domingo, 22 de setembro de 2024

Misticismo e Lógica e Outros Ensaios VIII A Relação dos Dados do Sentido com a Física

Misticismo e Logica e Outros Ensaios


Por Bertrand Russell


Ensaio anterior


[145]VIII A Relação dos Dados do Sentido com a Física


I O Problema Formulado


É dito que a física é uma ciência experimental, baseada em observação e experimento.

Supõe-se que ela seja verificável, ou seja, capaz de calcular antecipadamente resultados subsequentemente confirmados por observação e experimento.

O que nós podemos aprender por observação e experimento?

Nada, até onde a física está interessada, exceto dados imediatos do sentido: certos trechos de cor, sons, sabores, cheiros, etc., com certas relações espaciotemporais.

Os supostos conteúdos do mundo físico são prima facie muito diferentes desses: moléculas não têm cor, átomos não produzem barulho, elétrons não têm sabor e corpúsculos nem mesmo têm cheiro.

Se tais objetos devem ser verificados, isso deve ser unicamente através da relação deles com os dados do sentido: eles têm de ter algum tipo de correlação com os dados do sentido, e têm de ser verificáveis através da sua correlação apenas.

Mas como essa correlação mesma é verificada? Uma correlação apenas pode ser verificada empiricamente pelos objetos correlacionados sendo constantemente encontrados juntos. Mas no nosso caso, apenas um termo da correlação, a saber, o termo sensível é sempre encontrado: o outro termo parece essencialmente [146]incapaz de ser encontrado. Portanto, pareceria que a correlação com objetos do sentido, pela qual a física devia ser verificada, é em si mesma completa e eternamente não verificável.

Há duas maneiras de evitar esse resultado.

(1) Nós podemos dizer que conhecemos algum princípio a priori, sem a necessidade de verificação empírica, por exemplo, que os nossos dados do sentido têm outras causas além deles mesmos, e que alguma coisa pode ser conhecida sobre essas causas por inferência a partir dos efeitos delas. Esse modo frequentemente tem sido adotado por filósofos. Pode ser necessário adotar esse modo em alguma extensão, mas enquanto ele for adotado a física cessa de ser empírica ou baseada apenas em experimento e observação. Portanto, esse modo deve ser evitado tanto quanto possível.

(2) Nós podemos suceder em efetivamente definirmos os objetos da física como funções de dados do sentido. Exatamente enquanto a física conduz a expectativas, isso tem de ser possível, uma vez que nós apenas podemos esperar o que pode ser experienciado. E enquanto o estado físico das coisas for inferido a partir dos dados do sentido, ele tem de ser capaz de expressão como uma função dos dados do sentido. O problema de realizar essa expressão leva a um trabalho lógico-matemático muito interessante.

Na física, como comumente estabelecida, os dados do sentido aparecem como funções de objetos físicos: quando ondas tais-e-tais colidem com o olho, nós vemos cores tais-e-tais, e assim por diante. Mas de fato, as ondas são inferidas a partir das coisas, não vice-versa. A física não pode ser considerada como validamente baseada sobre dados empíricos até que as ondas tenham sido expressas como funções das cores e outros dados do sentido.

Dessa maneira, se a física deve ser verificável nós nos deparamos com o seguinte problema: A física exibe dados do sentido como funções de objetos físicos, mas verificação é apenas possível se objetos físicos podem ser exibidos como funções de dados [147]do sentido. Portanto, nós temos de resolver as equações fornecendo dados do sentido em termos de objetos físicos, de maneira a produzi-los em vez de fornecer objetos físicos em termos de dados do sentido.


