Por EderNB do Blog Mathesis
Origem: 1977 [literatura]
Relação: parte do mundo da Terra Média [O Hobbit (1937) e O Senhor dos Anéis (1954-55)]
Autor: J.R.R.Tolkien, Christopher Tolkien [editor]
Conteúdo:
O livro resulta de um trabalho editorial de Christopher sobre o material fragmentário deixado por seu pai Tolkien sobre o passado da Terra Média (e da terra possivelmente). Escrito ao longo de décadas o material foi organizado em torno da seguinte divisão: 1) A Música dos Ainur (Ainulindalë), o relato da criação do mundo; 2) O Relato dos Valar (Valaquenta), descrição de alguns dos poderes divinos que moldaram o mundo; 3) A História das Silmarils (Quenta Silmarillion), o relato da guerra do Elfos contra Melkor-Morgoth; 4) A Queda (Akallabêth), narração da queda da Ilha-império dos homens (Númenor); e 5) Dos Anéis do Poder e da Terceira Era, relato resumido da guerra dos anéis.
Dentre os temas que mais interessam para uma discussão da natureza filosófica desta obra de ficção especulativa, temos:
Cosmogonia artificial / ficcional. Os relatos contidos em Ainulindalë revelam o processo de gênese do mundo e de seus habitantes (Elfos e Homens, principalmente) a partir de uma música divina. O texto tolkieniano desenvolve uma narração onde o desenvolvimento dos sucessivos temas musicais – dados pelo Deus supremo (Eru Ilúvatar) aos deuses menores/anjos (Ainur) – marca etapas igualmente sucessivas da constituição do mundo. Ao final da música, os Ainur descem à criação para completá-la. Este ponto é típico de muitas obras de fantasia, mas com Tolkien ele atinge uma envergadura, dada a sofisticação imaginativa com a qual muitos dos elementos cosmogônicos são articulados; gera-se um mundo que é uma totalidade coerente (Nota 8-1) a partir da reimaginação sistemática de temas tradicionais (Nota 8-4).
Origem do Mal. O mal tem sua origem desde a música que criou o mundo, quando Melkor (o maior dos Ainur) tornou-se o elemento dissonante na canção que desenvolvia com seus irmãos diante de Eru Ilúvatar. O mal surge aqui no sentido de o primeiro ambicionar um poder que é apenas do último; o fogo criador. Isso leva-o a um crescente descontentamento, um conflito com seus semelhantes e uma tentativa de conquistar o mundo e os povos recém-criados para si. Ambição desenfreada compartilhada por seu assecla e sucessor Sauron. Neste segundo ponto, um elemento de relevância prática emerge: o problema do sofrimento humano (e dos seres racionais). Tolkien responde a essa dificuldade com elementos imaginativos de seu mundo (Nota 8-1, Nota 8-4); uma abordagem essencialmente ficcional-especulativa.
A Questão da Imortalidade. Concebidos em meio a Música dos Ainur os Elfos e Homens foram criados por Ilúvatar como seus filhos. Os Elfos são naturalmente imortais, estando presos ao mundo criado, dele não podendo partir nem mesmo que seus corpos sejam destruídos. Já os Homens são naturalmente mortais e, quando o tempo de suas vidas esgota-se ou são mortos eles veem-se livres do mundo criado. Parte do progresso do mal no mundo é devido aos segundos ambicionam a imortalidade dos primeiros. Morgoth, na primeira era, e Sauron, segunda e terceira eras do mundo, têm um grande papel nessa mudança de perspectiva. Foram eles que levaram os Homens a verem como um mal algo que foi concebido por Ilúvatar como uma dádiva. Essa distorção de visão de mundo atingiu o ponto máximo com a rebelião do rei numenoriano Ar-Pharazôn, instigada por Sauron, narrada no Akallabêth, que navegou em direção às terras imortais (o extremo oeste dos Elfos e Valar) em busca da imortalidade. Finalmente, neste ponto, um elemento de alteridade fantástica é introduzido (Nota 8-2), o que leva a uma tensão importante em alguns momentos da história do mundo; um conflito em torno de uma característica claramente irreal, mas imaginativamente relevante (Nota 8-3).
REFERÊNCIAS:
EderNB. Nota 8: O que é Ficção Especulativa?. 2020. (Nota 8)
Tolkien, J. R. R. O Silmarillion. 1ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2009 (Org. Christopher Tolkien).
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