Misticismo e Logica e Outros Ensaios
Por Bertrand Russell
[180]IX Sobre a Noção de Causa
No artigo seguinte eu desejo, primeiro, sustentar que a palavra “causa” está tão inextricavelmente presa a associações enganadoras quanto a tornar desejável a sua exclusão completa do vocabulário filosófico; segundo, investigar qual princípio, se qualquer um, é empregado na ciência no lugar da suposta “lei da causalidade” que os filósofos imaginam ser empregada; terceiro, exibir certas confusões, especialmente com respeito à teleologia e ao determinismo, as quais parecem estar conectadas com noções errôneas quanto à causalidade.
Todos os filósofos, de todas as escolas, imaginam que a causação é um dos axiomas ou postulados fundamentais da ciência, contudo, de modo suficientemente estranho, em ciências avançadas tais como a astronomia gravitacional, a palavra “causa” nunca ocorre. O dr. James Ward, em seu Naturalism and Agnosticism, faz disso um fundamento de contestação contra a física: a tarefa daqueles que desejam determinar a verdade última sobre o mundo, ele aparentemente pensa, deveria ser a descoberta de causas, contudo, a física nunca as busca. Para mim parece que a filosofia não devia assumir tais funções legislativas, e que a razão de porque a física parou de procurar por causas é que, de fato, não há tais coisas. A lei de causalidade, eu acredito, como muito do que passa em inspeção entre os filósofos, é uma relíquia de uma era passada, sobrevivendo, como a monarquia, apenas porque é erroneamente suposta não causar dano.
[181]A fim de descobrir o que os filósofos comumente entendem por “causa,” eu consultei o Dictionary de Baldwin, e fui recompensado além das minhas expectativas, pois eu encontrei as seguintes três definições mutuamente incompatíveis: -
“Causalidade. (I) A conexão necessária de eventos nas séries temporais….
Causa (noção de). Seja o que for que possa ser incluído no pensamento ou percepção de um processo como ocorrendo em consequência de outro processo….
Causa e Efeito. (I) Causa e efeito … são termos correlativos denotando quaisquer coisas, fases ou aspectos de realidade distinguíveis, os quais são assim relacionados um com o outro de modo que, sempre que o primeiro deixa de existir, o segundo entra em existência imediatamente depois, e sempre que o segundo entra em existência, o primeiro deixou de existir imediatamente antes.”
Consideremos essas três definições uma de cada vez. A primeira, obviamente, é ininteligível sem uma definição de “necessário.” Sob esse termo, o Dictionary de Baldwin fornece o seguinte: -
“Necessário. É necessário o que não apenas é verdadeiro, mas seria verdadeiro sob todas as circunstâncias. Portanto, alguma coisa mais do que compulsão bruta está envolvida na concepção; há uma lei geral sob a qual a coisa ocorre.”
A noção de causa está tão intimamente conectada com aquela de necessidade que não será digressão se demorar na definição acima, com uma visão para descobrir, se possível, algum significado do qual ela é capaz; pois, como está, ela está muito longe de ter qualquer significação definida.
O primeiro ponto a notar é que, se qualquer significado deve ser dado à frase “seria verdadeiro sob todas as circunstâncias,” o sujeito dela tem de ser uma função proposicional, [182]não uma proposição.1 Uma proposição é simplesmente verdadeira ou falsa, e isso encerra a questão: não pode haver questão de “circunstâncias.” “A cabeça de Charles I foi cortada” é exatamente tão verdadeira no verão quanto no inverno, nos domingos quanto nas segundas. Dessa maneira, quando vale a pena dizer que alguma coisa “seria verdadeira sob todas as circunstâncias,” o alguma coisa em questão tem de ser uma função proposicional, ou seja, uma expressão contendo uma variável, e tornando-se uma proposição quando um valor é atribuído à variável; as “circunstâncias” variantes aludidas são então os valores diferentes dos quais a variável é capaz. Dessa forma, se “necessário” significa “o quê é verdadeiro sob todas as circunstâncias,” então “se x é um homem, x é mortal” é necessário, porque ela é verdadeira para qualquer possível valor de x. Dessa forma, nós deveríamos ser levados à definição seguinte: -
“Necessário é um predicado de uma função proposicional, significando o quê é verdadeiro para todos os valores possíveis do seu argumento ou argumentos.”
Contudo, infelizmente, a definição do Dictionary de Baldwin diz que o quê é necessário não é apenas “verdadeiro sob todas as circunstâncias,” mas também “verdadeiro.” Agora, esses dois são incompatíveis. Apenas proposições podem ser “verdadeiras,” e apenas funções proposicionais podem ser “verdadeiras sob todas as circunstâncias.” Consequentemente, como ela está, a definição é sem sentido. O quê se quis dizer parece ser isto: “Uma proposição é necessária quando é um valor de uma função proposicional que é verdadeira sob todas as circunstâncias, ou seja, para todos os valores do seus argumento ou argumentos.” Mas, se nós adotarmos essa definição, a mesma proposição será necessária ou contingente, de acordo com que nós escolhamos um ou outro dos seus [183]termos como o argumento para a nossa função proposicional. Por exemplo, “se Sócrates é um homem, Sócrates é mortal,” é necessária se Sócrates é escolhido como argumento, mas não se homem ou mortal for escolhido. Novamente, “se Sócrates é um homem, Platão é mortal,” será necessária se ou Sócrates ou homem for escolhido, mas não se Platão ou mortal for escolhido. Contudo, essa dificuldade pode ser superada ao especificar-se o constituinte que deve ser considerado como argumento, e, dessa maneira, nós chegamos à definição seguinte:
“Uma proposição é necessária com respeito a um dado constituinte se ela permanece verdadeira quando aquele constituinte é alterado de qualquer maneira compatível com a proposição permanecendo significante.”
Nós agora podemos aplicar essa definição à definição de causalidade citada acima. É óbvio que o argumento tem de ser o tempo no qual o evento anterior ocorre. Dessa maneira, uma instância de causalidade será como: “Se o evento e1 ocorre no t1, ele será seguido pelo evento e2.” Essa proposição foi intencionada ser necessária com respeito a t1, ou seja, a permanecer verdadeira por mais que t1 possa ser variado. Portanto, a causalidade, como uma lei universal, será a seguinte: “Dado qualquer evento e1, há um evento e2 de modo que, sempre que e1 ocorra, e2 ocorre depois.” Mas antes que isso possa ser considerado preciso, nós temos de especificar quão depois e2 ocorre. Dessa maneira, o princípio torna-se:
“Dado qualquer evento e1, há um evento e2, e um intervalo temporal t, tal que, sempre que e1 ocorra, e2 segue-se depois de um intervalo t.”