II Características dos Dados do Sentido (sense-data)


Quando eu falo de um “dado do sentido (sense-datum),” eu não quero dizer o todo do que é dado no sentido em um momento. Eu antes quero dizer uma parte do todo como poderia se isolada pela atenção: trechos particulares de cor, barulhos particulares e assim por diante. Há alguma dificuldade em decidir o quê deve ser considerado como um dado do sentido: frequentemente a atenção faz divisões aparecerem onde, até onde pode ser descoberto, não havia nenhuma divisão antes. Um fato complexo observado, tal como que este trecho de vermelho está à direita do trecho de azul, também deve ser considerado como um dado a partir do nosso ponto de vista presente: epistemologicamente, ele não difere muito de um dado simples do sentido com respeito à sua função de fornecer conhecimento. Contudo, a sua estrutura lógica é muito diferente daquela do sentido: o sentido concede familiaridade com particulares, e, dessa maneira, uma relação de dois termos na qual o objeto pode ser nomeado mas não verificado, e é inerentemente incapaz de verdade ou falsidade, considerando que a observação de um fato complexo, a qual pode ser adequadamente chamada de percepção, não é uma relação de dois termos, mas envolve a forma proposicional no lado do objeto, e concede conhecimento de uma verdade, não mera familiaridade com um particular. Essa diferença lógica, importante como ela é, não é relevante para a nossa discussão presente; e será conveniente considerar os dados da percepção como incluídos entre os dados do sentido para os propósitos deste artigo. Deve ser observado que os particulares que são constituintes de um dado da percepção são sempre dados do sentido no sentido estrito.

[148]Relativo aos dados do sentido, nós sabemos que eles existem enquanto eles são dados, e essa é a base epistemológica de todo o nosso conhecimento de particulares externos. (É claro, o significado da palavra “externo” levanta problemas que nos preocuparão posteriormente.) Nós não sabemos, exceto através de inferências mais ou menos precárias, se os objetos que são dados do sentido em um momento continuam a existir em momentos quando eles não são dados. Os dados dos sentidos, em momentos quando eles são dados, são tudo que nós conhecemos direta e primitivamente do mundo; consequentemente, na epistemologia, o fato de que eles são dados é oni-importante. Mas é claro, o fato de que eles são tudo o quê nós conhecemos diretamente não concede presunção de que eles são tudo o que existe. Se nós pudéssemos construir uma metafísica impessoal, independente dos acidentes do nosso conhecimento e da nossa ignorância, a posição privilegiada dos dados atuais provavelmente desapareceria, e eles provavelmente pareceriam como uma seleção bastante aleatória de uma massa de objetos mais ou menos semelhantes a eles. Dizendo isso, eu assumo apenas que é provável que haja particulares com os quais nós não estamos familiarizados. Dessa forma, a importância especial dos dados do sentido é em relação à epistemologia, não à metafísica. Nesse respeito, a física deve ser reconhecida como metafísica: ela é impessoal e, nominalmente, não presta atenção especial a dados do sentido. É apenas quando nós perguntamos como a física pode ser conhecida que a importância dos dados do sentido reemerge.


III Sensibilia


Eu deverei dar o nome de sensibilia àqueles objetos que têm o mesmo status metafísico e físico que os dados do sentido, sem necessariamente serem dados para qualquer mente. Dessa forma, a relação de um sensibile com um dado do sentido é como aquela de um homem para um esposo: um homem torna-se um esposo ao [149]entrar na relação de casamento, e, similarmente, um sensibile, torna-se um dado do sentido ao entrar na relação de familiaridade. É importante ter ambos os termos; pois nós desejamos discutir se um objeto que, em um momento, é um dado do sentido ainda pode existir em um momento quando ele não é um dado do sentido. Nós não podemos perguntar “Dados do sentido podem existir sem serrem dados?” pois é como perguntar “Esposos podem existir sem serem casados?” Nós temos de perguntar “Sensibilia podem existir sem serem dados?” e também “Um sensibilie particular pode ser um dado do sentido em um momento e em outro não?” A menos que nós tenhamos a palavra sensibile, assim como a palavra “dado do sentido,” tais questões estão aptas a nos enredar em quebra-cabeças lógicos triviais.

Será visto que todos os dados do sentido são sensibilia. É uma questão metafísica se todos os sensibilia são dados do sentido, e uma questão epistemológica se existem meios de inferir sensibilia que não são dados a partir daqueles que são.

