quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Um Tratado a respeito dos Princípios do Conhecimento Humano – Introdução [18-25]

Por George Berkeley


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Introdução


[250]18. Eu agora venho a considerar a fonte dessa noção predominante, e essa parece-me ser a linguagem. E certamente nada de dimensão menor do que a razão mesma poderia ter sido a fonte de uma opinião tão universalmente recebida. A verdade disso aparece tanto de outras razões quanto também da simples confissão dos mais hábeis patronos das ideias abstratas; a partir do que é consequência clara que, se não houvesse tal coisa como sinais de fala ou universais, nunca teria havido nenhum pensamento de abstração. Ver B. iii. ch. 6 §39, e em outros lugares do Essay on Human Understading.

Examinemos a maneira pela qual as palavras contribuíram para aquele erro. - Primeiro, então, é considerado que cada nome tem, ou deveria ter, uma única significação precisa e determinada; o que inclina os homens a pensar que há certas ideias abstratas e determinadas que constituem a verdadeira e única significação imediata de cada nome geral; e que é pela mediação dessas ideias abstratas que um nome geral vem a significar qualquer coisa particular. Enquanto que, verdadeiramente, não há tal coisa como significação precisa e definitiva anexada a qualquer nome geral, todos eles significando indiferentemente um grande número de ideias particulares. Tudo isso, evidentemente, segue-se do que já foi dito, e claramente parecerá para qualquer um através de uma pequena reflexão. A isso será objetado que cada nome que tem uma definição está desse modo contido em uma certa significação. Por exemplo, um triângulo é definido ser ‘uma superfície plana compreendida por três linhas retas’; pelo que esse nome está limitado a denotar uma certa ideia e nenhuma outra. Ao que eu respondo, que na definição não está [251]dito se a superfície é grande ou pequena, preta ou branca, nem se os lados são compridos ou curtos, iguais ou desiguais, nem com quais ângulos eles estão inclinados um sobre o outro; em tudo isso pode haver grande variedade e, consequentemente, não há uma ideia determinada que limite a significação da palavra triângulo. Uma coisa é manter um nome constantemente para a mesma definição, e outra fazê-lo representar a mesma ideia1: uma é necessária, a outra é inútil e impraticável.

19. Mas, para dar uma explicação adicional de como as palavras vieram a produzir a doutrina das ideias abstratas, precisa ser observado que é uma opinião recebida que a linguagem não possui nenhum outro fim senão a comunicação de ideias, e que cada nome significante representa uma ideia. Isso sendo assim e, além disso, sendo certo que nomes que contudo não são considerados completamente insignificantes nem sempre marcam ideias particulares concebíveis, é imediatamente concluído que eles representa noções abstratas. Que há muitos nomes em uso entre os homens especulativos que nem sempre sugerem a outros ideias determinadas, particulares, ou, em verdade, nenhuma em absoluto, é o que ninguém pode negar. E um pouco de atenção descobrirá que não é necessário (mesmo no mais estrito dos raciocínios) que nomes significantes que representam ideias devam, cada vez que eles forem usados, excitar no entendimento as ideias que eles são criados para representar: na leitura e no discurso, os nomes, pela maior parte, sendo usados como as letras em álgebra, nas quais, embora uma quantidade particular seja marcada por cada letra, todavia, para prosseguir corretamente, não é requisito que em cada passo cada letra sugira a seus pensamentos aquela quantidade particular que está ela apontado para ela representar2.