Eu ainda não estou preocupado em considerar se essa lei é verdadeira ou falsa. No presente, eu estou meramente interessado em descobrir o que a lei de causalidade é suposta ser. Portanto, eu passo para as outras definições citadas acima.
[184]A segunda definição não tem de nos deter por muito tempo, por duas razões. Primeiro, porque ela é psicológica: não o “pensamento ou percepção” de um processo, mas o processo mesmo, tem de ser o quê nos interessa na consideração da causalidade. Segundo, porque ela é circular: falando de um processo como “ocorrendo em consequência de” outro processo, ela introduz a noção mesma que devia ser definida.
A terceira definição é de longe a mais precisa; de fato, no que diz respeito à clareza, ela não deixa nada a ser desejado. Mas uma grande dificuldade é causada pela contiguidade temporal de causa e efeito que a definição afirma. Nenhum par de instantes é contínuo, uma vez que a série temporal é compacta; consequentemente, se a definição é correta, ou a causa ou o efeito, ou ambos, têm de durar por um tempo finito; de fato, pelo palavrório da definição, é evidente que ambos são assumidos durarem por um tempo finito. Mas então nós encaramos um dilema: se a causa é um processo envolvendo mudança dentro de si mesma, nós deveremos requerer (se a causalidade é universal) relações causais entre as suas partes anteriores e posteriores; além disso, pareceria que apenas as partes posteriores podem ser relevantes para o efeito, uma vez que as partes anteriores não são contíguas ao efeito. Desse modo, nós deveremos ser levados a diminuir a duração da causa sem limite, e por mais que muito nós possamos distingui-la, ainda restará uma parte anterior que poderia ser alterada sem a alteração do efeito, de maneira que a causa verdadeira, como definida, não terá sido alcançada, pois será observado que a definição exclui a pluralidade de causas. Se, por outro lado, a causa é puramente estática, então, em primeiro lugar, nenhuma tal causa deve ser encontrada na natureza, e, em segundo lugar, parece estranho – estranho demais para ser aceito, a despeito de pura [185]possibilidade lógica – que a causa, após existir placidamente por algum tempo, deveria subitamente explodir no efeito, quando ela poderia exatamente tão bem ter feito isso em qualquer momento anterior, ou ter seguido adiante imutável sem produzir seu efeito. Portanto, esse dilema é fatal para a visão de que causa e efeito são contíguos no tempo; se há causas e efeitos, eles têm de ser separados por um intervalo temporal t finito, como nós assumimos na interpretação acima da primeira definição.
O que é essencialmente a mesma afirmação da lei de causalidade como a descoberta acima a partir da primeira das definições de Baldwin é fornecida por outros filósofos. Dessa maneira, John Stuart Mill diz: -
“A Lei de Causação, o reconhecimento da qual é o pilar principal da ciência indutiva, é apenas a verdade familiar, aquela invariabilidade de sucessão que é descoberta, através de observação existir, entre cada fato na natureza e algum outro fato que o precedeu.”2
E Bergson, quem tinha corretamente percebido que a lei como formulada por filósofos é sem valor, mesmo assim, continua a supor que ela é usada na ciência. Dessa maneira, ele diz: -
“Agora, é argumentado, essa lei [a lei de causalidade] significa que cada fenômeno é determinado pelas suas condições, ou, em outras palavras, que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos.”3
E novamente:-
“Nós percebemos fenômenos, e esses fenômenos obedecem a leis. Isso significa: (I) Que os fenômenos a, b, c, e, anteriormente percebidos, podem ocorrer novamente na mesma forma; (2) que um certo fenômeno P, o qual [186]apareceu depois das condições a, b, c, d, e apenas após essas condições, não falhará em se repetir tão logo as mesmas condições estejam presentes novamente.”4
Uma grande parte do ataque de Bergson à ciência depende da suposição de que ela emprega esse princípio. De fato, ela não emprega semelhante princípio, mas os filósofos – mesmo Bergson – estão inclinados demais a tomarem as visões deles sobre a ciência uns dos outros, e não da ciência. Quanto ao quê é esse princípio, há um justo consenso entre os filósofos de escolas diferentes. Contudo, há um número de dificuldades que imediatamente surgem. Eu omito a questão da pluralidade de causas pelo presente, uma vez que outras questões mais graves têm de ser consideradas. Duas dessas, as quais são forçadas sobre a nossa atenção pela formulação acima da lei são as seguintes:-
O que é significado por um “evento”?
Quão longo pode ser o intervalo de tempo entre causa e efeito?
(1) Um “evento,” na formulação da lei, é obviamente intencionado ser alguma coisa que é provável de se repetir, uma vez que, de outra maneira, a lei torna-se trivial. Segue-se que um “evento” não é um particular, mas algum universal do qual pode haver muitas instâncias. Também se segue que um “evento” tem de ser alguma coisa aquém do inteiro estado do universo, uma vez que é altamente improvável isso se repetirá. O que é significado por um “evento” é alguma coisa como o acendimento de um fósforo, ou largar um centavo dentro de uma abertura de uma máquina automática. Se um tal evento repetir-se, ele não deve ser definido tão estreitamente: não temos de formular com que grau de força o fósforo deve ser acesso, nem qual deve ser a temperatura do centavo. Pois, se tais considerações fossem relevantes, o nosso “evento” ocorreria [187]no máximo uma vez, e a lei cessaria de dar informação. Portanto, um “evento” é um universal definido de modo suficientemente amplo para admitir que muitas ocorrências particulares no tempo sejam instâncias dele.
(2) A próxima questão diz respeito ao intervalo de tempo. Sem dúvida os filósofos pensam que causa e efeito sejam contíguas no tempo, mas isso, pelas razões já dadas, é impossível. Consequentemente, uma vez que não há intervalos temporais infinitessimais, tem de haver alguma lacuna de tempo t entre causa e efeito. Contudo, isso imediatamente levanta dificuldades insuperáveis. Por mais que breve nós tornemos o intervalo t, alguma coisa pode acontecer durante esse intervalo que impeça o resultado esperado. Eu coloco meu centavo dentro da abertura, mas, antes que eu possa retirar meu bilhete, há um terremoto que perturba a máquina e os meus cálculos. Para ficarmos seguros do efeito esperado, nós temos de saber que não há nada no ambiente para interferir com ele. Mas isso significa que a suposta causa não é, por si mesma, adequada para assegurar o efeito. E tão logo nós incluamos o ambiente, a probabilidade de repetição é diminuída, até que, finalmente, quando todo ambiente esteja incluído, a probabilidade de repetição torne-se quase nula.
