quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios X Conhecimento por Familiaridade e Conhecimento por Descrição [Último Ensaio]

Misticismo e Logica e Outros Ensaios


Por Bertrand Russell


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[209]X Conhecimento por Familiaridade e Conhecimento por Descrição [Último Ensaio]


O objetivo do artigo seguinte é considerar o que é que nós conhecemos em casos onde nós conhecemos proposições sobre “o assim-e-assim (the so-and-so)” sem conhecermos quem ou o quê é o assim-e-assim. Por exemplo, eu sei que o candidato que obtiver a maioria de votos será eleito, embora eu não saiba quem é o candidato que obterá maioria dos votos. O problema que eu desejo considerar é: O que nós conhecemos nesses casos, onde o sujeito é meramente descrito? Eu considerei esse problema em outro lugar1, a partir de um ponto de vista puramente lógico; mas, no que se segue, eu desejo considerar a questão em relação à teoria do conhecimento assim como à lógica, e na visão das supracitadas discussões lógicas, eu deverei tornar a porção lógica neste artigo tão breve quanto possível.

A fim de tornar clara a antítese entre “familiaridade” e “descrição,” primeiro de tudo, eu deveria tentar explicar o que eu quero dizer por “familiaridade (acquaintance).” Eu digo que eu estou familiarizado (acquainted) com um objeto quando eu tenho uma relação cognitiva direta com esse objeto, ou seja, quando eu estou diretamente ciente do objeto mesmo. Quando eu falo de uma relação cognitiva aqui, eu não quero dizer o tipo de relação que constitui julgamento, mas o tipo que constitui apresentação (presentation). De fato, eu penso que a relação de sujeito e [210]objeto que eu chamo de familiaridade é simplesmente o inverso da relação do objeto e sujeito que constitui a apresentação. Quer dizer, dizer que S tem uma familiaridade com O é essencialmente o mesmo que dizer que O é apresentado a S. Mas as associações e extensões naturais da palavra familiaridade são diferentes daquelas da palavra apresentação. Para começar, na maioria das palavras cognitivas, é natural dizer que eu estou familiarizado com um objeto mesmo em momentos quando ele não está atualmente diante da minha mente, com a condição de que ele tenha estado diante da mente e estará novamente, sempre que a ocasião surja. Esse é o mesmo sentido no qual eu digo conhecer que 2 + 2 = 4, mesmo quando eu estou pensando em alguma outra coisa. Em segundo lugar, a palavra familiaridade é intencionada para enfatizar, mas do que a palavra apresentação, o caráter relacional com o qual nós estamos preocupados. Para minha mente há o perigo de que, falando de apresentação, nós possamos enfatizar tanto o objeto quanto a perder de vista o sujeito. O resultado disso é, ou levar à visão de que não há sujeito, daí nós chegamos ao materialismo; ou levar à visão de que o quê é apresentado é parte do sujeito, daí nós chegamos ao idealismo, e deveríamos chegar ao solipsismo, mas através das contorções mais desesperadas. Agora, eu desejo preservar o dualismo de sujeito e objeto em minha terminologia, porque esse dualismo me parece um fato fundamental relativo à cognição. Consequentemente, eu prefiro a palavra familiaridade, porque ela enfatiza a necessidade de um sujeito que está familiarizado.

Quando nós perguntamos com quais tipos de objetos nós estamos familiarizados, o exemplo primeiro e mais óbvio é o dos dados do sentido (sense-data). Quando eu vejo uma cor ou ouço um barulho, eu tenho uma familiaridade direta com a cor ou o barulho. O dado do sentido com o qual eu estou familiarizado nesses casos é geralmente, se não sempre, complexo. Isso é particularmente [211]óbvio no caso da visão. É claro, eu não quero dizer meramente que o objeto suposto físico seja complexo, mas que o objeto sensível direto é complexo e contém partes com relações espaciais. Se é possível estar ciente de um complexo sem estar cientes dos seus constituintes não é uma questão fácil, mas, no todo, pareceria que não há razão de porque isso não deveria ser possível. Essa questão surge em uma forma aguda em conexão com a autoconsciência, a qual agora nós temos de considerar brevemente.

Na introspecção nós parecemos estar imediatamente cientes de complexos variados, consistindo de várias relações cognitivas e conativas conosco mesmos. Quando eu vejo o sol, frequentemente acontece que eu estou ciente do meu ato de ver o sol, em adição ao de estar ciente do sol; e quando eu desejo comida, frequentemente acontece que eu estou ciente do meu desejo de comida. Mas é difícil descobrir qualquer estado mental no qual eu esteja ciente apenas de mim mesmo, enquanto oposto a um complexo do qual eu sou um constituinte. A questão da natureza da autoconsciência é grande demais, e está muito levemente conectada ao nosso assunto, para ser argumentada extensamente aqui. É difícil, mas provavelmente não impossível, explicar fatos simples se nós assumirmos que não temos familiaridade com nós mesmos. É evidente que nós não apenas estamos familiarizados com o complexo “Eu-familiarizado-com-A (Self-acquainted-with-A),” mas nós também conhecemos a proposição “Eu estou familiarizado com A (I am acquainted with A).” Agora, aqui o complexo foi analisado, e, se o “Eu (I)” não representa alguma coisa que é um objeto direto de familiaridade (acquaintance), nós deveremos supor que o “Eu” é alguma coisa conhecida por descrição. Se nós desejássemos sustentar a visão de que não há familiaridade com o eu (Self), nós poderíamos argumentar como se segue: Nós estamos familiarizados com a familiaridade, e nós sabemos que ela é uma relação. Também nós estamos familiarizados com um complexo no qual nós percebemos que a familiaridade [212]é a relação relacionante. Consequentemente, nós sabemos que esse complexo tem de ter um constituinte que é aquilo que está familiarizado, ou seja, tem de ter um termo-sujeito assim com um termo-objeto. Esse termo-sujeito nós definimos como “Eu.” Dessa maneira, o “Eu”significa “o termo-sujeito na consciência da qual eu estou ciente.” Mas, como uma definição, essa não pode ser considerada como um esforço feliz. Portanto, pareceria necessário ou supor que eu sou familiarizado comigo mesmo, e que, portanto, o “eu” não requer nenhuma definição, ou encontrar alguma outra análise da autoconsciência. Dessa forma, a autoconsciência não pode ser considerada como lançando luz sobre a questão de se nós podemos conhecer um complexo sem conhecer os seus constituintes. Contudo, essa questão não é importante para os nossos propósitos e, portanto, eu não deverei a discutir adicionalmente.