20. Além do mais, a comunicação de ideias marcadas por palavras não é o fim principal e único da linguagem, como comumente se supõe. Há outros fins, como elevação de alguma paixão, excitação para ou dissuasão de uma ação, a colocação da mente em alguma disposição particular; aos quais aquele, muitas vezes, está escassamente subordinado e, algumas vezes, inteiramente omitido, quando esses podem ser obtidas sem [252]ele, como eu penso não raramente ocorre no uso familiar da linguagem. Eu suplico ao leitor para refletir com ele mesmo, e ver se isso frequentemente não ocorre, quer ao ouvir ou ler um discurso, que as paixões de medo, amor, ódio, admiração e desdém, e semelhantes, surgem imediatamente em sua mente à percepção de certas palavas, sem quaisquer ideias3 surgindo entre elas. Inicialmente, de fato, as palavras poderiam ter ocasionado ideias que eram adequadas a produzirem aquelas emoções; mas, se eu não me engano, será constatado que, quando uma vez a linguagem tornou-se familiar, a audição dos sons ou a visão dos caracteres é frequentemente imediatamente assistida por aquelas paixões que primeiramente não eram costumeiras de ser produzidas pela intervenção de ideias4 que agora estão bastante omitidas. Não podemos nós, por exemplo, ser afetados pela promessa de uma coisa boa, embora nós não tenhamos uma ideia do que ela seja? Ou não é o ser ameaçado com perigo o suficiente para excitar um pavor, embora nós não consideramos qualquer mal particular provável de cair sobre nós, nem ainda formar para nós mesmos uma ideia de perigo em abstrato? Se alguém alguma vez devesse juntar tão pouco de sua própria reflexão ao que tem sido dito, eu acredito que evidentemente aparecerá para ele que termos geais são frequentemente usados na propriedade da linguagem sem os falantes designando-os por marcas de ideias5 por si mesmos, as quais ele as teria surgidas na mente do ouvinte. Até nomes próprios mesmos não parecem sempre falados com um desígnio de trazer a nossa visão as ideias6 daqueles indivíduos que se supõem sejam marcados por eles. Por exemplo, quando um escolástico diz-me ‘Aristóteles disse isso,’ tudo que eu concebo que ele quer dizer por isso é dispor-me a abraçar sua opinião com a deferência e submissão que o costume anexou àquele nome. E esse efeito pode ser tão instantaneamente produzido nas mentes daqueles que estão acostumados a ceder à autoridade daquele filósofo, como se fosse impossível que qualquer ideia quer de sua própria pessoa, escritor, ou reputação devesse passar na frente. [7Uma conexão tão próxima e imediata pode o costume estabelecer [253]entre a palavra mesma Aristóteles8 e as noções de assentimento e reverência nas mentes de alguns homens.] Exemplos inumeráveis desse tipo podem ser dados, mas porque eu deveria insistir em coisas que, eu não tenho dúvida, a experiência de qualquer um sugerirá abundantemente para ele?

21. Nós revelamos, eu penso, a impossibilidade das Ideias Abstratas. Nós consideramos o que tem sido dito sobre elas pelos seus patronos mais hábeis e esforçamo-nos para revelar que elas não são de nenhum uso para aqueles objetivos que elas são consideradas serem necessárias. E por último, nós traçamo-las à fonte a partir da qual elas fluem, a qual parece evidentemente ser a linguagem.

Não pode ser negado que palavras sejam de excelente uso, no que, pelos meios delas, todo aquele estoque de conhecimento que tem sido comprado pelos labores conjuntos de homens inquisitivos em todas as eras e nações pode ser trazido à visão e tornado a propriedade de uma única pessoa. Mas[9, ao mesmo tempo, precisa ser reconhecido que] a maior parte do conhecimento tem ficado [10tão] estranhamente perplexo e obscurecido pelo abuso das palavras e maneiras gerais de falar pelos quais ela é transmitido, [11que pode quase ser tornado em uma questão se a linguagem contribuiu mais para o obstáculo ou avanço das ciências]. Portanto, uma vez que as palavras são tão aptas a imporem-se sobre o entendimento, [12Eu estou resolvido em minhas investigações a fazer tão pouco uso delas quanto eu possivelmente posso:] quaisquer ideias que eu considere, eu deverei tentar adquiri-las descobertas e despidas em minha compreensão; mantendo fora de meus pensamentos, até onde eu for capaz, aqueles nomes que o uso longo e constante tem tão estritamente unidos com elas. A partir disso eu espero derivar as seguintes vantagens: -

