Por EderNB do Blog Mathesis
Edições: 1818 (1ª), 1823 (2ª) e 1831 (3ª)
Autora: Mary Shelley
Em linhas gerais, sem levar em conta as diferenças entre as versões, a conteúdo da história é mais ou menos este: Victor Frankenstein é um jovem estudante de filosofia e ciência naturais que em suas pesquisas descobre como animar matéria morta. Resolvido a proceder com suas conquistas ele acaba por criar um ser humano artificial e, horrorizado pelo resultado, quase imediatamente abandona-o à própria sorte. Infelizmente, para Victor, a criatura consegue sobreviver e partir em uma busca por seu criador. Com isso ela passa por uma longa viajem de crescimento, aprendizado, sofrimento e vingança. Enquanto isso, Victor tenta sem sucesso retomar a sua vida normal com sua família, uma vez que dentro de pouco tempo a morte acaba vitimando seus parentes. Ele não demora a descobrir que essa série de desgraças é devida à criatura que abandonara e que agora o perseguia em busca de respostas. Tomado pelo desejo de vingança, ele parte em uma busca pessoal por eliminar seu maior erro (e talvez salvação), acabando por encontrar a morte numa conflituosa e tormentosa aventura no polo norte. Logo depois, a criatura, sem mais razão para viver, resolver tirar a própria vida.
A partir desses elementos podemos destacar os seguintes pontos:
Victor Frankenstein começa sua história de vida, início esse que não corresponde literalmente com o modo como começo da história é retratado no livro, como alguém otimista. Uma pessoa capaz de conhecer a natureza, embora partindo de ideias inicialmente heterodoxas, e de operar sobre ela. O subtítulo do livro, O Moderno Prometeu, capta bem essa percepção de possibilidade não limitada de conhecer e operar; a conquista de conhecimento proibido a meros mortais. Isso claramente pode ser interpretado como um elemento de ficção científica tradicional, onde os progressos das ciências da natureza e da tecnologia são representados de maneira altamente imaginativa e otimista, sem uma atenção mais detida com os detalhes dos elementos reais (Nota 8, 5).
Como um elemento importante dessa húbris temos uma alteração no modo como a morte é encarada. Tradicionalmente concebida como o salário do pecado e consequência da queda (visão de mundo cristã) ou como especificidade humana em contraste com os deuses (perspectiva greco-romana). No caso do contexto inicial da história a morte é percebida como um mal sim, mas algo que pode ser determinado, equacionado e, bem no contexto de uma extrapolação ficcional, solucionado. Esse elemento imaginativo representa uma alteração fundamental da condição humana, processo que, no caso da presente história gerou um outro não humano (Nota 8, 2) e, em muitas ficções posteriores (sobre inteligência artificial, engenharia genética, etc), servirá como mote para questionar-se os limites (materiais e ontológicos) do ser humano.
Num primeiro momento, a própria húbris demonstrada por Frankenstein com sua consequente tentativa de tratar a morte como um problema solucionável é um grande conflito [Deus (1º criador)- Victor (1º criatura)]. Já, numa segunda e principal etapa, o conflito se instaura na busca da 2º criatura por sentido e por uma companheira. Isso o leva a uma relação infeliz com o 2º criador [a 1º criatura] e a um desfecho trágico para ambos. Com o ultrapassamento ficcional dos limites humanos, propiciado pela ciência e tecnologia, o homem deixa de ser visto como limitado, tanto anterior e eternamente (como uma criatura de uma potência divina), como posterior e temporalmente (como criador de um outro). Esse ultrapassar, possibilitado e estimulado pela ficção científica, é, contudo, limitado e punido pela dimensão de tragédia e horror que paira sobre a obra pois certos limites não são ultrapassáveis!
REFERÊNCIAS:
EderNB, Nota 8: O que é Ficção Especulativa?. 2020. (Nota 8)
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