As consciências (awarenesseses) que nós temos considerado até agora têm sido completamente consciências de particulares existentes, e poderiam todos, em um sentido amplo, serem chamados de dados do sentido. Pois, a partir do ponto de vista da teoria do conhecimento, o conhecimento introspectivo está exatamente no nível do conhecimento derivado a partir da visão ou audição. Mas, em adição à consciência do tipo de objetos acima, a qual pode ser chamada de consciência de particulares, nós também temos (embora não exatamente no mesmo sentido) o que pode ser chamado de consciência de universais. Consciência de universais é chamada de concepção (conceiving), e um universal do qual nós estamos cientes é chamado de um conceito (concept). Não apenas nós estamos cientes de amarelos particulares, mas, se nós tivermos visto um número suficiente de amarelos e tivermos inteligência, nós ficamos cientes do universal amarelo; esse universal é o sujeito em julgamentos tais como “o amarelo difere do azul” ou “o amarelo assemelha-se ao azul mais do que o verde se assemelha.” E o universal amarelo é o predicado em julgamentos tais como “isto é amarelo,” onde “isto” é um dado do sentido particular. E também relações universais [213]são objetos de consciências; cima e baixo, antes e depois, semelhança, desejo, consciência mesma, e assim por diante, todas elas pareceriam ser objetos dos quais nós estamos cientes.

Com respeito a relações, poderia ser insistido em que nós nunca estamos conscientes da relação universal em si mesma, mas apenas dos complexos nos quais ela é um constituinte. Por exemplo, pode ser dito que nós não conhecemos diretamente uma relação como antes (before), embora nós entendemos uma proposição como “isto está antes disso (this is before that),” e podemos estar diretamente cientes de um complexo como “isto estando antes disso (this being before that).” Contudo, essa visão é difícil de reconciliar com o fato de que frequentemente nós conhecemos proposições nas quais a relação é o sujeito, ou na qual os relatos não são objetos definidos dados, mas “qualquer coisa (anything).” Por exemplo, nós sabemos que se uma coisa está antes de outra, e a outra antes de uma terceira, então a primeira está antes da terceira; e aqui as coisas relacionadas não são coisas definidas, mas “quaisquer coisas.” É difícil ver como nós poderíamos conhecer um fato sobre “antes” a menos que nós estivéssemos familiarizados com “antes,” e não meramente com casos particulares atuais de um dado objeto estando antes de outro dado objeto. E mais diretamente: Um julgamento tal como “isto está antes disso,” onde esse julgamento é derivado a partir da consciência de um complexo, constitui uma análise, e nós não deveríamos entender a análise se nós não estivéssemos familiarizados com o significado dos termos empregados. Dessa maneira, nós temos de supor que nós estamos familiarizados com o significado de “antes,” e não meramente com instâncias dele.

Dessa forma, há pelos menos dois tipos de objetos dos quais nós estamos cientes, a saber, particulares e universais. Entre os particulares, eu incluo todos os existentes e todos os complexos dos quais um ou mais constituintes são existentes, tais como isto-antes-disso (this-before-that), isto-acima-daquilo (this-above-that), a-amarelidão-disto (the-yellowness-of-this). [214]Entre os universais eu incluo todos os objetos dos quais nenhum particular é um constituinte. Dessa forma, a disjunção “universal-particular” inclui todos os objetos. Nós também poderíamos chamá-la de disjunção “abstrato-concreto.” Ela não é muito paralela à oposição “conceito-percepto,” porque coisas lembradas ou imaginadas pertencem aos particulares, mas dificilmente podem ser perceptos. (Por outro lado, os universais com os quais nós estamos familiarizados podem ser identificados com conceitos).

Será percebido que entre os objetos com os quais nós estamos familiarizados não estão incluídos objetos físicos (enquanto opostos a dados do sentido), nem as mentes de outras pessoas. Essas coisas são conhecidas por nós pelo que eu chamo de “conhecimento por descrição,” o qual nós agora temos de considerar.

Por uma “descrição” eu quero dizer qualquer frase da forma “um assim-e-assim (a so-and-so)” ou “o assim-e-assim (the so-and-so).” Uma frase da forma “um assim-e-assim” eu deverei chamar de uma descrição ambígua; uma frase da forma “o assim-e-assim” (no singular) eu deverei chamar de uma descrição “definida.” Dessa forma, ‘um homem” é uma descrição ambígua, e “o homem com a máscara de ferro” é uma descrição definida. Há vários problemas conectados com descrições ambíguas, mas eu passo por eles, uma vez que eles não dizem diretamente respeito ao assunto que eu desejo discutir. O quê eu desejo discutir é a natureza do nosso conhecimento relativo a objetos em casos onde nós sabemos que há um objeto correspondendo a uma descrição definida, embora nós não estejamos familiarizados com nenhum objeto semelhante. Essa é uma questão que está exclusivamente relacionada com descrições definidas. Portanto, na sequência, eu deverei falar simplesmente em “descrições” quando eu quiser dizer “descrições definidas.” Dessa forma, uma descrição significará qualquer frase da forma “o assim-e-assim” no singular.

