quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

Introdução Animais & Ética 6 Experimentando em Animais; Animais na Educação

Introdução Animais & Ética: Pensando Criticamente sobre os Direitos dos Animais


Por Nathan Nobis


Capítulo anterior


[57]Capítulo 6 Experimentando em Animais; Animais na Educação


Visão Geral


Este capítulo considerará talvez as mais controversas questões éticas relativas a animais, a saber, questões sobre a moralidade da experimentação animal e pesquisa para propósitos médicos, científicos, psicológicos, educacionais e veterinários. Essas questões são frequentemente consideradas mais controversas porque, diferentemente do uso de animais como vestimenta, entretenimento ou mesmo comida, afirma-se que a pesquisa animal fornece significantes benefícios médicos para humanos que, alguns alegam, não poderiam ter sido obtidos de qualquer outra maneira senão através do uso de animais. Dessa maneira, diz-se que essa é uma área na qual os interesses de humanos e animais estão inevitavelmente em conflito. Esse capítulo tentará avaliar alegações sobre o mérito científico e médico da experimentação animal, como esses poderiam ser relevantes para a sua moralidade (ou não poderiam), e tenta diretamente determinar a moralidade dos vários tipos de uso animal na ciência, medicina, educação e pesquisa.


Leituras


ANIMAL LIBERATION – 2. Tools for Research … your taxes at work

EMPTY CAGES – 10. Turning Animals into Tools

ANIMALS LIKE US – Ch. 6. Using Animals for Experiments

Gruen: 4. Animal research (opcional)


The Case for the Use of Animals in Biomedical Research,” New England Journal of Medicine, http://ethicsandanimals.googlepages.com/cohen.pdf


Adrian Morrison; “Personal Reflections on the “Animal-Rights” Phenomenon”: [58]http://www.the-aps.org/publications/tphys/2001html/February01/personal_reflections.htm; “First, animals aren’t people” http://www.the-aps.org/pa/action/charity/morrison.htm


Bob Speth, “Muddlers Beware: The Case for Philosophical Extremism,” (uma análise de Empty Cages, de Regan) Newsletter of the Society for Veterinary Medical Ethics, Volume 10, Número 3, Outubro de 2004, pp. 9-13; Resposta de Regan, pp. 14-18. http://www.vetmed.wsu.edu/org_SVME/images/vol10-3.pdf


Charles Nicoll & Sharon Russell: seleções em http://ethicsandanimals.googlepages.com/nicoll%26russellonanimalethics


Stuart Derbyshire, “The hard arguments about vivisection”: http://www.spiked-online.com/Articles/0000000CAFA7.htm


Jonathan Balcombe, “Dissection: The Scientific Case for Alternatives,” Journal of Applied Animal Welfare Science, (4), 2, 117-126, 2001. http://ethicsandanimals.googlepages.com/balcombe.pdf

Esse artigo é um resumo de Balcombe, J.P. (2000). The Use of Animals in Higher Education: Problems: Alternatives and Recommendations. Washington, DC: Humane Society Press. http://www.hsus.org/press_and_publications/humane_bookshelf/the_use_of_animals_in_higher_education_problems_alternatives_and_recommendations.html


Recomendações para Ler e Assistir:

Alguns defensores da experimentação animal:


Alguns críticos da experimentação animal:

Científicos:


Éticos:


[61]A Ciência não Responde às Questões Morais


Uma coisa importante a lembrar na discussão da moralidade da experimentação animal é que a ciência não responde às questões morais. Que benefícios (se alguns) que podem resultar a partir de qualquer tipo de experimento (humano ou animal), em si mesmos, não mostram que algum experimento seja moralmente justificado. Isso apenas ocorre em conjunção com princípios morais e razões morais, e esses não são determinados pela ciência. Portanto, a produção de argumentos logicamente válidos torna isso claro, porque então será óbvio que há um “salto (leap)” a partir de alguma alegação sobre benefícios ou resultados científicos para um fazer isso é moralmente permissível. Contudo, como declarado, a conclusão não se segue.


Fundamentos Teóricos e Respostas Sem Princípios


Uma maneira de tratar de questões morais é apelar para princípios morais e teorias gerais de moralidade e raciocínio moral: filósofos frequentemente abordam as questões dessa forma e, dessa maneira, frequentemente, ficam claros quais são os seus argumentos morais e quais razões são fornecidas para as premissas deles. Contudo, muitos defensores da experimentação animal não seguem esse padrão e, dessa forma, nós temos de tornar as premissas e conclusões claras e precisas e, se necessário, adicionar premissa(s) necessária(s) para revelar o padrão completo de raciocínio. Aqui estão um número de argumentos comuns fornecidos em defesa da experimentação animal que deveriam ser confrontados antes que nós cheguemos às leituras:


Argumentos de “Benefícios”


Muitas pessoas argumentam que há benefícios médicos para humanos que resultam a partir da experimentação animal, por exemplo, tratamentos e curas para doenças, melhorias na saúde, e assim por diante – e que, portanto, a experimentação animal é moralmente permissível. O argumento sugerido é este:


(P1) A experimentação animal beneficia humanos.