É claro, a despeito dessas dificuldades, tem de ser admitido que muitas regularidades justamente dependentes de sequência ocorrem na vida diária. São essas regularidades que têm sugerido a suposta lei da causalidade; onde elas são descobertas falharem, considera-se que uma formulação melhor poderia ter sido encontrada que nunca teria falhado. Eu estou muito longe de negar que possa haver tais sequências que realmente nunca falhem. Pode ser que nunca haverá uma exceção para a regra de que, quando uma pedra de mais do que uma certa massa, movendo-se com mais do que uma certa velocidade, entre em contato com um painel de [188]vidro de menos do que uma certa espessura, o vidro quebre. Eu também não nego que a observação de semelhantes regularidades, mesmo quando elas não são sem exceções, é útil na infância de uma ciência: a observação de que corpos não suportados no ar usualmente caem foi um estágio no caminho da lei da gravitação. O que eu nego é que a ciência assuma a existência de uniformidades invariáveis de sequência desse tipo, ou que ela vise à descoberta delas. Com nós vimos, todas essas uniformidades dependem de uma certa vagueza na definição dos “eventos.” Que corpos caem é uma afirmação qualitativa vaga; a ciência deseja saber quão rápido eles caem. Isso depende da forma dos corpos e da densidade do ar. É verdadeiro que há uniformidade mais quase completa quando eles caem em um vácuo; até onde Galileu pôde observar, a uniformidade é então quase completa. Mas depois pareceu que mesmo lá a latitude fez uma diferença, e a altitude. Teoricamente, a posição do sol e da lua tem de fazer uma diferença. Para resumir, cada avanço em uma ciência leva-nos mais longe das uniformidades cruas que são inicialmente observadas, para maior diferenciação de antecedente e consequente, e para uma círculo continuamente maior de antecedentes reconhecidos como relevantes.
Portanto, o princípio “mesma causa, mesmo efeito,” o qual os filósofos imaginam ser vital para a ciência, é completamente ocioso. Tão logo os antecedentes tenham sido dados suficientemente completos para possibilitarem o consequente ser calculado com alguma exatidão, os antecedentes tornaram-se tão complicados que é muito improvável que eles alguma vez se repetirão. Consequentemente, se esse fosse o princípio envolvido, a ciência permaneceria completamente estéril.
A importância dessas considerações está parcialmente no fato de que elas levam a uma explicação mais correta do procedimento científico, parcialmente no fato de que elas removem [189]a analogia com a volição humana que torna a concepção de causa uma fonte tão frutífera de falácias. O segundo ponto tornar-se-á mais claro através da ajuda de algumas ilustrações. Para esse propósito, eu deverei considerar umas poucas máximas que desempenharam uma grande parte na história da filosofia.
(1) “Causa e efeito têm de se assemelhar mais ou menos um ao outro.” Este princípio foi proeminente na filosofia do ocasionalismo e ainda não está extinto de maneira nenhuma. Por exemplo, frequentemente se pensava que a mente não poderia ter crescido em um universo no qual anteriormente não contivesse nada de mental, e um fundamento para essa crença é que a matéria é dessemelhante demais da mente para ter sido capaz de a causar. Ou mais particularmente, o que são denominadas de as partes mas nobres da nossa natureza são supostos serem inexplicáveis, a menos que o universo contivesse alguma coisa pelo menos igualmente nobre que pudesse causá-las. Todas essas visões parecem depender da suposição de alguma lei de causalidade indevidamente simplificada; pois, em qualquer senso legítimo de “causa” e “efeito,” a ciência parece mostrar que usualmente eles são muito amplamente dissimilares, a “causa” sendo de fato dois estados do universo inteiro, e o “efeito” algum evento particular.
(2) “Causa é análoga à volição, uma vez que tem de haver um nexus inteligível entre causa e efeito.” Eu considero que esta máxima está frequentemente na imaginação de filósofos que a rejeitaram quando explicitamente formulada. Provavelmente ela está operativa na visão que nós há pouco estivemos considerando de que a mente não poderia ter resultado a partir de um mundo puramente material. Eu não professo conhecer o que é significado por “inteligível”; ele parece significar “familiar para a imaginação.” Nada é menos “inteligível,” em qualquer outra acepção, do que a conexão entre [190]um ato de vontade e a sua satisfação. Mas obviamente o tipo de nexus desejado entre causa e efeito é tal que apenas poderia ser sustentado entre os “eventos” que a suposta lei de causalidade contempla; as leis que substituíram a causalidade em uma ciência tal como a física não deixam espaço para nenhum par de eventos entre os quais um nexus poderia ser buscado.
(3) “A causa compele o efeito em algum sentido no qual o efeito não compele a causa.” Essa crença parece amplamente operativa na aversão ao determinismo; mas, como uma questão de fato, isso está conectado com a nossa segunda máxima, e cai tão logo essa seja abandonada. Nós podemos definir “compulsão” como se segue: “Qualquer conjunto de circunstâncias é dito compelir A quando A deseja fazer alguma coisa que as circunstâncias impedem, ou abster-se de alguma coisa que as circunstâncias causam.” Isso pressupõe que algum significado tenha sido encontrado para a palavra “causa” – um ponto ao qual eu deverei retornar posteriormente. O que eu quero deixar claro no presente é que compulsão é uma noção muito complexa, envolvendo desejo frustrado. Enquanto uma pessoa fizer o quê ela deseja fazer, não há compulsão, contudo, muitos dos seus desejos podem ser calculados através da ajuda de eventos anteriores. E onde o desejo não entra, não pode haver questão de compulsão. Consequentemente, no geral, é enganador considerar a causa como compelindo o efeito.
Uma forma mais vaga do mesmo axioma substitui a palavra “compelir” pela palavra “determinar”; é dito a nós que a causa determina o efeito em um sentido que o efeito não determina a causa. Não está bastante claro o que se quis dizer por “determinar”; o único sentido preciso, até onde eu conheço, é aquele de uma função ou relação um-muitos. Se nós admitirmos a pluralidade de causas, mas não a de efeitos, quer dizer, se nós supusermos que, dada a causa, o efeito tem de ser tal e tal, mas, dado o efeito, a [191]causa pode ter sido uma de muitas alternativas, então nós podemos dizer que a causa determina o efeito, mas não o efeito, a causa. Contudo, a pluralidade de causas resulta apenas a partir de se conceber o efeito vaga e estritamente, e a causa, precisa e amplamente. Muitos antecedentes podem “causar” a morte de um homem, porque a morte dele é vaga e estrita. Mas se nós adotarmos o curso oposto, tomando como a “causa” a ingestão de arsênico, e como o “efeito” o inteiro estado do mundo cinco minutos depois, nós deveremos ter pluralidade de efeitos em vez de pluralidade de causas. Dessa maneira, a suposta falta de simetria entre “causa” e “efeito” é ilusória.