Umas poucas observações preliminares, a serem ampliadas conforme nós prosseguimos, servirão para elucidar o uso que eu proponho fazer de sensibilia.

Eu considero os dados do sentido como não mentais, e sendo, de fato, parte do assunto efetivo da física. Há argumentos, examinados em breve, em favor da sua subjetividade, mas esses argumentos me parecem apenas provar a subjetividade fisiológica, ou seja, a dependência causal dos órgãos do sentido, nervos e cérebro. A aparência que uma coisa apresenta a nós é casualmente dependente desses, exatamente da mesma maneira que ela é dependente de névoa ou fumaça ou vidro colorido intervenientes. Ambas dependências estão contidas na afirmação de que a aparência que um pedaço de matéria apresenta quando visto a partir de um dado lugar é uma função não apenas do pedaço de matéria, mas também do meio interveniente. (Os termos usados nessa [150]afirmação - “matéria,” “visão a partir de um dado lugar,” “aparência,” “meio interveniente” - serão todos definidos no curso do presente artigo.) Nós não temos meios de determinar como as coisas aparecem a partir de lugares não rodeados por cérebro e nervos e órgãos do sentido, porque nós não podemos deixar o corpo; mas a continuidade torna não irracional supor que eles apresentem alguma aparência em tais lugares. E tal aparência estaria incluída entre os sensibilia. Se - per impossibile – houvesse um corpo humano completo sem nenhuma mente dentro dele, todos aqueles sensibilia existiriam em relação a esse corpo, os quais seriam dados do sentido se houvesse uma mente no corpo. De fato, o quê a mente acrescenta ao sensibilia é meramente consciência: tudo o mais é físico ou fisiológico.


IV Dados do Sentido são Físicos


Antes da discussão dessa questão será bom definir o sentido em que os termos “mental” e “físico” devem ser usados. A palavra “físico,” em todas as discussões preliminares, deve ser entendida como significando “o que é tratado pela física.” A física, é evidente, conta-nos alguma coisa sobre alguns dos constituintes do mundo atual; o quê esses constituintes são pode ser duvidoso, mas são eles que devem ser chamados de físicos, qualquer que a natureza deles possa provar-se ser.

A definição do termo “mental” é mais difícil, e apenas pode ser satisfatoriamente dada após muitas controvérsias difíceis terem sido discutidas e decididas. Portanto, para os propósitos presentes, eu tenho de me contentar com a suposição de uma resposta dogmática para essas controvérsias. Eu deverei chamar um particular de “mental” quando ele está ciente de alguma coisa, e eu deverei chamar um fato de “mental” quando ele contém um particular mental como um constituinte.

[151]Será visto que o mental e o físico não são necessariamente mutuamente exclusivos, embora eu não conheça nenhuma razão para supor que eles se sobreponham.

A dúvida quanto à correção da nossa definição do “mental” é de pouca importância na nossa discussão presente. Pois o quê eu estou interessado em sustentar é que os dados do sentido são físicos, e isso sendo concedido, é uma matéria de indiferença na nossa investigação se ou não eles também são mentais. Embora eu não sustente, com Mach e James e os “novos realistas,” que a diferença entre o mental e o físico seja meramente algo de arranjo, contudo, o que eu tenho a dizer no artigo presente é compatível com a doutrina deles e poderia ter sido alcançado a partir do ponto de vista deles.

Em discussões sobre dados do sentido, duas questões são comumente confundidas, a saber:

(1) Objetos sensíveis persistem quando nós não somos sensíveis a eles? Em outras palavras, sensibilia que são dados em um certo momento às vezes continuam a existir em momento quando eles não são dados? E (2) Dados do sentido são mentais ou físicos?