22. Primeiro, eu deverei ficar certo de clarear todas as controvérsias puramente verbais, o brotar das ervas daninhas das quais, em quase todas as ciências, têm sido um obstáculo principal ao crescimento de conhecimento verdadeiro e correto. Segundo, essa parece ser uma maneira certa de desenredar a mim mesmo daquela rede fina e sútil [254]das ideias abstratas, a qual tem tão miseravelmente confundido e enredado as mentes dos homens; e que com essa circunstância peculiar de que, quão muito mais fina e curioso fosse a inteligência de qualquer homem, tão mais profundamente era ele provável de ficar enredado e mais rapidamente mantido ali. Terceiro, enquanto eu confinar meus pensamentos às minhas próprias ideias13, despojadas de palavras, eu não vejo como eu possa facilmente ser enganado. Os objetos que eu considero, eu clara e adequadamente conheço. Eu não posso ser enganado ao pensar que tenho uma ideia que não tenho. Não é possível para eu imaginar que qualquer uma de minhas próprias ideias são semelhantes ou diferentes quando elas verdadeiramente não são. Para discernir os acordos e desacordos que existem entre as minhas ideias, para ver que ideias estão incluídas em qualquer ideia composta e quais não estão, não há nenhum requisito a mais do que uma percepção atenta do que se passa em meu próprio entendimento.

23. Mas a obtenção de todas essas vantagens pressupõe uma libertação completa da ilusão das palavras; a qual eu dificilmente me atrevo a prometer a mim mesmo, uma coisa tão difícil é dissolver uma união iniciada tão cedo, e confirmada por um hábito tão longo aquele entre as palavras e as ideias. Dificuldade essa que parece ter sido muito aumentada pela doutrina da abstração. Pois, enquanto os homens consideraram que as ideias abstratas estavam anexadas às palavras deles, não parece estranho que eles devessem usar palavras pelas ideias; o que, em si mesma, era perfeitamente inconcebível. Essa parece-me a causa principal de porque aqueles têm tão enfaticamente recomendado a outros colocar de lado todo uso de palavras nas meditações deles, e contemplarem suas ideias despidas, todavia, tem falhado eles mesmos em o realizar. Recentemente muitos têm ficado muito sensíveis das opiniões absurdas que crescem a partir do abuso de palavras. E, para remediar esses males, eles aconselham bem14; que nós atentemos para o que as ideias significadas e retiremos nossa atenção das palavras que as significam15. [255]Mas, por melhor que fosse esse conselho que eles podem ter dado a outros, é simples que eles mesmos não puderam ter a devida consideração por ele, enquanto eles consideraram que o único uso imediato das palavras era para significar ideias, e que a significação imediata de cada nome geral era uma determinada ideia abstrata.

24. Mas essas sendo conhecidos serem erros, um homem pode evitar com maior facilidade ser iludido por palavras. Ele que conhece que não há outras senão ideias particulares, não se confundirá em vão para descobrir e conceber a ideia abstrata anexada a qualquer nome. E ele que sabe que nomes nem sempre representam ideias16 poupar-se-á do labor de procurar por ideias onde não há nenhuma a ser tida. Portanto, era para se desejado que cada um usaria seus esforços máximos para obterem uma visão das ideias que ele consideraria; separando delas todo aquele vestuário e ônus das palavras que tanto contribui para cegar o julgamento e dividir a atenção. Em vão nos estendemos nossa visão para os céus e bisbilhotamos dentro das entranhas da terra, em vão nós consultamos os escritos de homens instruídos e traçamos os passos sombrios da antiguidade. Nós apenas necessitamos puxar a cortina das palavras para contemplar a mais bela árvore do conhecimento, o fruto da qual é excelente e está ao alcance de nossa mão.

25. A menos que nós cuidemos de clarear os Primeiros Princípios do Conhecimento do embaraço e da ilusão da Palavras, nós podemos fazer infinitos raciocínios sem propósito sobre eles; nós podemos extrair consequências de consequência e nunca ficar mais sábios. Quanto mais distante nós formos, nós apenas deveremos perder-nos mais irrecuperavelmente e mais profundamente nos enredarmos em dificuldades e erros. Portanto, seja quem for que tenha o desígnio de ler as páginas seguintes, eu suplico-lhe para que ele [256]deseje fazer de minhas palavras a ocasião de seu próprio pensamento, e esforçar-se-ia para obter a mesma linha de pensamento ao lê-las que eu tive ao escrevê-las. Por esse meio será fácil para ele descobrir a verdade ou falsidade do que eu digo. Ele estará fora de todo o perigo de ser enganado por minhas palavras. E eu não vejo como ele poderia ser conduzido a um erro ao considerar suas próprias ideias17 despidas, sem disfarce.