(C) Portanto, a experimentação animal é moralmente permissível.


[62]Há muitos problemas com esse argumento. Primeiro, (P1) é imprecisa de muitas maneiras. Muita experimentação animal é realizada sem nenhuma expectativa de que ela gerará benefícios (médicos) para humanos. Assim, (P1) deveria alegar que alguma experimentação animal beneficia humanos. Mas há mais imprecisão. Ela ou diz:


(P2) Alguma experimentação animal beneficia alguns humanos,

ou

(P3) Alguma experimentação animal beneficia todos os humanos.


(P3) é falsa. Aproximadamente 30.000 pessoas, muitas das quais são crianças, morrem a cada dia de fome, desnutrição e carência do mais básico cuidado médico.1 Essas pessoas e, pelo menos, milhões de outros humanos, não se beneficiam dela. Relativo a (P2), como ela está declarada, poucos críticos científicos, humanistas e/ou éticos da experimentação animal negam-na. Tem havido muitos, muitos experimentos em animais. Alegar que nenhum deles levou a algum benefício para alguns humanos – mesmo que apenas por boa sorte – seria alegar alguma coisa falsa. Assim (P2) é verdadeira: alguns humanos beneficam-se medicamente a partir de alguma experimentação animal. Algumas pessoas parece pensar que isso, automaticamente, mostra que a experimentação animal é moralmente permissível. Estranhamente, eles frequentemente parecem pensar que isso suporta a conclusão mais precisa de que todos os experimentos animais são permissíveis, mesmo aqueles que não levam a nenhum benefício para humanos e que não se espera que levem. Mas nenhuma conclusão semelhante se segue, por muitas razões. Primeiro, apenas porque alguns humanos se beneficiam de alguma coisa não implica que seja moralmente permissível para eles obtê-la: por exemplo, algumas pessoas poderiam se beneficiar de procedimento médico extremamente caro, ou de receber órgãos vitais tirados de pessoas vivas, saudáveis. Mas esses benefícios [63]não justificam automaticamente o direcionamento de tanto dinheiro para eles (às custas de outros) ou matar pessoas inocentes para tirar esses órgãos. Assumir alguma coisa diferente sobre casos animais – ou seja, que é moralmente permissível machucar seriamente animais para beneficiar humanos – apenas assume que a experimentação animal é permissível: isso não fornece nenhuma razão em favor dela. Como nós vimos acima, alegações comuns sobre direitos, importância e status moral não justificam essa suposição, mas, talvez, os argumentos discutidos abaixo a justificarão.


Argumentos de “Necessidade”


Relacionado ao argumento a partir dos benefícios está o argumento a partir da “necessidade” ou a alegação de que experimentos animais são “essenciais”: “experimentos animais são ‘necessários’; portanto, eles são moralmente permissíveis.” Para avaliar esse argumento, nós primeiro precisamos perguntar o que se quis dizer por “necessidade”? Há um sentido do termo no qual a experimentação animal claramente é necessária: para realizar experimentos em animais, é necessário realizar experimentos em animais. Isso é verdadeiro porque, para realizar qualquer ação exata, particular, é necessário realizar essa razão. O que quer que verdadeiramente se quis dizer por “necessidade,” um defensor desses argumentos assume uma premissa moral como a seguinte:


Se a realização de alguma ação é “necessária,” então ela é moralmente permissível.


Para alguns sentidos de “necessidade,” os advogados de experimentação animal acrescentam àquela alegação, será provalvemente falso dizer que toda, ou mesmo muito, da experimentação animal seja “necessária.” Para esses sentidos, esse princípio moral não terá aplicação. Há outros significados de “necessário,” por exemplo, que dizer que alguma coisa é “necessária” poderia ser dizer que, “ela não poderia ser obtida de nenhuma outra maneira.” Nesse sentido, muitos experimentos animais são “necessários.” Mas, nesse sentido, alguma vivissecção humana também é “necessária,” uma vez que alguns benefícios a partir dela também “não podem ser obtidos de nenhuma outra maneira.” O princípio acima implica que semelhante vivissecção não é errada, mas ela é, assim, o princípio [64]acima possivelmente é falso.