Eu deverei dizer que um objeto é “conhecido por descrição (known by description)” quando nós conhecemos que ele é “o assim-e-assim (the so-and-so),” ou seja, quando nós [215]conhecemos que há um objeto, e nada mais, tendo uma certa propriedade; e será geralmente implicado que nós não temos conhecimento do mesmo objeto por familiaridade. Nós sabemos que o homem com a máscara de ferro existiu, e muitas proposições são conhecidas sobre ele; mas nós não sabemos quem ele foi. Nós sabemos que o candidato que obtiver a maioria dos votos será eleito, e, nesse caso, muito provavelmente, nós estamos familiarizados (no único sentido no qual alguém pode estar familiarizado com mais alguém) com o homem que é, de fato, o candidato que obterá a maioria dos votos, mas nós não sabemos qual dos candidatos ele é, ou seja, nós não conhecemos nenhuma proposição da forma “A é o candidato que obterá a maioria dos votos,” onde A é um dos candidatos por nome. Nós deveremos dizer que nós temos “conhecimento meramente descritivo” do assim-e-assim quando, embora nós saibamos que o assim-e-assim existe, e embora nós possivelmente possamos estar familiarizados com o objeto que, de fato, é o assim-e-assim, contudo, nós não conhecemos nenhuma proposição “a é o assim-e-assim,” onde a é alguma coisa com a qual nós estamos familiarizados.

Quando nós dizemos “o assim-e-assim existe,” nós queremos dizer que há apenas um objeto que é o assim-e-assim. A proposição “a é o assim-e-assim” significa que a tem a propriedade assim-e-assim, e nada mais a tem. “Sir Joseph Larmor é o candidato unionista” significa que “Sir Joseph Larmor é um candidato unionista, e ninguém mais é.” “O candidato unionista existe” significa que “alguém é um candidato unionista, e ninguém mais existe.” Dessa forma, quando nós estamos familiarizados com um objeto que nós sabemos ser o assim-e-assim, nós sabemos que o assim-e-assim existe, mas nós podemos saber que o assim-e-assim existe quando nós não estamos familiarizados com nenhum objeto que nós sabemos ser o assim-e-assim, e mesmo quando nós não estamos familiarizados com nenhum objeto que, de fato, é o assim-e-assim.

[216]Palavras comuns, até nomes próprios, são usualmente realmente descrições. Isso quer dizer, o pensamento na mente de uma pessoa usando um nome próprio corretamente geralmente apenas pode ser expresso explicitamente se nós substituirmos o nome próprio por uma descrição. Além disso, a descrição requerida para expressar o pensamento variará para pessoas diferentes, ou para a mesma pessoa em tempos diferentes. A única coisa constante (enquanto o nome for corretamente usado) é o objeto ao qual o nome se aplica. Mas, enquanto isso permanecer constante, a descrição particular envolvida usualmente não faz diferença para a verdade ou falsidade da proposição na qual o nome aparece.

Tomemos algumas ilustrações. Suponha-se alguma afirmação feita sobre Bismarck. Assumindo-se que haja alguma coisa como familiaridade direta consigo mesmo, Bismarck mesmo poderia ter usado o seu nome diretamente para designar a pessoa particular com quem ele estava familiarizado. Nesse caso, se ele fizesse um julgamento sobre si mesmo, ele mesmo poderia ser um constituinte do julgamento. Aqui o nome próprio tem o uso direto que ele sempre deseja ter, como simplesmente representando um certo objeto, e não uma descrição do objeto. Mas se uma pessoa quem conhecesse Bismarck fizesse um julgamento sobre ele, o caso seria diferente. Com o quê essa pessoa estava familiarizada eram certos dados do sentido que ela conectava (corretamente, nós suporemos) com o corpo de Bismarck. O corpo dele como um objeto físico, e ainda mais a mente dele, eram conhecidos apenas como o corpo e a mente conectados com esses dados do sentido. Quer dizer, eles eram conhecidos apenas por descrição. É claro, é muito uma questão de acaso quais características da aparência de um homem surgirão na mente de um amigo quando ele pensa nele; dessa forma, a descrição efetivamente na mente do amigo é acidental. A parte essencial é que ele saiba que todas as várias descrições aplicam-se à [217]mesma entidade, a despeito de não estar familiarizado com a entidade em questão.

Quando nós, que não conhecíamos Bismarck, fazemos um julgamento sobre ele, a descrição em nossas mentes provavelmente será alguma massa mais ou menos vaga de conhecimento histórico – em alguns casos, muito mais do que é requerido para o identificar. Mas, em prol de ilustração, assumamos que nós pensamos nele como “o primeiro Chanceler do Império Alemão.” Aqui todas as palavras são abstratas, exceto “alemão.” Novamente, a palavra alemão terá significados diferentes para pessoas diferentes. Para alguns ela recordará viagens à Alemanha, para alguns a visão da Alemanha no mapa, e assim por diante. Mas se nós devemos obter uma descrição que nós sabemos ser aplicável, nós deveremos ser compelidos, em algum ponto, a trazer uma referência a um particular com o qual nós estamos familiarizados. Tal referência está envolvida em qualquer menção de passado, presente e futuro (enquanto oposto a datas definidas), ou de aqui e agora, ou do quê outros nos contaram. Dessa forma, pareceria que, de uma maneira ou de outra, uma descrição sabida ser aplicável a um particular tem de envolver uma referência a um particular com o qual nós estejamos familiarizados, se o nosso conhecimento sobre a coisa descrita não deve ser meramente o quê se segue logicamente a partir da descrição. Por exemplo, “os homens de vidas mais longas (the most long-lived of men)” é uma descrição que tem de se aplicar a algum homem, mas nós não podemos fazer julgamentos relativos a esse homem que envolvam conhecimento sobre ele além do quê a descrição fornece. Contudo, se nós dizemos, “o primeiro Chanceler do Império Alemão foi um diplomata astuto,” nós apenas podemos estar certos da verdade do nosso julgamento em virtude de alguma coisa com a qual nós estamos familiarizados – usualmente um testemunho ouvido ou lido. Considerado psicologicamente, separado da informação que nós transmitimos a outros, separado do fato sobre o Bismarck [218]real, o qual concede importância ao nosso julgamento, o pensamento que nós realmente temos contém um ou mais particulares envolvidos e, de outra maneira, consiste inteiramente de conceitos. Todos os nomes de lugares – Londres, Inglaterra, Europa, a Terra, o sistema solar – envolvem similarmente, quando usados, descrições que partem de um ou mais particulares com os quais nós estamos familiarizados. Eu suspeito de que até o Universo, como considerado por metafísicos, envolva uma conexão similar com particulares. Na lógica, pelo contrário, onde nós não estamos preocupados meramente com o que existe, mas com seja o que for que pode ou poderia existir ou ser, nenhuma referência a particulares atuais está envolvida.