(4) “Uma causa não pode operar quando ela cessou de existir, porque o que cessou de existir é nada.” Essa é uma máxima comum, e um preconceito não expresso ainda mais comum. Eu imagino que ela tenha muito a ver com a atratividade da “durée” de Bergson: uma vez que o passado tem efeito agora, ele ainda tem de existir em algum sentido. O erro nessa máxima consiste na suposição de que causas de qualquer maneira “operem.” Uma volição “opera” quando o quê ela deseja ocorre; mas nada pode operar exceto uma volição. A crença de que causas “operem” resulta a partir da assimilação delas, consciente ou inconscientemente, a volições. Nós já vimos que, se de qualquer maneira há causas, elas tem se ser separadas por um intervalo finito de tempo dos efeitos delas e, dessa maneira, causar seus efeitos após elas terem cessado de existir.
Pode ser objetado à definição acima de uma volição “operando” que ela apenas opera quando ela “causa” o que ela deseja (wills), não quanto ela meramente acontece de ser seguida pelo quê ela deseja (wills). Isso certamente representa a visão usual do quê é significado por uma volição “operando,” mas como envolve a noção mesma de causação que nós estamos engajados em combater, não está aberto para nós como uma definição. Nós [192]podemos dizer que uma volição “opera” quando há alguma lei em virtude qual uma volição similar, em circunstâncias bastante similares, será usualmente seguida pelo quê ela deseja. Mas isso é uma concepção vaga, e introduz ideias que nós ainda não consideramos. O que é principalmente importante para notar é que a noção usual de “operação” não está aberta para nós se nós rejeitamos, como eu argumento que nós deveríamos, a noção usual de causação.
(5) “Uma causa não pode operar exceto onde ela está.” Esta máxima é muito difundida; ela foi argumentada contra Newton, e tem permanecido uma fonte de preconceito contra a “ação à distância.” Em filosofia, ela tem conduzido a uma negação da ação temporária e, consequentemente, ao monismo ou ao monadismo leibniziano. Como a máxima análogo relativa à contiguidade temporal, ela depende da suposição de que as causas “operam,” ou seja, que, de alguma maneira obscura, elas são análogas a volições. E, como no caso da contiguidade temporal, as inferências extraídas a partir dessa máxima são inteiramente infundamentadas.
Eu agora retorno à questão, Que lei ou leis podem ser encontradas ocorrer da suposta lei de causalidade?
Primeiro, sem passar além daquelas uniformidades de sequência que são contempladas pela lei tradicional, nós temos de admitir que, se qualquer sequência semelhante tem sido observada valer em um grande número de casos, e nunca tem sido observada falhar, há uma probabilidade indutiva de que ela ser descoberta valer em casos futuros. Se até agora pedras têm sido descobertas quebrar janelas, é provável que elas continuarão a fazê-lo. É claro, isso assume o princípio indutivo, a verdade do qual pode ser razoavelmente ser questionada; mas visto que esse princípio não é a nossa preocupação presente, eu deverei tratá-lo como indubitável na presente discussão. Então, nós podemos dizer, no caso de qualquer sequência similar frequentemente observada, que [193]o evento anterior é a causa e o evento posterior, o efeito.
Contudo, várias considerações tornam tais sequências especiais muito diferentes da relação tradicional de causa e efeito. Em primeiro lugar, a sequência, em qualquer instância não observada até agora, não é mais do que provável, considerando que a relação de causa e efeito foi suposta ser necessária. Com isso eu não quero meramente dizer que nós não estejamos certos de ter descoberto um caso verdadeiro de causa e efeito; eu quero dizer que, mesmo quando nós temos um caso de causa e efeito na nossa acepção presente, tudo que se quis dizer é quer, sobre fundamentos de observação, é provável que quando um ocorra o outro também ocorrerá. Dessa maneira, na nossa acepção presente, A pode ser a causa de B mesmo se efetivamente haja caso onde B não se siga a partir de A. Riscas um fósforo será a causa da ignição dele, a despeito do fato de que alguns fósforos estão úmidos e falham em pegar fogo.
Em segundo lugar, não será assumido que todo evento tenha algum antecedente que seja a sua causa nesse sentido; nós apenas deveremos acreditar em sequências causas onde nós as descobrimos, sem nenhuma presunção de que elas sempre devam ser encontradas.
Em terceiro lugar, qualquer caso de sequência suficientemente frequente será causal em nosso sentido presente; por exemplo, nós não deveremos nos recusar a dizer que a noite é a causa do dia. A nossa repugnância para dizer isso surge a partir da facilidade com a qual nós imaginamos a sequência falhar, mas, devido ao fato de que causa e efeito têm de estar separados por um intervalo finito de tempo, qualquer sequência semelhante poderia falhar através da interposição de outras circunstâncias no intervalo. Mill, discutindo essa instância de noite e dia, diz:-
“É necessário para o nosso uso da palavra causa que nós devamos acreditar não apenas que o antecedente sempre tem [194]sido seguido pelo consequente, mas que, enquanto a constituição presente de coisas perdurar, isso sempre será assim.”5
Nesse sentido, nós devemos ter de desistir da esperança de encontrar leis causais tais como Mill contemplava; qualquer sequência causal que nós temos observado pode, a qualquer momento, ser falsificada sem a falsificação de nenhuma lei do tipo que as ciências mais avançadas objetivas estabelecer.
Em quarto lugar, essas leis de sequência provável, embora úteis na vida cotidiana e na infância de uma ciência, tendem a ser substituídas por leis bastante diferentes tão logo uma ciência seja exitosa. A lei da gravitação ilustrará o que ocorre em qualquer ciência avançada. Nos movimentos de corpos mutuamente gravitando, não há nada que possa ser chamado de uma causa, e nada que pode ser chamado de um efeito; há meramente uma fórmula. Certas equações diferenciais podem ser descobertas, as quais valem em cada instante para cada partícula do sistema, e que, dadas a configuração e as velocidades em um instante, ou as configurações em dois instantes, tornam a configuração de qualquer instante anterior ou posterior calculável. Quer dizer, a configuração em qualquer instante é uma função daquele instante e das configurações em dois eventos dados. Essa afirmação vale por toda física, e não apenas no caso especial da gravitação. Mas não há nada que possa ser chamado propriamente de “causa” e nada que possa ser chamado propriamente de “efeito” em um semelhante sistema.