Argumentos de “Sem Alternativas”


As mesmas observações críticas podem ser fornecidas sobre argumentos de que, alegadamente, “não há alternativas” à experimentação animal: isso provavelmente é falso e isso tampouco parece automaticamente tornar moralmente permissível fazer alguma coisa.


Assassinato “Indolor” e “Humano,” Novamente


No contexto da experimentação, nós também ouvimos a suposição de que “se os animais são mortos sem dor, então isso é moralmente Ok.” Novamente, nós deveríamos notar que nós rejeitamos isso sobre nós mesmos. Na maioria dos casos, se nós fôssemos mortos, mesmo “sem dor,” nós seríamos privados de nossos (esperansosamente valiosos) futuros: tudo que nós teríamos experienciado é tirado de nós. Na medida em que animais têm futuros, e matando-os evita que eles experienciam aqueles futuros (e qualquer uma das boas experiências que eles teriam tido), parece que as mesmas razões básicas de porque é errado nos matar aplica-se a muitos animais. Assim, a suposição de que “assassinato indolor é automaticamente moralmente permissível” deveria ser, pelo menos, fortemente, duvidada: boas razões teriam de ser fornecidas em seu favor.


Lógica e Mantendo a Calma


Embora a ética animal, especialmente sobre experimentação animal e questões relacionadas, pode ser tópico intenso, a lógica pode ajudar a manter você calmo. Encontre conclusões, pergunte por razões, e demande uma avaliação justa e imparcial dessas razões. Mantenha a ética e a ciência em ordem, e lembre-se de que os resultados científicos têm implicações morais somente à luz de princípios morais. Ao participar deste curso, você tem mais “treinamento ético” do que quase todos os cientistas que defendem o uso de animais, assim, faça uso das suas habilidades!


[65]Questões de Discussão


  1. Para muitas questões éticas, um bom lugar para começar é refletir sobre as “visões comuns” sobre as questões. Suponha que você pesquisou uma variedade de pessoas e perguntou a elas se é moralmente permissível (ou mesmo moralmente obrigatório) realizar experimentos em animais e porquê. Quais são algumas das respostas mais comuns que seriam dadas? Que razões você frequentemente ouviria a favor dessas respostas? São essas respostas geralmente boas ou não? Por quê?

  2. Descreva como animais são tratados na experimentação e pesquisa médica, científica, psicológica, educacional e industrial: o que acontece a animais quando eles são usados para esses propósitos? Quais são os fatos? Como essas indústrias descrevem como elas tratam os animais? Elas estão corretas na descrição delas dos fatos?

  3. Explique os mais fortes argumentos morais para as conclusões de que a experimentação animal é (quase sempre) errada e/ou que um experimento em um animal é errado a menos que os experimentadores estivessem dispostos a realizar o experimento em um infante humano similarmente consciente e senciente. Esses argumentos estão corretos ou não? Explique e defenda as suas visões.

  4. Resuma a ampla gama de atividades e métodos de pesquisa que podem ser (e são) realizados para melhorar a saúde humana e curar doenças que não envolvem animais.

  5. Explique os mais fortes e/ou mais comuns argumentos morais para as conclusões de que (a) a experimentação animal é quase nunca errada, de fato, é moralmente obrigatória e/ou (b) a experimentação animal é moralmente justificada quando ela é “necessária” porque “não há alternativas” para produzir os benefícios desejados. Esses argumentos são corretos ou não? Explique e defenda as suas visões.

É claro, sempre se sinta livre para levantar quaisquer outras questões, observações, críticas e quaisquer outras respostas às leituras e [66]questões do capítulo.


Opção de Artigo


Qual, se qualquer um, tipo de experimentação ou pesquisa (e outros usos, por exemplo, dissecações) médica, científica, psicológica, comercial/industrial, educacional e/ou veterinário é moralmente permissível? Qual é moralmente inadmissível? Cuidadosamente, defenda sua visão e responda às mais fortes e/ou mais comuns objeções aos seus argumentos. 4-6 páginas.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

NOBIS, N. Animals & Ethics 101: Thinking Critically About Animal Rights. Open Philosophy: 2018. Disponível em: <https://animalethics101.blogspot.com/p/lecture-6.html>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0


1 One World: The Ethics of Globalization (Yale, 2002), de Peter Singer, fornece informação e argumentos para a conclusão de que nós estamos moralmente obrigados a ajudar pessoas em pobreza absoluta. Também ver o seu The Life You Can Save e livros mais recentes sobre pobreza absoluta: http://www.thelifeyoucansave.org

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