Pareceria que, quando nós fazemos uma afirmação sobre alguma coisa conhecida apenas por descrição, nós frequentemente intencionamos fazer a afirmação, não na forma envolvendo a descrição, mas sobre a coisa real descrita. Isso quer dizer, quando nós dizemos qualquer coisa sobre Bismarck, nós deveríamos gostar, se nós pudéssemos, de fazer o julgamento que apenas Bismarck pode fazer, a saber, o julgamento do qual ele mesmo é um constituinte. Nisso nós estamos necessariamente derrotados, uma vez que o Bismarck efetivo é desconhecido para nós. Mas nós sabemos que há um objeto B chamado de Bismarck, e que B foi um diplomata astuto. Dessa forma nós podemos descrever a proposição que nós deveríamos gostar de afirmar, a saber, “B foi um astuto diplomata,” onde B é o objeto que foi Bismarck. O que possibilita que nos comuniquemos a despeito das descrições variantes que nós empregamos é que nós sabemos que há uma proposição verdadeira relativa ao Bismarck real, e que, por mais que nós possamos variar a descrição (enquanto a descrição for correta), a proposição descrita ainda é a mesma. Essa proposição, que é descrita e é conhecida ser verdadeira, é o que nos interessa; mas nós não estamos familiarizados com a proposição mesma, e não a conhecemos, embora nós saibamos que ela é verdadeira.

[219]Será visto que há vários estágios no distanciamento a partir da familiaridade com particulares: há o Bismarck para as pessoas quem o conheceram, o Bismarck para aqueles que o conheceram através da história, o homem com a máscara de ferro, o homem de vida mais longa. Esses estão progressivamente mais distantes da familiaridade com particulares, e há uma hierarquia similar na região dos universais. Muitos universais, como muitos particulares, são apenas conhecidos por nós através de descrição. Mas aqui, como no caso dos particulares, o conhecimento relativo ao quê é conhecido por descrição é em último caso redutível ao conhecimento relativo ao quê é conhecido por familiaridade.

O princípio epistemológico fundamental na análise de proposições contendo descrições é este: Toda proposição que nós podemos entender tem de ser composta inteiramente de constituintes com os quais nós estamos familiarizados. A partir do que já foi dito, será evidente porque eu defendo esse princípio, e como eu proponho responder ao caso de proposições que, à primeira vista, contradizem-no. Comecemos com as razões para supor o princípio verdadeiro.

A razão principal para supor que o princípio é verdadeiro é que parece escassamente possível acreditar que nós possamos fazer um julgamento ou entreter uma suposição sem saber o quê é que nós estamos julgando ou sobre o quê nós estamos supondo. Se nós fizermos um julgamento sobre (digamos) Júlio César, é evidente que a pessoa real quem foi Júlio César não é um constituinte do julgamento. Mas antes de ir mais longe, pode ser bom explicar o que eu quero dizer quando eu digo que isto ou aquilo é um constituinte de um julgamento, ou de uma proposição que nós entendemos. Para começar com julgamentos: um julgamento, como uma ocorrência, eu aceito ser uma relação de uma mente com várias entidades, a saber, as entidades que compõem o quê é julgado. Por exemplo, se eu julgo [220]que A ama B, o julgamento, como um evento, consiste na existência, em um certo momento, de uma específica relação de quatro termos, chamada de julgamento, entre mim mesmo e A e amor e B. Quer dizer, no momento quando eu julgo, há um certo complexo cujos termos são eu mesmo e A e amor e B, e cuja relação relacionante é julgamento. Minhas razões para essa visão foram estabelecidas em outro lugar,2 e eu não deverei as repetir aqui. Assumindo essa visão de julgamento, os constituintes do julgamento são simplesmente os constituintes do complexo que é o julgamento. Dessa maneira, no caso acima, os constituintes são eu mesmo e A e amor e B e julgamento. Mas eu mesmo e julgamento são constituintes compartilhados por todos os meus julgamentos; assim os constituintes distintivos do julgamento particular em questão são A e amor e B. Chegando agora ao que eu quis dizer por “entendimento de uma proposição,” eu deverei dizer que há outra relação possível entre eu mesmo e A e amor e B, a qual é chamada de suposição de que A ama B.3 Quando nós supomos que A ama B, nós “entendemos a proposição” A ama B. Dessa maneira, nós frequentemente entendemos uma proposição em casos onde nós não temos conhecimento suficiente para fazer um julgamento. A suposição, como o julgamento, é uma relação de muitos termos, da qual a mente é um deles. Os outros termos da relação são chamados de constituintes da proposição suposta. Dessa maneira, o princípio que eu enuncie pode ser reformulado como se segue: Sempre que ocorrer uma [221]relação de suposição ou julgamento, os termos aos quais a mente que supõe ou que julga está relacionada tem de ser os termos com os quais a mente em questão está familiarizada. Isso é meramente dizer que nós não podemos fazer um julgamento ou uma suposição sem saber sobre o quê é aquilo que nós estamos fazendo nosso julgamento ou suposição. Parece-me que a verdade desse princípio é evidente tão logo o princípio seja entendido; portanto, no quê se segue, eu deverei assumir esse princípio e usá-lo como um guia na análise de julgamentos que contêm descrições.

