quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Introdução Animais & Ética 2 Como são (Alguns d)os Animais? Mentes Animais e Abusos a Animais

Introdução Animais & Ética: Pensando Criticamente sobre os Direitos dos Animais


Por Nathan Nobis


Capítulo anterior


[19]Capítulo 2 Como são (Alguns d)os Animais? Mentes Animais e Abusos a Animais


Visão Geral


Se alguns animais têm mentes e, dessa manera, são conscientes, então eles podem ser machucados (harmed) e, dessa forma, como eles são tratados levanta questões morais. E, possivelmente, há obrigações morais relativas a animais apenas se eles tiverem mentes; dessa forma, questões de ética animal dependem muito de como são os animais. Neste capítulo, nós obteremos uma visão geral da literatura científica e filosófica sobre se alguns animais são conscientes, se alguns são sencientes (ou seja, capazes de sensação ou sentimento, especialmente de prazeres e dores), e, dessa forma, se as várias espécies de animais têm mentes e, se sim, como poderiam ser as vidas mentais, psicológicas ou emocionais deles. Nós discutiremos como alguém poderia conhecer ou, razoavelmente acreditar em, qualquer alegação sobre mentes animais.


Leituras


Nota: um pouco da discussão de mentes animais imediatamente se sobrepõe a questões éticas, mas nós tentateremos nos focar nesta semana apenas em mentes animais.

ANIMALS LIKE US – Ch. 1. Do Animals Have Minds? pp. 3 – 25.

ANIMALS LIKE US – Ch. 4. Killing Animals. pp. 70 – 99.

ANIMAL LIBERATION – pp. 9 – 22, começando em “There is, however, one general defense of the practices…”, terminando no primeiro parágrado em 22.

EMPTY CAGES – pp. 53 – 61.

Gruen: 1. Why animals matter (opcional)


Leitura Recomendada sobre Mentes Animais / Etologia Cognitiva:


[21]Sendo Específico sobre Espécies


No primeiro capítulo sobre lógica, eu fiz estas duas sugestões sobre identificação de argumentos:

  • Torne a(s) conclusão(ões) e premissa(s) expressas precisas em quantidade: se alguma coisa é dita ser verdadeira (ou falsa) de todas (all) as coisas (ou pessoas, ou animais, etc) ou apenas de algumas (some) delas (e se assim, de quais?)?

  • Clarifique o(s) sentido(s) intencionado(s) de palavras obscuras ou ambíguas nas conclusões ou premissas.

Essas sugestões são relevantes para pensar sobre mentes animais, uma vez que a categoria de “animal” é extremamente ampla: “animais” variam desde organismos unicelulares, insetos, invertebrados, vertebrados, pássaros e mamíferos de tipos diferentes, incluindo primatas (como os seres humanos). Uma vez que há milhões de espécies de animais, então, quando investigando se os animais têm mentes, as questões naturais são, “Quais animais?” ou, “O que você quer dizer por ‘animais’? A que animais você está referindo-se?”

Algumas vezes nós esquecemos de observar que essas mesmas questões frequentemente deveriam ser perguntados sobre as vidas mentais de seres humanos. As vidas mentais de, por exemplo, recém-nascidos, [crianças de] cinco anos, adultos “normais,” indivíduos cognitivamente deficientes e pacientes de Alzheimer certamente diferem grandemente. Assim, se alguém diz que (todos) os animais não têm mentes como as mentes de seres humanos, nós deveríamos perguntar quais seres humanos, uma vez que vários, se não muitos, animais têm vidas mentais comparáveis a, se não mais ricas do que, muitas mentes de seres humanos. Essa é uma possibilidade: se nós deveríamos considera-la verdadeira, é claro, depende do que a pesquisa revela sobre as variedades de mentes e capacidades mentais de animais humanos.