Eu proponho afirmar que os dados do sentido são físicos, enquanto ainda sustentando que eles provavelmente nunca persistam imutáveis depois de cessarem de ser dados. A visão de que eles não persistem é frequentemente considerada, bastante erroneamente, em minha opinião, implicar que eles são mentais; e isso, eu acredito, tem sido uma fonte potente de confusão com respeito ao nosso problema presente. Se houvesse, como alguns têm sustentado, uma impossibilidade lógica nos dados do sentido persistindo após cessarem de serem dados, isso certamente tenderia a mostrar que eles eram mentais; mas se, como eu argumento, a não persistência deles é meramente uma inferência provável a partir de leis causais empiricamente determinadas, então isso não porta nenhuma implicação semelhante consigo, e nós estamos bastante livres para os tratar como partes do tema da física.

[152]Logicamente, um dado do sentido é um objeto, um particular do qual o sujeito está ciente. Ele não contém o sujeito como uma parte, como, por exemplo, fazem crenças e volições. Portanto, a existência do dado do sentido não é logicamente dependente daquela do sujeito; pois o único caminho, até onde eu conheço, no qual a existência de A pode ser logicamente dependente da existência de B é quando B é parte A. Portanto, não há razão a priori de porque um particular que é um dado do sentido não deveria persistir após ele ter cessado de ser um dado, nem de porque outros particulares semelhantes não deveriam existir sem nunca serem dados. Sem dúvida, a visão de que os dados do sentido são mentais é derivada, em parte, a partir da sua subjetividade psicológica, mas, também em parte, a partir de uma falha para distinguir entre dados do sentido e “sensações.” Por uma sensação eu quero dizer o fato consistindo na consciência do sujeito do dado do sentido. Dessa forma, uma sensação é um complexo do qual o sujeito é um constituinte e o qual, portanto, é mental. Por outro lado, o dado do sentido opõe-se ao sujeito como aquele objeto externo do qual o sujeito está consciente na sensação. É verdadeiro que o dado do sentido está em muitos casos no corpo do sujeito, mas o corpo do sujeito é tão distinto do sujeito como são mesas e cadeiras, e, de fato, é meramente uma parte do mundo material. Portanto, tão logo os dados do sentido sejam claramente distinguidos das sensações, e a subjetividade deles seja reconhecida ser psicológica, não fisiológica, os obstáculos principais no caminho de os considerar como físico são removidos.


V “Sensibilia” e “Coisas”


Mas se “sensibilia” devem ser reconhecidos como os constituintes últimos do mundo físico, uma jornada longa e difícil deve ser realizada antes que nós possamos chegar ou [153]à “coisa” do senso comum ou à “matéria” da física. A suposta impossibilidade da combinação dos diferentes dados do sentido que são considerados como aparências da mesma “coisa” para pessoas diferentes têm feito parecer como se esses “sensibilia” tenham de ser considerados como meros fantasmas subjetivos. Uma dada mesa apresentará para um homem uma aparência retangular, enquanto que, para outro, ela parecerá ter dois ângulos agudos e dois ângulos obtusos; para um homem ela parecerá marrom, enquanto que, para outro, na direção de quem ela reflete a luz, ela parecerá branca e brilhante. É dito, não inteiramente sem plausibilidade, que essas cores diferentes e formas diferentes não podem coexistir simultaneamente no mesmo lugar e, portanto, não podem ambas ser constituintes do mundo físico. Eu tenho de confessar que, até recentemente, esse argumento me pareceu ser irrefutável. Contudo, a opinião contrária foi habilmente sustentada pelo dr. T. P. Nunn em um artigo intitulado de: “Are Secondary Qualities Independent of Perception?”1 A suposta impossibilidade deriva a sua força aparente a partir da frase: “no mesmo lugar,” e é precisamente nessa frase que a fraqueza dela está. A concepção de espaço é tratada frequentemente demais na filosofia – mesmo por aqueles que, ao refletirem, não defenderiam tal tratamento – como se ele fosse tão dado, simples e não ambíguo, como Kant, em sua inocência psicológica, supôs. É a ambiguidade não percebida da palavra “lugar,” que, como nós deveremos ver em breve, tem causado as dificuldades para realistas e dado uma vantagem não merecida par os oponentes deles. Dois “lugares” de tipos diferentes estão envolvidos em um cada dado do sentido, a saber, o lugar no (at) qual ele aparece e o lugar a partir do (from) qual ele aparece. Esses pertencem a espaços diferentes, contudo, como nós deveremos ver, é possível, com certas limitações, estabelecer uma correlação entre eles. [154]O quê nós chamamos de as aparências diferentes da mesma coisa para observadores diferentes estão cada uma em um espaço privado diferente para o observador interessado. Nenhum lugar no espaço privado de um observado é idêntico om um lugar no espaço privado de outro observador. Portanto, não há nenhum problema da combinação das aparências diferentes em um único lugar; e portanto o fato de que eles todos não podem existir em um lugar não fornece nenhum fundamento que seja para questionar a realidade física deles. De fato, a “coisa” do senso comum pode ser identificada com a inteira classe das suas aparências – onde, contudo, nós temos de incluir entre aparências não apenas aquelas que são atuais dados do sentido, mas também aqueles “sensibilia,” se algum, que, sobre os fundamentos de continuidade e semelhança, devem ser considerados como pertencentes ao mesmo sistema de aparências, embora não aconteça de haver aí nenhum observador para quem eles sejam dados.