Retornando agora a Júlio César, eu assumo que será admitido que ele mesmo não é um constituinte de nenhum julgamento que eu faça. Mas neste ponto é necessário examinar a visão de que julgamentos são compostos de coisas chamadas de “ideias,” e que é a “ideia” de Júlio César que é um constituinte do meu julgamento. Eu acredito que a plausibilidade dessa visão depende de uma falha para formar uma teoria correta das descrições. Nós podemos querer dizer pela minha “ideia” de Júlio César as coisas que eu conheço sobre ele, por exemplo, que ele conquistou a Gália, foi assassinado nos Idos de Março, e é uma praga para estudantes de escola. Agora, eu estou admitindo e, de fato, argumentando que para descobrir o que efetivamente está minha mente quanto eu julgo sobre Júlio César, nós temos de substituir pelo nome próprio uma descrição formada pelas coisas que eu sei sobre ele. (Uma descrição que frequentemente servirá para expressar meu pensamento é “o homem cujo nome foi Júlio César.” Pois, seja qualquer outra coisa que eu possa ter esquecido sobre ele, é evidente que quando eu o menciono eu não me esqueci de que esse era o nome dele.) Mas embora eu ache que a teoria de que os julgamentos consistem de ideia possa ter sido sugerida de alguma maneira, contudo, eu considero que a teoria mesma esta fundamentalmente equivocada. A [222]visão parece ser de que há algum existente mental que pode ser chamado de a “ideia” de alguma coisa fora da mente da pessoa que tem a ideia, e que, uma vez que o julgamento é um evento mental, os seus constituintes têm de ser constituintes da mente da pessoa julgando. Mas nessa visão as ideias tornam-se um véu entre nós e as coisas exteriores – no conhecimento nós nunca realmente alcançamos as coisas sobre as quais se supõem que nós estamos conhecendo, mas apena as ideias dessas coisas. A relação de mente, ideia e objeto, nessa visão, é completamente obscura, e, até onde eu posso ver, nada descobrível por inspeção autoriza a intrusão da ideia entre a mente e o objeto. Eu suspeito de que a visão seja estimulada pelo desgosto das relações, e que é sentido que a mente não poderia conhecer objetos a menos que houvesse alguma coisa “na” mente que pudesse ser chamado de o estado de conhecer o objeto. Contudo, uma semelhante visão conduz a um vicioso regresso sem fim, uma vez que a relação da ideia com o objeto terá de ser explicada supondo-se que a ideia mesma tenha uma ideia do objeto, e assim ad infinitum. Portanto, eu não vejo nenhuma razão para acreditar que, quando nós estamos familiarizados com um objeto, haja em nós alguma coisa que possa ser chamada de a “ideia” do objeto. Pelo contrário, eu sustento que a familiaridade é inteiramente uma relação, não demandando nenhum constituinte similar da mente como é suposto pelos defensores das “ideias.” É claro, essa é uma questão grande, e uma que nos levaria para longe do nosso assunto se fosse adequadamente discutida. Portanto, eu contento-me com as indicações acima, e com o corolário de que, ao julgar, os objetos atuais relativos ao quê nós julgamos, antes que quaisquer supostas entidades puramente mentais, são constituintes do complexo que é o julgamento.

Portanto, quando eu digo que nós temos de substituir “Júlio César” por alguma descrição de Júlio César, a fim de [223]descobrirmos o significado de um julgamento nominalmente sobre ele, eu não estou dizendo que nós temos de substituir uma ideia. Suponha que a nossa descrição seja “o homem cujo nome foi Júlio César.” Que o nosso julgamento seja “Júlio César foi assassinado.” Então ele torna-se “o homem cujo nome foi Júlio César foi assassinado.” Aqui Júlio César é um barulho ou forma com a qual nós estamos familiarizados, e todos os outros constituintes do julgamento (negligenciando o tempo em “foi (was)”) são conceitos com os quais nós estamos familiarizados. Dessa maneira, o nosso julgamento é inteiramente reduzido a constituintes com os quais nós estamos familiarizados, mas Júlio César mesmo cessou de ser um constituinte do nosso julgamento. Contudo, isso requer uma condição, a ser explicada adicionalmente em breve, a saber, que “o homem cujo nome foi Júlio César,” como um todo, tem de não ser um constituinte do nosso julgamento, isso quer dizer, essa frase, como um todo, tem de não ter um significado que entre no julgamento. Portanto, qualquer análise correta do julgamento tem de dissolver essa frase, e não a tratar como um complexo subordinado que é pate do julgamento. O julgamento “o homem cujo nome foi Júlio César foi assassinado” pode ser interpretado como significando “um e único homem foi chamado de Júlio César, e esse alguém foi assassinado.” Aqui é evidente que não há constituinte correspondendo à frase “o homem cujo nome foi Júlio César.” Dessa forma, não há razão para considerar essa frase como expressando um constituinte do julgamento, e nós vimos que essa frase tem de ser dissolvida se nós desejamos estar familiarizados com todos os constituintes do julgamento. Essa conclusão, à qual nós chegamos a partir de considerações interessadas na teoria do conhecimento, também se força sobre nós através de considerações lógicas, as quais nós agora temos de rever brevemente.