Sem dúvida a razão pela qual a velha “lei da causalidade” tem por tanto tempo continuado a permear os livros de filosofia é simplesmente que a ideia de uma função não é familiar para a maioria deles, e, portanto, eles procuram uma formulação indevidamente simplificada. Não há questão de repetições da “mesma” causa produzindo o “mesmo” efeito; [195]não é em nenhuma mesmidade de causas e efeitos que a constância da lei científica consiste, mas na mesmidade de relações. E mesmo a “mesmidade de relações” é muito frequentemente uma frase; “mesmidade de equações diferenciais” é a única frase correta. É impossível formular isso precisamente em linguagem não matemática; o mais próximo seria como se segue: “Há uma relação constante entre o estado do universo em qualquer instante e a razão da mudança na razão pela qual qualquer parte do universo está mudando nesse instante, e essa relação é muitos-um, ou seja, tal que a razão da mudança na razão da mudança está determinada quando o estado do universo está dado.” Se a “lei de causalidade” deve ser alguma coisa efetivamente descobrível na prática da ciência, a proposição acima tem um direito melhor ao nome do que qualquer “lei de causalidade” a ser encontrada nos livros de filósofos.
Com respeito ao princípio acima, várias observações têm de ser feitas-
(1) Ninguém pode pretender que o princípio acima seja a priori ou autoevidente ou uma “necessidade do pensamento.” Nem ele é, em qualquer sentido, uma premissa da ciência: ele é uma generalização empírica a partir de um número de leis que são elas mesmas generalizações empíricas.
(2) A lei não faz diferença entre passado e futuro: o futuro “determina” o passado exatamente no mesmo sentido no qual o passado “determina” o futuro. Aqui a palavra “determina” tem uma significação puramente lógica: um certo número de variáveis “determina” outra variável se aquela outra variável é uma função delas.
(3) A lei não será empiricamente verificável, a menos que o curso de eventos dentro de algum volume [196]suficientemente pequeno será aproximadamente o mesmo em quaisquer dois estados do universo que apenas diferem com respeito ao que está a uma distância considerável a partir do volume em questão. Por exemplo, os movimentos dos planetas no sistema solar têm de ser aproximadamente o mesmo, de qualquer modo que as estrelas fixas possam estar distribuídas, com a condição de que todas as estrelas fixas estejam muito mais distantes do sol do que os planetas estão. Se a gravitação variasse diretamente conforme a distância, de modo que as estrelas mais remotas produzissem a maior diferença para os movimentos dos planetas, o mundo poderia ser exatamente tão regular e estar tão exatamente sujeito às lei matemáticas como ele está no presente, mas nós nunca poderíamos descobrir o fato.
(4) Embora a velha “lei da causalidade” não seja assumida pela ciência, alguma coisa que nós podemos chamar de a “uniformidade da natureza” é assumida, ou antes aceita, sobre bases indutivas. A uniformidade da natureza não afirma o princípio trivial “mesma causa, mesmo efeito,” mas o princípio da permanência de leis. Isso quer dizer, quando uma lei exibindo, por exemplo, uma aceleração como uma função da configuração tem sido descoberta valer por todo o passado observável, espera-se que ela continuará a valer no futuro, ou que, se ele mesmo não valha, há alguma outra lei, concordando com a suposta lei com respeito ao passado, que valerá para o futuro. O fundamento desse princípio é simplesmente o fundamento indutivo que tem sido descoberto ser verdadeiros em muitas instâncias; consequentemente o princípio não pode ser considerado certo, mas apenas provável a um grau que não pode ser precisamente estimado.
A uniformidade da natureza, no sentido acima, embora ela seja assumida na prática da ciência, não tem de ser, em sua generalidade, assumida como um tipo de premissa maior, sem a qual todo raciocínio científico estaria em erro. É claro, a suposição de que todas as leis da natureza são permanentes tem [197]menos probabilidade do que a suposição de que esta ou aquela lei particular é permanente; e a suposição que uma lei particular seja permanente para todo tempo tem menos probabilidade do que a suposição de que ela será válida até uma data tal e tal. Em qualquer caso dado, a ciência assumirá o que o caso requer, mas não mais. Na construção do National Almanac para 1915 será assumido que a lei de gravitação permanecerá verdadeira até o fim daquele ano; mas não fará nenhuma suposição quanto a 1916 até que se chegue ao próximo volume do almanaque. É claro, esse procedimento é ditado pelo fato de que a uniformidade da natureza não é conhecida a priori, mas em uma generalização empírica, como “todos os homens são mortais.” Em todos esses casos semelhantes, é melhor argumentar imediatamente a partir das instâncias particulares dadas para a nova instância, do que argumentar através de uma premissa maior; a conclusão é apenas provável em qualquer caso, mas adquire uma probabilidade maior pelo primeiro método do que pelo segundo.
Em toda ciência nós temos de distinguir dois tipos de leis: primeiro, aquelas que são empiricamente verificáveis, mas provavelmente apenas aproximadas; segundo, aquelas que não são verificáveis, mas podem ser exatas. Por exemplo, a lei da gravitação, em suas aplicações ao sistema solar, é apenas empiricamente verificável quando se assume que a matéria fora do sistema solar pode ser ignorada para tais propósitos; nós acreditamos isso ser apenas aproximadamente verdadeiro, mas nós não podemos verificar empiricamente a lei de gravitação universal que nós acreditamos ser exata. Esse ponto é muito importante na conexão com o quê nós podemos chamar de “sistemas relativamente isolados.” Esses podem ser definidos como se segue: -
Um sistema relativamente isolado durante um dado período é um que, dentro de alguma margem atribuível de erro, comportar-se-á da mesma maneira por todo esse período, de qualquer maneira que o resto do universo possa ser constituído.
[198]Um sistema pode ser chamado de “praticamente isolado” durante um período se, embora poderia haver estados do resto do universo que produziriam mais do que a atribuída margem de erro, não há razão para acreditar que esses estados não ocorram de fato.
Falando estritamente, nós deveríamos especificar o aspecto no qual o sistema está relativamente isolado. Por exemplo, a terra está relativamente isolada com respeito a corpos em queda, mas não com respeito a marés; ela está praticamente isolada com respeito a fenômenos econômicos, embora, se a teoria da mancha solar (sunspot) das crises econômicas de Jevons tivesse sido verdadeira, ela não teria estado praticamente isolada nesse aspecto.
