, e um bigode crescido.” Isso é apenas uma boa técnica literária. Também há a informação importante no final da história quando Slaney é preso e confessa. Mas esses dados são apenas tangenciais para a solução do mistério. Os dados entre e1 e e12, contudo, são cruciais para o entendimento do que aconteceu, e tudo isso deveria ser incluído numa esquematização completa do argumento.


[35]Outra Adolescente de Coração Partido


Aqui está uma história triste.


A letra para “It’s My Party” pode ser encontrada aqui: https://genius.com/Lesley-gore-its-my-party-lyrics, e Lesley Gore cantando a canção dela pode ser encontrada aqui: https://youtu.be/acRMALrg1t4


Lesley está em lágrimas, e ela assegura-nos de que nós também deveríamos ficar se alguma coisa semelhante acontecesse-nos. Então, que diabos aconteceu? Ela não é explicita, mas ela sabe e nós também. Agora, tome algum tempo e esquematize o argumento de Lesley. Qual é a evidência dela de que Johnny não é mais dela e está interessado por Judy?


Exercícios


  1. O que é um argumento? Quais são os três componentes de qualquer argumento?

  2. Como você pode ter um grande argumento, com muitos xingamentos, sem quaisquer das partes apresentar um argumento de porque elas sentem-se ofendidas?

  3. O que você pensa da qualidade da evidência de Holmes para a teoria dele de que Watson decidira-se a não prosseguir com o investimento? Por quê?


Questionário Quatro


O artigo seguinte vem de New York Times. Sua tarefa é esquematizar o argumento para a conclusão de que William Henry Harrison morreu de febre tifoide. O artigo “What Really Killed William Henry Harrison?”, por Jan McHugh e Philip A. Mackowiak, de 31 de março de 2014, está disponível aqui: https://www.nytimes.com/2014/04/01/science/what-really-killed-william-henry-harrison.html


Próximo capítulo


ORIGINAL

Johnson, Jeffery L., "Inferring and Explaining" (2019). PDXOpen: Open Educational Resources. 23. p. 25-35. Disponível em:<https://pdxscholar.library.pdx.edu/pdxopen/23>.


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


Notas

1Larry Wright, Critical Tinking (New York: Oxford University Press, 2001), ix.

2 Sir Arthur Conan Doyle, “The Adventure of the Dancing Men,” em The Return of Sherlock Holmes (New York: W. R. Caldwell, 1905), https://www.gutenberg.org/files/108/108-h/108-h.htm

3Doyle.

4Doyle.

5Doyle.

6Doyle.

7Doyle.

8Doyle.

9Charles Darwin, On the Origin of Species: A Facsimile of the First Edition (Cambridge, MA: Harvard University Press, 2001).

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