É comum distinguir dois aspectos, significado (meaning) e [224]denotação, em frases tais como “o autor de Waverley.” O significado será um certo complexo, consistindo (pelo menos) de autoria (authorship) e Waverley com alguma relação; a denotação será Scott. Similarmente, “bípedes implumes” terá um significado complexo, contendo como constituintes a presença de dois pés e a ausência de penas, enquanto a sua denotação será a classe dos homens. Dessa forma, quando nós dizemos “Scott é o autor de Waverly” ou “homens são o mesmo que bípedes implumes,” nós estamos afirmando uma identidade de denotação, e essa afirmação vale a pena ser feita por causa da diversidade de significado.4 Eu acredito que a dualidade de significado e denotação, embora capaz de uma interpretação verdadeira, é enganadora se tomada como fundamental. Eu acredito que a denotação não é uma constituinte da proposição, exceto no caso de nomes próprios, ou seja, de palavras que não atribuem uma propriedade a um sujeito, mas mera e unicamente o nomeiam. E eu deveria sustentar adicionalmente que, nesse sentido, há apenas duas palavras que são estritamente nomes próprios de particulares, a saber, “Eu (I)” e “isto (this).”5

Uma razão para não acreditar que a denotação é um constituinte da proposição é que nós podemos conhecer a proposição mesmo quando nós não estamos familiarizados com a denotação. A proposição “o autor de Waverley é um romancista” era conhecida por pessoas que não conheciam que “o autor de Waverly” denotava Scott. Essa razão já foi suficientemente enfatizada.

Uma segunda razão é que proposições relativas a “o assim-e-assim” são possíveis mesmo quando “o assim-e-assim” não tem denotação. Por exemplo, tomem-se “a montanha dourada não existe” ou “o círculo quadrado é autocontraditório.” [225]Se nós devemos preservar a dualidade de significado e denotação, nós temos de dizer, com Meinong, que há objetos tais como a montanha dourada e o círculo quadrado, embora esses objetos não tenham ser (being). Nós até temos de admitir que o círculo quadrado existente é existente, mas não existe.6 Meinong não considera isso como uma contradição, mas eu não consigo ver que não é uma. De fato, parece-me evidente que o julgamento “não há objeto tal como o círculo quadrado” não pressupõe que haja um tal objeto. Contudo, se isso é admitido, nós somos levados à conclusão de que, por paridade de forma, nenhum julgamento relativo a “o assim-e-assim” efetivamente envolve o assim-e-assim como um constituinte.

A senhorita Jones7 argumenta que não há dificuldade na admissão de predicados contraditórios relativos a um a tal objeto como “o presente rei da França (the present King of France),” sobre o fundamento de que esse objeto mesmo é contraditório. É claro, agora poderia ser argumentado que esse objeto, diferentemente do círculo quadrado, não é autocontraditório, mas meramente não existente. Contudo, isso não iria à raiz da questão. A objeção real a um tal argumento é que a lei da contradição não deveria ser formulada na forma tradicional “A é tanto B quanto não B,” mas na forma “nenhuma proposição é tanto verdadeira quanto falsa.” A forma tradicional aplica-se apenas a certas proposições, a saber, àquelas que atribuem um predicado a um sujeito. Quando a lei da contradição é formulada de proposições, em vez de ser formulada em relação a sujeitos e predicados, fica imediatamente evidente que proposições sobre o presente rei da frança ou o círculo quadrado não podem formar nenhuma exceção, mas são exatamente tão incapazes de ser igualmente verdadeiras e falsas quanto as outras proposições.

A senhorita. Jones8 argumenta que “Scott é o autor de [226]Waverley” afirma identidade de denotação entre Scott e o autor de Waverley. Mas há alguma dificuldade na escolha entre os significados alternativos dessa controvérsia. Em primeiro lugar, deveria ser observado que o autor de Waverly não é um mero nome, como Scott. Scott é meramente um barulho ou forma convencionalmente usado para designar uma certa pessoa; e não nos concede nenhuma informação sobre que pessoa, e não tem nada que possa ser chamado de significado enquanto oposto à denotação. (Eu negligencio o fato, considerado acima, de que até nomes próprios, como uma regra, representam descrições.) Mas o autor de Waverley (the author of Waverley) não é meramente convencionalmente um nome para Scott; o elemento de mera convenção pertence aqui às palavras separadas, o (the) e autor (author) e de (of) e Waverley. Dado o que essas palavras representam, o autor de Waverley não é mais arbitrário. Quando é dito que Scott é o autor de Waverley, nós não estamos afirmando que esses são dois nomes para um homem, como nós deveríamos estar se nós disséssemos “Scott é Sir Walter.” O nome de um homem é do quê ele é chamado, mas por mais que Scott tenha sido chamado de o autor de Waverley, isso não o tornaria o autor; é necessário para ele efetivamente escrever Waverley, o que foi um fato nada tendo a ver com nomes.

Portanto, se nós estivermos afirmando identidade de denotação, nós temos não de querer dizer por denotação a mera relação de um nome com a coisa nomeada. De fato, pareceria mais próximo da verdade dizer que o significado de “Scott” é a denotação de “o autor de Waverley.” A relação de “Scott” para Scott é que “Scott” significa Scott, exatamente como a relação de “autor” com o conceito que é assim chamado é que “autor” significa esse conceito. Assim, se nós distinguimos significado e denotação em “o autor de Waverley,” nós deveríamos ter dizer que “Scott” não tem significado, apenas denotação. Também quando nós dizemos “Scott é o autor de [227]Waverley,” o significado de “o autor de Waverley” é relevante para a nossa afirmação. Pois se apenas a denotação fosse relevante, qualquer outra frase com a mesma denotação forneceria a mesma proposição. Assim “Scott é o autor de Marmion” seria a mesma proposição que “Scott é o autor de Waverley.” Mas evidentemente esse não é o caso, uma vez que a partir da primeira nós aprendemos que Scott escreveu Waverley e a partir da segunda nós aprendemos que ele escreveu Waverley, mas a primeira não nos diz nada sobre Waverley e a segunda, nada sobre Marmion. Consequentemente, o significado de “o autor de Waverley,” enquanto oposto à denotação, é certamente relvante para “Scott é o autor de Waverley.”