Será observado que nós não podemos provar antecipadamente que um sistema está isolado. Isso será inferido a partir do fato observado que se aproxima das uniformidades que podem ser formuladas apenas para esse sistema. Se as leis completas para o inteiro universo fossem conhecidas, o isolamento de um sistema poderia ser deduzido a partir delas; por exemplo, assumindo-se a lei da gravitação universal, o isolamento prático do sistema solar nesse aspecto pode ser deduzido pela ajuda do fato de que há muito pouca matéria na vizinhança dele. Mas deveria ser observado que sistemas isolados são importantes apenas enquanto fornecendo uma possibilidade de descoberta de leis científicas; eles não têm nenhuma importância teórica na estrutura terminada de uma ciência.
O caso onde um evento A é dito “causar” outro evento B, o qual os filósofos tomam como fundamental, é realmente apenas a instância mais simplificada de um sistema praticamente isolado. Pode acontecer que, como um resultado de leis científicas gerais, sempre que A ocorra do começo ao fim de um certo período, ele seja seguido por B; nesse caso, A e B formam um sistema que é praticamente isolado do começo ao fim desse período. Contudo, deve ser considerado como uma peça de boa fortuna se isso ocorre; isso será sempre devido a circunstâncias [199]especiais, e não teria sido verdadeiro se o resto do universo tivesse sido diferente embora sujeito às mesmas leis.
A função essencial que a causalidade tem sido suposta desempenhar é a possibilidade de inferir o futuro a partir do passado, ou, mais geralmente, eventos em qualquer tempo a partir de eventos em certos tempos atribuídos. Qualquer sistema no qual essa inferência é possível pode ser chamado de um sistema “determinístico.” Nós podemos definir um sistema determinístico como se segue:-
Um sistema é dito ser “determinístico” quando, dados certos dados, e1, e2, …, en, em tempos t1, t2, …, tn respectivamente, relativos a esse sistema, se Et é o estado do sistema em qualquer tempo t, há uma relação funcional da forma
Et = f(e1, t1, e2, t2, …, en, tn, t). (A)
O sistema será “determinístico por todo um dado período” se t, na fórmula acima, pode ser qualquer tempo dentro desse período, embora fora desse período a fórmula não mais seja verdadeira. Se o universo como um todo for um semelhante sistema, o determinismo é verdadeiro do universo; se não, não é. Um sistema que é parte de um sistema determinístico eu deverei chamar de “determinado”; um que não é parte de nenhum sistema semelhante eu deverei chamar de “caprichoso.”
Os eventos e1, e2, …, en eu deverei chamar de “determinantes” do sistema. Deve ser observado que um sistema que tem um conjunto de determinantes, no geral, terá muitos. Por exemplo, no caso dos movimentos dos planetas, as configurações do sistema solar em quaisquer dois momentos dados serão determinantes.
Nós podemos tomar outra ilustração a partir da hipótese do paralelismo psicofísico. Para os propósitos dessa ilustração, assumamos que, a um dado estado do cérebro [200]sempre corresponda um dado estado da mente, e vice-versa, ou seja, que haja uma relação um-um entre eles, de modo que cada um seja uma função do outro. Nós também podemos assumir, o que é praticamente certo, que, a um dado estado de um certo cérebro, um dado estado do inteiro universo material corresponda, uma vez que é altamente improvável que um dado cérebro sempre esteja duas vezes exatamente no mesmo lugar. Consequentemente, haverá uma relação um-um entre o estado da mente de uma dada pessoa e o estado do inteiro universo material. Segue-se que, se n estados do universo material são determinantes do universo material, então n estados da mente de um homem são determinantes do inteiro universo material e mental – quer dizer, assumindo que o paralelismo psicofísico seja verdadeiro.
A ilustração acima é importante em conexão com uma certa confusão que parece ter assediado aqueles quem têm filosofado sobre a relação entre mente e matéria. Frequentemente é considerado que, se o estado da mente é determinado quando o estado do cérebro é dado, e se o mundo material forma um sistema determinístico, então a mente está “sujeita” à matéria em algum sentido que a matéria não está “sujeita” à mente. Mas se o estado do cérebro também é determinado quando o estado da mente é dado, tem de ser absolutamente tão verdadeiro considerar a matéria como sujeita à mente quanto seria considerar a mente como sujeita à matéria. Teoricamente, nós poderíamos imaginar a história da mente sem nunca mencionar a matéria, e então, no fim, deduzir que, entrementes, a matéria tem de ter passado por história correspondente. É verdadeiro que se a relação do cérebro para mente fosse de muitos-um, não um-um, haveria uma dependência unilateral da mente em relação ao cérebro, enquanto que, inversamente, se a relação fosse um-muitos, como Bergson supõe, haveria uma dependência unilateral do cérebro em relação à mente. Mas, em qualquer caso, a dependência envolvida é apenas [201]lógica; ela não significa que nós devamos ser compelidos a fazer coisas que nós não desejamos fazer, que é o que as pessoas instintivamente imaginam que ela significa.
Como outra ilustração nós podemos tomar o caso do mecanismo e da teleologia. Um sistema pode ser definido como “mecânico” quando ele tem um conjunto de determinantes que são puramente materiais, tais como as posições de certas peças de matéria em certos tempos. É uma questão aberta se o mundo de mente e matéria, como nós o conhecemos, é ou não um sistema mecânico; suponhamos, em prol do argumento, que ele seja um sistema mecânico. Essa suposição – assim eu argumento – não lança nenhuma luz que seja sobre a questão de se o universo é ou não um sistema “teleológico.” É difícil definir precisamente o que é significado por um sistema “teleológico,” mas o argumento não é muito afetado pela definição particular que nós adotamos. Um sistema teleológico é um no qual propósitos são realizados, ou seja, no qual certos desejos – aqueles que são mais profundos ou mais nobres ou mais fundamentais ou mais universais ou algo do tipo – são seguidos por sua realização. Agora, o fato – se for um fato – de que o universo é mecânico não tem nenhuma influência que seja sobre a questão de se ele é teleológico no sentido acima. Poderia haver um sistema mecânico no qual todos os desejos fossem realizados, e poderia haver um no qual todo os desejos fossem frustrados. Portanto, a questão de se, ou até onde, o nosso mundo atual é teleológico não pode ser resolvida provando que ele é mecânico, e o desejo de que ele deveria ser teleológico não é fundamento para desejar que ele não seja mecânico.
