Por EderNB do Blog Mathesis
Ficção especulativa (FE) é um termo que tem sido mencionado no blog de, pelo menos, duas formas diferentes: 1) explícita e particularmente, durante a apresentação do conceito de Fandoms; e 2) implícita e universalmente, em todas as postagens sob a categoria “Filosofia da Ficção Especulativa”. Diante disso, deve-se buscar lançar as bases de um conceito de FE e, para fazer isso, começa-se com a delimitação de algumas das propriedades gerais dessa modalidade ficcional em torno dos seguintes núcleos:
Construção de Mundo. Um primeiro elemento a ter-se em mente para a compreensão do especificamente especulativo é a extensão da recriação imaginativa do mundo ficcional. Em FEs o que se busca é a criação de mundos inteiros (que vão desde cidades até universos inteiros), cenários incrivelmente complexos capazes de possibilitarem e abrigarem elementos impossíveis na realidade. Ao criarem semelhantes entes de imaginação, os autores derivam sistematicamente culturas (sociedades, linguagens, etc) inteiras.
Alteridade. Se um novo mundo e uma nova cultura surgem, consequentemente, outros tipos de seres também o fazem. O outro em questão são todas aquelas criaturas dotadas de alguma forma de consciência e racionalidade. Isso quer dizer que nos deparamos com não-humanos (Elfos, Imortais, Inteligências Artificiais, Alienígenas, etc) que, ao mesmo tempo, possuem uma semelhança variável com o humano. Logicamente, grande parte das situações e dos conflitos possíveis emergem precisamente dessa peculiaridade.
Capacidades Extraordinárias. Novos mundos e seres implicam quase que necessariamente a existência de novas capacidades, isto é, poderes e propriedades exclusivamente imaginativas. Mágica, superpoderes, ciência e tecnologia avançadas, etc. Isso significa que o que é impossível em nossos aqui e agora é plenamente verossímil nesses contextos ficcionais. Consequentemente, isso também abre espaço para novas espécies de conflitos que podem ser resolvidos de modos particularmente fantásticas ou simplesmente por analogia às abordagens históricas.
Múltiplas Mitificações. Entende-se aqui por mitologia toda narrativa tradicional e religiosa, dramática e de proporções cósmicas que objetiva explicar a origem do mundo e do homem. Isso quer dizer que muitas vezes a ficção especulativa toca em temas tidos por sagrados por culturas antigas ou contemporâneas. Como não poderia deixar de ser e, dependendo da situação, semelhante questão pode vir a tornar-se alvo de bastante polêmica. Mas isso também revela parte do potencial filosófico da ficção em questão. Quando isso ocorre, duas possibilidades principais surgem: 1) um processo de desmitologização que leva os antigos elementos a serem destituídos de seu estatuto sagrado e os personagens e situações a serem racionalizados; e 2) um processo de nova mitologização, no qual os elementos fantásticos e tradicionais são adaptados para o contexto dos cenários e seres estabelecidos nos mundos ficcionais (os deuses passam a ser seres poderosos, extremamente avançados, etc).
Suspensão de Descrença. Com os elementos precedentes em mente deve-se deixar claro que para apreciar ficções especulativas é requerido uma capacidade imaginativa quase tão ampla quanto a dos autores. Isso ocorre pois, tanto um como o outro lado, têm de esforçar-se para tomarem como verossímil ou no mínimo acessível elementos que seriam considerados impossíveis no contexto atual. Isso evita que se tenha de tecer inúmeras explicações sobre cada detalhe a fim de torná-lo apreciável!
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