Dessa maneira, nós concordamos que “o autor de Waverley” não é um mero nome, e que o seu significado é relevante nas proposições nas quais ele ocorre. Assim se nós devemos dizer, como a senhorira Jones o faz, que “Scott é o autor de Waverley” afirma uma identidade de denotação, nós temos de considerar a denotação de “o autor de Waverley” como a denotação do que é significado por “o autor de Waverley.” Chamemos o significado de “o autor de Waverley” M. Assim M é o quê “o autor de Waverley” significa. Então nós devemos supor que “Scott é o autor de Waverley” significa “Scott é a denotação de M.” Mas aqui nós estamos explicando a nossa proposição através de outra da mesma forma, e, dessa maneira, nós não realizamos progresso na direção de uma explicação real. “A denotação de M,” como “o autor de Waverley,” têm ambas significado e denotação, na teoria que nós estamos examinando. Se nós chamarmos o seu significado de M’, a nossa proposição torna-se “Scott é a denotação de M’.” Mas isso imediatamente conduz a um regresso ao infinito. Assim a tentativa de considerar a nossa proposição como afirmando identidade de denotação falha, e torna-se imperativo encontrar alguma outa análise. Quando essa análise tiver sido [228]completada, nós deveremos ser capazes de reinterpretar a frase “identidade de denotação,” a qual permanece obscura enquanto for tomada como fundamental.

O primeiro ponto a observar é que, em qualquer proposição sobre “o autor de Waverley,” com a condição de que Scott não seja explicitamente mencionado, a denotação mesma, ou seja, Scott, não ocorre, mas apenas o conceito de denotação, o qual será representado por uma variável. Suponha que nós digamos “o autor de Waverley foi o autor de Marmion,” nós certamente não estamos dizendo que ambos eram Scott – nós podemos ter esquecido que há uma pessoa tal como Scott. Nós estamos dizendo que houve algum homem quem foi o autor de Waverly e o autor de Marmion. Quer dizer, há alguém quem escreveu Waverley e Marmion, e ninguém mais os escreveu. Dessa forma, a identidade é aquela de uma variável, ou seja, de um sujeito indefinido, “alguém (some one).” É por isso que nós podemos entender proposições sobre “o autor de Waverley,” sem saber quem ele foi. Quando nós dizemos “o autor de Waverley foi um poeta,” nós queremos dizer “um e apenas um homem escreveu Waverley, e ele era um poeta”; quando nós dizemos “o autor de Waverley foi Scott” nós queremos dizer “um e apenas um homem escreveu Waverley, e foi Scott.” Aqui a identidade é entre uma variável, ou seja, um sujeito indeterminado (“ele”), e Scott; “o autor de Waverley” foi eliminado por análise, e não mais aparece como um constituinte da proposição.9

A razão pela qual é imperativo eliminar por análise a frase “o autor de Waverley” pode ser formulada como se segue. É evidente que quando nós dizemos “o autor de Waverley é o autor de Marmion,” o é expressa [229]identidade. Nós também vimos que a denotação comum, a saber, Scott, não é um constituinte da proposição, enquanto os significados (se algum) de “o autor de Waverley” e “o autor de Marmion” não são idênticos. Nós também vimos que, em qualquer sentido no qual o significado de uma palavra é uma constituinte de uma proposição em cuja expressão verbal a palavra ocorre, “Scott” quer dizer o homem real Scott, no mesmo sentido (até onde diz respeito à nossa discussão presente) na qual “autor” significa um certo universal. Assim, se “o autor de Waverley” fosse um complexo subordinado na expressão acima, o seu significado teria de ser o que foi dito ser idêntico com o significado de “o autor de Marmion.” Evidentemente esse não é o caso; e a única escapatória é dizer que “o autor de Waverley,” por si mesmo, não tem um significado, embora frase das quais ele é parte tenham um significado. Quer dizer, em uma análise correta da proposição acima, “o autor de Waverley” tem de desaparecer. Isso é efetuado quando a proposição acima é analisada como significado: “Alguém escreveu Waverley e ninguém mais o fez, e esse alguém também escreveu Marmion e ninguém mais o fez.” Isso pode ser expresso mais simplesmente ao dizer que a função proposicional “x escreveu Waverley e Marmion, e ninguém mais o fez” é capaz de verdade, ou seja, algum valor de x torna-a verdadeira, mas nenhum outro valor o faz. Assim o sujeito verdadeiro do nosso julgamento é uma função proposicional, ou seja, um complexo contendo um constituinte indeterminado, e tornando-se uma proposição assim que esse constituinte é determinado.