Em todas essas questões, há uma dificuldade muito grande em evitar confusão entre o que nós podemos inferir e o que de fato está determinado. Consideramos, por um momento, os vários sentidos nos quais o futuro pode ser “determinado.” Há um sentido – e um muito importante – [202]no qual ele é determinado de maneira bastante independente das leis científicas, a saber, o sentido de que será o quê será (it will be what it will be). Todos nós consideramos o passado como determinado simplesmente pelo fato de que ele aconteceu; mas, pelo acidente de a memória funciona para trás e não para frente, nós deveríamos considerar o futuro como igualmente determinado pelo fato de que ele acontecerá. “Mas,” é dito a nós, “você não pode alterar o passado, ao passo que, em alguma extensão, você pode alterar o futuro.” Essa visão me parece depender exatamente daqueles erros com respeito à causação que têm sido o meu objeto remover. Você não pode tornar o passado diferente do que ele foi – verdadeiro, mas isso é uma mera aplicação da lei da contradição. Se você já sabe que o passado foi, obviamente, é inútil desejá-lo diferente. Mas você também não pode tornar o futuro diferente do que ele será; novamente, isso é uma aplicação da lei da contradição. E se acontece de você conhecer o futuro - por exemplo, no caso de um eclipse vindouro – é exatamente tão inútil desejá-lo diferente quanto deseja o passado diferente. “Mas,” será acrescentado, “algumas vezes, os nossos desejos podem causar o futuro ser diferente do que ele seria se eles não existissem, e eles não podem ter efeito semelhante sobre o passado.” Novamente, isso é uma mera tautologia. Um efeito sendo definido como alguma coisa subsequente a sua causa, obviamente nós não podemos ter efeito sobre o passado. Mas isso não significa que o passado não teria sido diferente se os nossos desejos presentes tivessem sido diferentes. Obviamente, os nossos desejos presentes são condicionados pelo passado e, portanto, não poderiam ter sido diferentes a menos que o passado tivesse sido diferente; portanto, se nossos desejos presentes fossem diferentes, o passado seria diferente. É claro, o passado não pode ser diferente do que ele foi, mas não mais podem os nossos desejos presentes ser diferentes do que eles são; novamente, isso é mera aplicação da lei de contradição. Os fatos parecem ser meramente (I) que desejar geralmente [203]depende de ignorância e, portanto, é mais comum com respeito ao futuro do que com respeito ao passado; (2) que, onde um desejo diz respeito ao futuro, ele e a sua realização muito frequentemente formam um “sistema praticamente independente,” ou seja, muitos desejos dizendo respeito ao futuro são realizados. Mas parece não haver dúvida que a principal diferença em nossos sentimentos surge a partir do fato acidental de que o passado, mas não o futuro, pode ser conhecido através da memória.
Embora o sentido de “determinado” no qual o futuro está determinado pelo mero fato de que ele será o que ele será seja suficiente (pelo menos assim me parece) para refutar alguns oponentes do determinismo, notavelmente M. Bergson e os pragmáticos, contudo, isso não é o que a maioria das pessoas têm em mente quando elas falam do futuro como determinado. O que eles têm em mente é uma fórmula através da qual o futuro pode ser exibido e, pelo menos, teoricamente calculado, como uma função do passado. Mas nesse ponto nós encontramos uma grande dificuldade, a qual assedia o quê tem foi dito acima sobre sistemas determinísticos, assim como o que foi dito por outros.
Se fórmulas de qualquer complexidade, por mais que grande, são admitidas, pareceria que qualquer sistema, cujo estado em um dado momento é uma função de certas quantidades mensuráveis, tem de ser um sistema determinístico. Como ilustração, consideremos uma única partícula material, cujas coordenadas no tempo t são xt, yt, zt. Então, de qualquer maneira que a partícula se mova, tem de haver, teoricamente, funções f1, f2, f3 tais que
xt = f1(t), yt=f2(t), zt=f3(t).
Segue-se que, teoricamente, todo o estado do universo material no tempo t tem de ser capaz de ser exibido como uma função de t. Consequentemente, o nosso universo será determinístico no sentido definido acima. Mas, se isso for [204]verdadeiro, nenhuma informação é transmitida sobre o universo ao formular que ele é determinístico. É verdadeiro que as fórmulas envolvidas possam ser de complexidade estritamente infinita e, portanto, não particularmente capazes de serem escritas ou apreendidas. Mas, exceto a partir do ponto de vista do nosso conhecimento, isso poderia parecer ser um detalhe: em si mesmo, se as considerações acima estão corretas, o universo material tem de ser determinístico, tem de estar sujeito a leis.
Contudo, evidentemente, não é isso que intencionado. A diferença entre essa visão e a visão intencionada pode ser percebida como se segue. Dada alguma fórmula que se ajuste aos fatos até agora – digamos, a lei da gravitação – haverá um número infinito de outras fórmulas, não empiricamente distinguíveis dela no passado, mas divergindo dela mais e mais no futuro. Consequentemente, mesmo assumindo que há leis persistentes, nós não devemos ter razão para assumir que a lei do quadrado inverso valerá no futuro; pode ser alguma outra lei até agora indistinguível que valerá. Nós não podemos dizer que toda lei que tem valido até agora tem de valer no futuro, porque fatos passados obedecem a uma lei também obedecerão outras, até agora indistinguíveis mas divergentes no futuro. Consequentemente, tem de haver, em cada momento, leis até agora intactas que agora são violadas pela primeira vez. De fato, o que a ciência faz é selecionar a fórmula mais simples que se ajustará aos fatos. Mais isso, bastante obviamente, é meramente um preceito metodológico, não uma lei da natureza. Se, após um tempo, a fórmula mais simples deixa de ser aplicável, a fórmula mais simples que resta é selecionada, e a ciência não tem sentido de que um axioma foi falsificado. Dessa maneira, nós somos deixados com o fato bruto de que, em muitos departamentos da ciência, leis bastante simples até agora têm sido descobertas valer. Esse fato não pode ser considerado como tendo qualquer fundamento a priori, nem ele pode ser usado para suportar indutivamente a opinião de que [205]as mesmas leis continuarão; pois, a cada momento, leis até agora verdadeiras estão sendo falsificadas, embora, nas ciências avançadas, essas leis são menos simples do que aquelas que têm permanecido verdadeiras. Além disso, seria falacioso argumentar indutivamente a partir do estado das ciências avançadas para o estado futuro das outras, pois bem pode ser que as ciências avançadas sejam avançadas simplesmente porque, até agora, o tema delas tem obedecido a leis simples e facilmente determináveis, enquanto que o tema de outras ciências não tem feito isso.