Próxima parte


ORIGINAL:

BERKELEY, G. A Treatise concerning the Principles of Human Knowledge [Part I]. First published in 1710. IN:______. The Works of George Berkeley. Oxford: Clarendon Press, 1901. p.250-256. Disponível em: <https://archive.org/details/worksofberkeley01berkuoft/page/250/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1 [251]‘ideia,’ ou seja, dado do sentido ou da imaginação.

2 Ver Leibniz sobre Conhecimento Simbólico (Opera Philosophica, p. 79, 80, Erdmann) e Stewart em seus Elements, vol. I. ch. 4, § 1, sobre nosso hábito de usar a linguagem sem compreender, em exemplos ou ideias individuais, os sentidos dos termos comuns utilizados.

3 [252]‘ideias,’ ou seja, representações na imaginação de quaisquer dos objetos individuais aos quais os nomes são aplicáveis. O som ou a visão de um sinal verbal pode desempenhar a função para a ideia concreta na qual a noção significada pela palavra poderia ser exemplificada.

4 [Nota do tradutor: mesma explicação da nota anterior.]

5 [Nota do tradutor: mesma explicação da nota anterior.]

6 [Nota do tradutor: mesma explicação da nota anterior.]

7 Esta sentença está omitida na segunda edição.

8 [253]Em outros lugares ele menciona Aristóteles como ‘certamente um grande admirador e promotor da doutrina da abstração,’ e cita a declaração dele de que dificilmente há alguma coisa tão incompreensível para os homens quanto as noções da extrema universalidade; pois elas são as mais afastadas dos sentidos. Metaph., Bk. I. ch. 2.

9 Adicionado na segunda edição.

10 Omitido na segunda edição.

11 [Nota do tradutor: mesma explicação da nota anterior.]

12 [Nota do tradutor: mesma explicação da nota anterior.]

13 [254]‘minhas próprias ideias,’ ou seja, o fenômeno concreto que eu posso compreender como percepções do sentido ou na imaginação.

14 Ele provavelmente se refere a Locke.

15 De acordo com Locke, ‘que o que mais contribui para embaraçar o registro devido de nossas ideias, e a descoberta das relações delas, e os acordos ou desacordos de uma com a outra, tem sido, eu suponho, o mau uso de palavras. É impossível que os homens devam alguma vez verdadeiramente buscar, ou certamente descobrir, [255]o acordo ou desacordo das ideias mesmas, enquanto os pensamentos deles agitam-se em torno, ou fixam-se, em sons de significações duvidosas e incertas. Os matemáticos, abstraindo seus pensamentos de nomes, e acostumando-se a estabelecer diante de suas mentes as ideias mesmas que eles desejavam considerar, e não os sons em vez delas, desse modo, têm evitado uma grande parte da perplexidade, tumulto e confusão que tanto tem embaraçado o progresso dos homens em outras partes do conhecimento.’ Essay, Bk. III. ch. 3, §30. Ver também Bk. III. ch. 10, 11.

16 Nomes gerais envolvem na significação deles relações intelectuais entre ideias ou fenômenos; mas as relações, por si mesmas, são inimagináveis.

17 [256]O rascunho desta Introdução, preparada dois anos antes da publicação dos Princípios (ver Apêndice, vol. III), deve ser comparado com a versão publicada. Ali ele conta que ‘houve um tempo quando, sendo ridicularizado e abusado pelas palavras,’ ele ‘não duvida de que, no mínimo,’ ele fosse ‘capaz de abstrair suas ideias’; acrescentando que ‘após uma análise estrita de minhas habilidades, eu não apenas descobri minha própria deficiência nesse ponto, mas também não pude conceber que um poder semelhante devesse existir mesmo no entendimento mais perfeito e elevado.’ O que, dessa maneira, ele declara ‘impossível’ é a percepção ou imaginação sensíveis de uma relação intelectual, quanto ao que a maioria dos pensadores concordaria com ele. Mas, ao argumentar assim, ele parece apto a descartar as relações intelectuais mesmas que estão necessariamente corporificadas na experiência.

David Hume refere-se dessa maneira a doutrina de Berkeley sobre ‘ideias abstratas’: - ‘Um grande filósofo declarou que todas as ideias gerais nada são senão particulares anexadas a um certo termo, o que lhes confere uma significação mais extensa. Eu considero isso ser uma das descobertas maiores e mais valiosas que foram realizadas nos últimos anos na república das letras.’ (Treatise of H. N. Pt. I, sect. 7.)

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