Agora nós podemos definir a denotação de uma frase. Se nós sabemos que a proposição “a é o assim-e-assim” é verdadeira, ou seja, que a é assim-e-assim e nada mais o é, nós chamamos de a denotação da frase “o assim-e-assim.” Muitas proposições que nós fazemos sobre “o [230]assim-e-assim” permanecerão verdadeiras ou permanecerão falsas se nós substituirmos a por “o assim-e-assim,” onde a é a denotação de “o assim-e-assim.” Tais proposições também permanecerão verdadeiras ou falsas se nós substituirmos por “o assim-e-assim” qualquer outra frase tendo a mesma denotação. Consequentemente, como homens práticos, nós tornamo-nos mais interessados na denotação do que na descrição, uma vez que a denotação decide quando a verdade ou falsidade de tantas afirmações nas quais a descrição ocorre. Além disso, como nós vimos antes na consideração das relações da descrição e familiaridade, nós frequentemente desejamos alcançar a denotação, e somos impedidos apenas pela falta de familiaridade: em tais casos, a descrição é meramente o meio que nós empregamos para chegarmos tão próximos quanto possíveis da denotação. Consequentemente, naturalmente chega a ser suposto que a denotação é parte da proposição na qual a descrição ocorre. Mas nós vimos, tanto sobre fundamentos lógicos quanto epistemológicos, que isso é um erro. O objeto atual (se algum) que é a denotação, não é (a menos que explicitamente mencionado) um constituinte das proposições nas quais descrições ocorrem; e essa é a razão de porque, para entendermos essas proposições, nós necessitamos de familiaridade com os constituintes da descrição, mas não necessitamos de familiaridade com a sua denotação. O primeiro resultado da análise, quando aplicada a proposições cujo sujeito gramatical é “o assim-e-assim,” é substituir um variável como sujeito; ou seja, nós obtemos uma proposição da forma: “Há alguma coisa que sozinha é assim-e-assim, e essa alguma coisa é tal-e-tal.” A análise adicional de proposições relativas a “assim-e-assim” é dessa maneira mesclada com o problema da natureza da variável, ou seja, dos significados de alguns (some), qualquer um (any) e todos (all). Esse é um problema difícil, relativo ao qual eu não intenciono dizer nada no presente.

Para resumir a nossa discussão inteira: Nós começamos [231]distinguindo dois tipos de conhecimento de objetos, a saber, conhecimento por familiaridade e conhecimento por descrição. Desses é apenas o primeiro que traz o objeto mesmo diante da mente. Nós temos familiaridade com os dados do sentido, com muitos universais, e possivelmente com nós mesmos, mas não com objetos físicos ou outras mentes. Nós temos conhecimento descritivo de um objeto quando nós sabemos que ele é o objeto tendo alguma propriedade ou algumas propriedades com as quais nós estamos familiarizados; quer dizer, quando nós conhecemos que a propriedades ou as propriedades em questão pertencem a um objeto e não mais, diz-se que nós temos conhecimento daquele objeto único por descrição, se ou não nós estamos familiarizados com o objeto. O nosso conhecimento de objetos físicos e outras mentes é apenas conhecimento por descrição, as descrições envolvidas sendo comumente aquelas que envolvem dados do sentido. Todas as proposições inteligíveis para nós, se ou não elas dizem respeito primariamente a coisas apenas conhecidas por nós por descrição, são compostas inteiramente de constituintes com os quais nós estamos familiarizados, pois um constituinte com o qual nós não estamos familiarizados é ininteligível para nós. Nós descobrimos que um julgamento não é composto de constituintes mentais chamados de “ideias,” mas consiste de uma ocorrência cujos constituintes são uma mente10 e certos objetos, particulares ou universais. (Pelo menos um tem de ser universal.) Quando um julgamento é corretamente analisado, os objetos que são constituintes dele têm de ser todos objetos com os quais a mente que é um constituinte dele está familiarizada. Essa conclusão nos força a analisar frases descritivas ocorrendo em proposições, e dizer que os objetos denotados por tais frases não são constituintes de julgamentos nos quais tais frases ocorrem (a menos que esses objetos sejam explicitamente [232]mencionados). Isso nos conduz à visão (recomendada também sobre fundamentos puramente lógicos) de que quando nós dizemos “o autor de Marmion foi o autor de Waverley,” Scott mesmo não é um constituinte do nosso julgamento, e que o julgamento não pode ser explicado dizendo-se que ele afirma a identidade de denotação com diversidade de significado. Portanto, tais julgamentos apenas podem ser analisados dissolvendo-se as frases descritivas, introduzindo uma variável, e tornando as funções proposicionais os sujeitos últimos. De fato, “o assim-e-assim é tal-e-tal” significará “x é assim-e-assim e nada mais é, e x é tal-e-tal” é capaz de verdade. A análise desses julgamentos envolve muitos problemas novos, mas a discussão desses problemas não é empreendida no presente artigo.


Fim do Livro


ORIGINAL:

RUSSELL, B. Kneowledge by Acquaintance and Knowledge by Description. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 209-232. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/209/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[209]Ver referências depois.

2[220]Philosophical Essays, “The Nature of Truth.” Eu fui persuadido pelo sr. Wittgenstein que essa teoria é um pouco indevidamente simples, mas a modificação que eu acredito que ela requeira não afeta o argumento acima [1917].

3C. Meinong, Ueber Annahmen, passim. Eu anteriormente supunha, contrário à visão de Meinong, que a relação de suposição poderia ser meramente aquela de apresentação. Nessa visão, eu agora considero que eu estava enganado, e Meinong está certo. Mas a minha visão presente depende da teoria de que tanto no julgamento quanto na suposição não há um único Objetivo, mas os vários constituintes do julgamento ou da suposição estão uma relação de muitos termos para a mente.

4[224]Essa visão tem sido recentemente defendida pela sra. E. E. C. Jones, “A New Law of Thought and its Implications,” Mind, Janeiro de 1911.

5Eu agora deveria excluir o “eu” dos nomes próprios no sentido estrito, e reter apenas o “isto” [1917].

6[225]Meinong, Ueber Annahmen, 2nd Ed. Leipzig, 1910, p. 141.

7Mind, julho de 1910, p. 380.

8Mind, julho de 1910, p. 379.

9[228]A teoria que eu estou defendendo é proposta completamente, com os fundamentos lógicos em seu favor, em Principia Mathematica, vol. I, Introdução, Cap. III; também, menos completamente, em Mind, outubro de 1905.

10[231]Eu uso essa frase meramente para denotar o alguma coisa psicológica que entra no julgamento, sem intencionar prejulgar a questão quanto ao quê essa coisa é.

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