Por EderNB do Blog Mathesis
Origem: 2010 [série de TV]
Relação: parte do universo reimaginado de Battlestar Gallactica (2004-2009) [série de TV]
Ideia geral: A série acompanha a aproximação e a relação entre as famílias de Joseph Adama (pai do futuro comandante da frota de sobreviventes humanos) e Daniel Graystone (criador dos Cylons) reunidas pela perda das filhas num atentado terrorista. Isso ocorre 58 anos antes da queda das 12 Colônias de Kobol e do genocídio da humanidade pelos Cylons.
Entre os pontos relevantes para uma discussão de ficção especulativa podem destacar-se os seguintes:
Mind uploading. Este é um tópico atual de especulação em transumanismo e consiste na possibilidade teórica de transferir uma mente de um corpo para outro (seja esse um computador, um robô, etc) de modo que o indivíduo sobreviva à morte do corpo original continuando com sua identidade. Atualmente é algo impossível de ser feito, mas é plenamente imaginável num contexto de ficção científica, o que mais uma vez leva à alteração radical da condição humana (Nota 8-3). No contexto de Caprica temos o caso de Zoe Graystone, filha de Daniel e uma das vítimas fatais do atentado de fundamentalistas monoteístas que marca o início da série. Zoe, um gênio de computador, havia desenvolvido um algoritmo capaz de criar uma inteligência artificial completamente funcional, o qual ela estava testando quando de sua morte. Nesse processo, ela gerou uma cópia de si mesma, Zoe-A; um avatar digital que manteve toda a sua identidade (consolidando inúmeros bancos de dados, memórias e informação biológica). Assim, de certo modo, pode-se considerar que Zoe teve sucesso ao fazer um Mind uploading, um processo nada fácil!
Inteligência artificial versus Humanidade. Semelhante conflito serve como fio condutor da série quando expõe o processo de criação dos primeiros Cylons, a partir da descoberta de Zoe e da própria Zoe-A, que foram apropriadas e usadas por Daniel. Nesse momento do universo do qual Caprica faz parte a I.A. surge como uma conquista positiva, chegando até a evitar um novo e muito mais grave atentado terrorista num estádio lotado! Com o desenvolvimento da história interna ao universo a coisa se complica muito mais, pois: a) após um período de coexistência pacífica, o Cylons rebelam-se contra seus mestres humanos, travam uma guerra total, estabelecem um armistício e perpetram um genocídio quase completo da humanidade. Tudo isso antes do conflito da série de 2004; b) a relação entre I.A. e humanidade é ancestral, vindo desde muito antes do próprio estabelecimento dos humanos nos mundos coloniais e remontando ao planeta ancestral da raça humana: Kobol. Nessa questão da ancestralidade do conflito revela-se a presença de uma certa visão de destino e temporalidade cíclica (nota 8-1, Nota 8-4), mais facilmente associáveis à esfera da fantasia, no interior de uma ficção científica; é um progresso problemático que traz à tona um passado inescapável.
Religião em Ficção científica. Cylons são monoteístas e humanos politeístas. Essa é uma oposição estruturante na série de 2004 mas que aparece em Caprica no conflito entre uma minoria adepta de uma forma de monoteísmo (que vai do rigorismo moral ao fundamentalismo terrorista) e uma maioria tradicionalmente politeísta; ou seja, em ambos os lados ambos são humanos. O elemento religioso que se articula tanto entre grupos humanos diferentes (Caprica) como entre a humanidade como um todo e os Cylons (Battlestar Gallactica) é um traço de alteridade fundamental (nota 8-2), o qual em ambos os casos leva a conflito. Mas essa alteridade verdadeiramente revela um traço comum entre o criador e a criatura: a crença em potências divinas e a necessidade de experiências pessoal com esses seres, algo pelo qual as próprias Zoe e Zoe-A passaram em Caprica e que, na série principal, é exemplificado pelas situações de Gaius Baltar e da humanoide cylon Number Six. Mas uma questão que surge é: pode uma Inteligência Artificial experienciar crença?
REFERÊNCIAS:
EderNB, Nota 8: O que é Ficção Especulativa?. 2020. (Nota 8)
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