Um exemplo pode tornar isso mais claro. Suponha que haja um número de pessoas em uma sala, todas vendo, como elas dizem, as mesmas mesas e cadeiras, paredes e pinturas. Nenhum par, dentre essas pessoas, tem exatamente os mesmos dados do sentido, contudo, há similaridade suficiente entre os dados para capacitar que elas agrupem juntos certos desses dados como aparências de uma “coisa” para vários espectadores, e outros como aparências de outra “coisa.” Além das aparências que uma dada coisa na sala apresenta para os espectadores atuais, nós podemos supor que haja aparências que se apresentariam para outros espectadores possíveis. Se um homem devesse sentar-se entre dois outros, a aparência que a sala apresentaria para ele seria a intermediária entre as aparências que ela apresenta para os outros dois: e embora essa aparência não existiria como é sem os órgãos do sentido, nervos e cérebro, do espectador recém-chegado, ainda é natural supor que, a partir da posição [155]que ele agora ocupa, alguma aparência da sala existia antes da chegada dele. Contudo, essa suposição necessita meramente de ser notada, e não ser insistida.

Uma vez que a “coisa” não pode, sem parcialidade indefensável, ser identificada com nenhuma de suas aparências únicas, ela veio a ser considerada como alguma coisa distinta de todas elas e subjacente a elas. Mas, pelo princípio da navalha de Occam, se a classe de aparências satisfará os propósitos para os quais a coisa foi inventada pelos metafísicos pré-históricos a quem o senso comum é devido, a economia demanda que nós devamos identificar a coisa com a classe das suas aparências. Não é necessário negar uma substância ou substrato subjazendo a essas aparências; é meramente conveniente abster-se de afirmar essa entidade desnecessária. O nosso procedimento aqui é precisamente análogo àquele que varreu da filosofia da matemática o zoológico de monstros metafísicos pelo qual ela costumava estar infestada.


VI Construções versus Inferências


Antes de proceder à análise e explicar as ambiguidades da palavra “lugar,” uma poucas observações gerais sobre o método são desejáveis. A suprema máxima no filosofar científico é esta:


Sempre que possível, entidades inferidas devem ser substituídas por construções lógicas.