As nossas leituras focam-se primariamente sobre mamíferos e pássaros, embora haja alguma discussão sobre peixes, invertebrados (tais como polvo (octopi)) e até alguma pesquisa sobre insetos. Mas novamente, parece provável que as mentes de diferentes mamíferos (se alguns têm mentes) também sejam diferentes: por exemplo, a vida mental de um rato (mouse) é provavelmente bastante diferente da de um chimpanzé (especialmente se a esse chimpanzé foi ensinada [22]linguagem de sinais). Pesquisa adicional sobre diferentes tipos de mentes animais será discutida em seções posteriores do curso: por exemplo, pesquisa sobre as mentes de galinhas, vacas e porcos será discutida nas seções sobre pecuária (animal agriculture); ratos (rats) e camundongos (mice), gatos, cães e primatas, nas seções sobre experimentação em animais, e assim por diante


Como Nós sabemos? Argumentos a partir de Analogia & Inferência à Explicação Científica Melhor


A epistemologia é uma área da filosofia que pergunta como nós conhecemos as coisas e o que significa para uma crença ser razoável e suportado por evidência. Como nós poderíamos saber que quaisquer animais têm mentes, ou razoalmente acreditar em quaisquer alegações semelhantes? Nós podemos chamar essa questão “O Problema Epistemológico de Mentes Animais.”

Antes que nós consideremos esse problema (difícil), vale a pena mencionar que filósofos (e alguns psicólogos e neurocientistas) preocupam-se com um problema (difícil) mais geral chamado de “O Problema Epistemológico de Outras Mentes” relativo a mentes humanas. O problema é que cada um de nós apenas tem “acesso direto” às suas próprias percepções, aos seus próprios pensamentos e aos seus próprios sentimentos: nós não podemos “ver (see)” diretamente se mais alguém é consciente e tem uma mente. Tudo o que nós vemos é o comportamento (incluindo a fala) externo, manifesto e, presumivelmente, de alguma maneira, inferir a partir desse comportamento que outro indivíduo tem pensamentos, sentimentos e percepções mais ou menos similares aos nossos próprios. Talvez essa inferência não seja feita conscientemente, mas como mais nós poderíamos saber que outras pessoas têm mentes?!

Acredite ou não, essa questão tem incomodado filósofos por milênios, e não há resposta amplamente aceita. Contudo, muitos filósofos argumentam que nós sabemos que as outras pessoas têm mentes ou através de raciocínio por analogia ou através de raciocínio a partir da explicação melhor de algum fenômento, nesse caso, do comportamento manifesto.

[23]Raciocinar por analogia é, mais simplesmente, raciocinar assim:

  • A coisa 1 tem estas características: a, b e c;

  • A coisa 2 tem as características a & b;

  • A coisa 2 é relativamente similar a coisa 1;

  • Portanto, provavelmente a coisa 2 também tem a característica c.

Ou, ainda mais simplesmente: “Essas duas coisas são similares nos modos relevantes, assim, portanto, o que é verdadeiro de uma provavelmente é verdadeiro da outra.” A força de um argumento a partir da analogia depende de quão similar duas coisas são: quão mais similares, mais forte é analogia, obviamente, e mais provável é a conclusão de ser verdadeira. Para responder ao “Problema de Outras Mentes,” alguém poderia raciocinar, “eu comporto-me destas maneiras, tenho este tipo de biologia, e tenho uma mente. Outras pessoas se comportam de maneiras similares e têm biologia similar. Portanto, elas provavelmente também têm mentes.” É importante observar que nós aparentemente frequentemente usamos o mesmo tipo de raciocínio sobre mentes animais, como os nossos autores demonstram.

O segundo padrão comum de raciocínio sobre mente é um argumento a partir da explicação melhor:

  • Há algum evento que requer explicação.

  • A explicação ou hipótese E explica melhor esse evento (ou seja, é uma explicação melhor do que outras explicações candidatas no que ela faz sentido de mais dados/observações, permite predição, é mais simples, adequa-se ao conhecimento pré-existente, etc.)

  • Portanto, provavelmente, E, e o que é implicado por E, é verdadeiro.

Esse padrão de raciocínio frequentemente é aplicado ao comportamento animal: um animal faz alguma coisa (por exemplo, reage de alguma maneira interessante a novos ambientes); nós tentamos descobrir se essa reação seria melhor explicada com a hipótese de que (a) esse animal é um autômato sem mente (mindless) ou (b) esse animal tem uma mente consciente (ou alguma outra explicação, talvez com maiores detalhes do que [b]). Como esse raciocínio funcionará depende muito dos detalhes do caso, mas é importante notar que nós usamos esse padrão de [24]raciocínio para investigarmos igualmente as mentes de humanos e animais.