A dificuldade que nós estivemos considerando parece ser satisfeita parcialmente, se não inteiramente, pelo princípio de que o tempo não tem de entrar explicitamente nas nossas fórmulas. Todas as leis mecânicas exibem a aceleração como uma função da configuração, não da configuração e tempo em conjunto; e esse princípio da irrelevância do tempo pode ser estendido a todas as leis científicas. De fato, nós poderíamos interpretar a “uniformidade da natureza” como significando exatamente isto, que nenhuma lei científica envolve o tempo como um argumento, a menos que, é claro, ele seja dado em uma forma integrada, caso no qual o lapso de tempo, embora não o tempo absoluto, pode aparecer nas nossas fórmulas. Eu não sei se essa consideração é suficiente para superar a nossa dificuldade; mas, em todo caso, ela faz muito para a diminuir.
Servirá para ilustrar o que tem sido dito se nós aplicarmos isso à questão do livre-arbítrio.
(1) Determinismo com respeito à vontade é a doutrina de que as nossas volições pertencem a algum sistema determinístico, ou seja, são “determinadas” no sentido definido acima. Se essa doutrina é verdadeira ou falsa, é uma mera questão de fato; nenhuma consideração a priori (se as nossas discussões prévias têm estado corretas) pode existir de cada lado. Por um lado, não há categoria a priori da causalidade, mas meramente certas uniformidades observadas. Como uma questão [206]de fato, há uniformidades observadas com respeito a volições; desse modo, há evidência empírica de que volições sejam determinadas. Mas seria muito apressado sustentar que a evidência é dominante, e é bastante possível que algumas volições, assim como algumas outras coisas, não sejam determinadas, exceto no sentido no qual nós descobrimos que tudo tem de ser determinado.
(2) Mas, por outro lado, o sentido subjetivo de liberdade, algumas vezes alegado contra o determinismo, não tem nenhuma influência que seja sobre a questão. A visão de que ele tem uma influência depende da crença de que as causas compelem os seus efeitos, ou que a natureza força a obediência das suas leis como os governos fazem. Essas são superstições meramente antropomórficas, devida à assimilação de causas por volições e de leis naturais por editos humanos. Nós sentimos que a nossa vontade não é compelida, mas isso apenas significa que não é outro do que nós que escolhemos ser. É um dos deméritos da tradicional teoria da substância que ela criou uma oposição artificial entre o determinismo e a liberdade da qual nós estamos introspectivamente conscientes.
(3) Além da questão geral de se volições são determinadas, há a questão adicional de se elas são mecanicamente determinadas, ou seja, se elas são partes do quê foi definido acima como um sistema mecânico. Essa é a questão de se elas formam parte de um sistema com determinantes puramente mecânicos, ou seja, se há leis que, dados certos dados materiais, tornem todas as volições funções desses dados. Novamente aqui há uma evidência empírica até um ponto, mas ela não é conclusiva com respeito a todas as volições. Contudo, é importante observar que, mesmo se as volições sejam parte de um sistema mecânico, isso de maneira nenhuma implica nenhuma supremacia da matéria sobre a mente. Pode bem ser que o mesmo sistema que seja [207]suscetível a determinantes materiais também seja suscetível a determinantes mentais; dessa maneira, um sistema mecânico pode ser determinado por conjuntos de volições, assim como por conjuntos de fatos materiais. Portanto, pareceria que as razões que fazem as pessoas oporem-se à visão de que as volições sejam mecanicamente determinadas são falaciosas.
(4) A noção de necessidade, a qual é frequentemente associada com o determinismo, é uma noção confusa, não legitimamente dedutível a partir do determinismo. Três significados são comumente confundidos quando se fala de necessidade:-
(α) Uma ação é necessária quando ela será realizada por mais que muito o agente possa desejar agir de outra maneira. O determinismo não implica que ações sejam necessárias nesse sentido.
(β) Uma função proposicional é necessária quando todos os seus valores são verdadeiros. Esse sentido não é relevante para a nossa discussão presente.
(γ) Uma proposição é necessária com respeito a um dado constituinte quando ela é o valor, com esse constituinte como argumento, de uma função proposicional necessária, em outras palavras, quando ela permanece verdadeira por mais que esse constituinte possa ser variado. Nesse sentido, em um sistema determinístico, a conexão de uma volição com os seus determinantes é necessária, se o tempo no qual os determinantes ocorrem for tomado como o constituinte a ser variado, o intervalo temporal entre os determinantes e a volição sendo mantido constante. Mas esse sendo de necessidade é puramente lógico, e não tem importância emocional.
Agora nós podemos resumir a nossa discussão sobre a causalidade. Primeiro nós descobrimos que a lei de causalidade, como usualmente formulada por filósofos, é falsa, e não é empregada na ciência. Nós então consideramos a natureza das leis científicas, e descobrimos que, em vez de afirmar que um evento A é sempre seguido [208]por outro evento B, elas formulam relações funcionais entre certos eventos em certos tempos, os quais nós chamamos de determinantes, e outros eventos em tempos anteriores ou posteriores, ou ao mesmo tempo. Nós fomos incapazes de encontrar qualquer categoria a priori envolvida: a existência de leis científicas apareceu como um fato puramente empírico, não necessariamente universal, exceto em uma forma trivial e cientificamente inútil. Nós descobrimos que um sistema com um conjunto de determinantes muito provavelmente pode ser outros conjuntos de um tipo bastante diferente, que, por exemplo, um sistema mecanicamente determinado também pode ser teleologicamente ou volitivamente determinado. Finalmente, nós consideramos o problema do livre-arbítrio: aqui nós descobrimos que as razões para supor que as volições sejam determinadas são forte mas não conclusivas, e nós decidimos que mesmo se as volições sejam mecanicamente determinadas, que isso não é razão para negação da liberdade no sentido revelado pela introspecção, ou para supor que eventos mecânicos não são determinados por volições. Portanto, se nós estivermos corretos, o problema da liberdade versus determinismo é principalmente ilusório, mas, em parte, ainda não capaz de ser decisivamente resolvido.
ORIGINAL:
RUSSELL, B. On the Notion of Cause. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 180-208. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/180/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[182]Uma função proposicional é uma expressão contendo uma variável, ou constituinte indeterminado, e tornando-se uma proposição tão logo um valor definido seja atribuído à variável. Exemplos são: “A é A,” “x é um número.” A variável é chamada de o argumento da função.
2[185]Logic, Liv. II, Cap. V, §2.
3Time and Free Will, p. 199.
4[186]Time and Free Will, p. 202.
5[194]Loc. cit., §6.
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