Por EderNB do Blog Mathesis
Fandom é uma comunidade de fãs unidos por uma identificação com um interesse comum. No contexto desta nota esse interesse compartilhado assume a forma dos universos de Ficção Especulativa. Como esses mundos são irreais e destituídos de correspondência objetiva, a experiência deles é um esforço majoritariamente subjetivo (a suspensão da descrença por meio da imaginação). Os Fandoms representam o complementar intersubjetivo necessário, aquela esfera onde o sentido é articulado com mais intensidade ao ser percebido como relevante não apenas para um eu isolado, mas para um nós comunitário. Embora variando em tamanho e conteúdo, de acordo com o universo a que fazem referência, os seguintes elementos são comuns a um grande número deles:
Adoção de linguagens ficcionais, seja o Klingon1(Star Trek) ou as línguas criadas por Tolkien para sua Terra média, seus usos no mundo real colaboram substancialmente para a experiência intersubjetiva de sentido. Línguas ficcionais são idiomas construídos e, como tal, faltam-lhes o enraizamento na vida cotidiana e a amplitude de usos que as linguagens naturais possuem. Precisamente por isso elas desempenham um papel muito importante, a construção de uma identidade de grupo2; um espaço de significação (ES) compartilhada e delimitada por um movimento de inclusão (dos “falantes” da língua) e de exclusão (dos “não falantes”). Um nível de acessibilidade ao mundo de história3 é dizer / escrever algo como “No ano X da Era Y Sauron construiu o Um Anel” (uma língua natural narrando um evento ficcional), outro nível, quase experiencial, seria expressá-lo em Sindarin4;
Uso de roupas ficcionais (Cosplay), onde os fãs vestem-se como seus personagens ficcionais favoritos e muitas vezes participam de atuações (RPG ao vivo ou não) ou competições. Como os personagens muitas vezes possuem características ou habilidades impossíveis, isso se reflete nos modos como eles vestem-se, nos instrumentos que usam, etc. Cosplayers tentam representar fisicamente essas propriedades, com resultados que no mínimo são percebidos como estranhos ou não normais para o olhar descuidado. Mas, assim como a linguagem relaciona-se a um ES, o uso de roupas e itens determina um intervalo de ação (IA) exclusiva e significante; durante o qual certos gestos e ações são coerentemente contextualizados. Desse modo, objetos ficcionais possibilitam uma ação igualmente ficcional a partir de uma base real; e
Extensão do universo ficcional (Fan fiction), onde os elementos ficcionais (personagens, locais, situações, itens, etc) são desenvolvidos nas mais diversas mídias possíveis, às vezes podendo englobar mais de um universo ficcional (Gandalf no mundo de Westeros ou versus Doutor Estranho, etc). Como universos de ficção especulativa são propriedades intelectuais protegidas, esses desenvolvimentos normalmente ocorrem por meios não oficiais ou canônicos, o que claramente os distingue das obras oficiais. Isso gera uma relação permanente, a qual pode ser de reverência, contestação, etc, mas que sempre é marcada pelos traços da importância e significância, afinal, ninguém desperdiçaria esforços para desenvolver um trabalho criativo que legalmente não poderia ser comercializado se considerasse seu objeto (o universo ficcional) destituído de importância e insignificante.
REFERÊNCIAS:
RIBÓ, I. Ficção em Prosa 3 Cenário. 2019. (Cenário)
______. Ficção em Prosa 7 Tema. 2019. (Tema)
2 Categoria discutida em Tema 7.2
3 Categoria definida em Cenário 3.1
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