Uma Fonte de Dúvidas: Condições Necessárias para se ter uma Mente


Muitos que argumentam (ou argumentaram, no caso de figuras históricas) que animais não têm mentes frequentemente alegam que há condição(ões) necessária(s) para se ter uma mente, animais carecem da condição necessária e, portanto, eles são sem mentes (mindless). Assim, alguns alegaram que um ser tem uma mente somente se, por exemplo, esse ser tem linguagem e argumentaram que animais são sem mente uma vez que eles não podem falar. Os críticos tendem a desafiar essas alegações, quer argumentando que (alguns) animais satisfazem essa condição necessária, quer argumentando que é falso que essa condição seja necessária: um ser pode ter uma mente se ele carece dessa condição. Eles também tendem a apontar que muitos desses princípios implicam que infantes humanos são sem mentes, o que parece ser falso (e talvez deva ser falso, uma vez que tais infantes aprendem linguagem, e isso apenas pode ocorrer se eles já têm mentes, antes de ter linguagem).

Esses são alguns dos poucos conceitos centrais a manter em mente enquanto lendo as leituras interessantes e informativas para este capítulo.


Questões de Discussão


  1. Para muitas questões filosóficas, um bom lugar para começar é refletir sobre as “visões comuns” sobre as questões. Suponha que você analisou uma variedade de pessoas e perguntou a elas como são as mentes ou vidas mentais de várias espécies de animais, se (alguns) animais são conscientes, podem sentir, podem pensar, podem raciocinar, ter emoções e assim por diante. Quais são algumas das respostas mais comuns que seriam dadas? Que razões você frequentemente ouve em favor dessas respostas? São essas razões geralmente boas razões ou não? Por quê?

  2. Há dúvidas históricas e contemporâneas de que quaisquer animais possuam mente. Resuma essas dúvidas. Explique se essas dúvidas são razoáveis ou não, em sua visão.

  3. Como são as mentes animais, de acordo com a maioria dos cientistas e filósofos contemporâneos? Que tipo de [25]estados mentais (alguns) animais têm, por exemplo, crenças, desejos, memória, raciocínio, planejamento, expectativas para o futuro, autoconsciência, emoções, etc? Resuma a pesquisa, focando-se em diferentes estados mentais para diferentes espécies ou tipos de animais, se apropriado.

  4. Como alguém conheceria ou razoavelmente acreditaria em alguma alegação sobre os estados mentais de animais? Explique para que tipo de processos de raciocínio e evidência filósofos, cientistas e “pessoas comuns” apelam quando eles argumentam que animais têm mentes?

  5. O que é “ferir (harm)” alguém? (Quaisquer) animais podem ser feridos (harmed)? Se sim quais tipos de animais? Como eles podem ser feridos? Explique e defenda as suas respostas.

É claro, sinta-se livre para levantar quaisquer questões, observações, críticas e quaisquer respostas para as leituras e questões do capítulo.


Opção de Artigo


Primeiro, por favor, leia “Guidelines on Writing a Philosophy Paper” em http://www.jimpryor.net/teaching/guidelines/writing.html


Exercício


Para uma audiência não familiar com qualquer coisa do material deste curso, escreva um breve artigo onde você apresente e discuta os mais importantes argumentos para a visão de que alguns animais têm mentes. Seja específico sobre que tipos de animais você está discutindo, o que você entende por “mentes,” e explique a variedade de razões pelas quais alguém deveria acreditar que esses animais têm mentes. Embora isso poderia parecer “senso comum,” as pessoas têm duvidado de que animais têm mentes; portanto, explique as objeções melhores ou mais comuns à visão de que os animais têm mentes, ou seja, aos argumentos de que animais não têm mentes. Explique o que você acha que as pessoas deveriam pensar sobre essa questão e porquê.


Próximo capítulo


ORIGINAL:

NOBIS, N. Animals & Ethics 101: Thinking Critically About Animal Rights. Open Philosophy: 2018. Disponível em: <https://animalethics101.blogspot.com/p/lecture-2.html>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY 4.0

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