Alguns exemplos da substituição de construção por inferência no reino da filosofia matemática podem servir para elucidar os usos dessa máxima. Tome-se primeiramente o caso dos irracionais. Em dias antigos, os irracionais foram inferidos como os limites supostos de séries de racionais que não tinham nenhum limite racional; mas a objeção a esse procedimento foi [156]que ele deixava a existência dos irracionais meramente optativa, e, por essa razão, os métodos mais estritos da época presente não toleram uma definição semelhante. Nós agora definimos um número irracional como uma certa classe de razões, dessa maneira construindo-o logicamente através de razões, em vez de chegar a ele através de uma inferência duvidosa a partir delas. Tome-se novamente o caso dos números cardinais. Duas coleções igualmente numerosas parecem ter algo em comum: esse algo é suposto ser o número cardinal delas. Mas enquanto o número cardinal é inferido a partir das coleções, não construído em termos delas, a existência dele tem de permanecer em dúvida, a menos que em virtude de um postulado metafísico ad hoc. Definindo o número cardinal de uma dada coleção como a classe de todas as coleções igualmente numerosas, nós evitamos a necessidade desse postulado metafísico, e, por esse meio, removemos o elemento desnecessário de dúvida da filosofia da aritmética. Um método similar, como eu mostrei em outro lugar, pode ser aplicado às classes mesmas, as quais não necessitam ser supostas ter nenhuma realidade metafísica, mas podem ser consideradas como ficções simbolicamente construídas.

O método pelo qual a construção prossegue é estritamente análogo nesses e em todos os casos similares. Dado um conjunto de proposições lidando nominalmente com as supostas entidades inferidas, nós observamos as propriedades que são requeridas das supostas entidades para tornar essas proposições verdadeiras. Por força de uma pequena ingenuidade lógica, nós então construímos alguma função lógica a partir de entidades menos hipotéticas que têm as propriedades requisitadas. Essa função nós substituímos pelas supostas entidades inferidas e, por esse meio, obtemos uma interpretação nova e menos duvidosa do corpo de proposições em questão. Esse método, tão frutífero na filosofia da matemática, será considerável igualmente aplicável na filosofia da [157]física, onde, eu não tenho dúvida, teria sido aplicado há muito tempo senão pelo fato de que todos que têm estudado esse assunto até aqui têm sido completamente ignorantes de lógica matemática. Eu mesmo não posso reivindicar originalidade na aplicação desse método à física, uma vez que eu devo a sugestão e o estímulo para a sua aplicação inteiramente ao meu amigo e colaborador o dr. Whitehead, quem está engajado em o aplicar às porções mais matemáticas da região intermediária entre os dados do sentido e os pontos, instantes e partículas da física.

Uma aplicação completa do método que substitui inferências por construções exibiria a matéria inteiramente em termos de dados do sentido, e até, nós podemos acrescentar, dos dados do sentido de uma única pessoa, uma vez que os dados do sentido de outros não podem ser conhecidos sem algum elemento de inferência. Contudo, pelo presente, isso tem de permanecer um ideal, a ser aproximado tão de perto quanto possível, mas a ser alcançado, se de qualquer maneira, apenas após um longo labor preliminar do qual, como agora, nós apenas podemos ver o começo mesmo. Mesmo assim, as inferências que são inevitáveis podem ser sujeitadas a certos princípios orientadores. Em primeiro lugar, elas sempre deveriam ser tornadas perfeitamente explícitas e deveriam ser formuladas na maneira mais geral possível. Em segundo lugar, as entidades inferidas deveriam, sempre que isso puder ser feito, ser similares àquelas cuja existência é dada, em vez de, como o Ding an sich kantiana, alguma coisa inteiramente distante dos dados que nominalmente suportam a inferência. As entidades inferidas às quais eu deverei permitir a mim mesmo são de dois tipos: (a) os dados do sentido de outras pessoas, em favor dos quais há evidência de testemunho, dependendo, em última instância, de argumento analógico em favor de outras mentes além da minha; (b) os “sensibilia,” os quais apareceriam a partir de lugares onde não acontece de haver nenhuma mente, e os quais eu suponho serem reais embora eles não sejam dados [158]para ninguém. Dessas duas classes de entidades inferidas, provavelmente a primeira será admitida a passar sem ser desafiada. Conceder-me-ia a maior satisfação ser capaz de a dispensar e, dessa maneira, estabelecer a física sobre uma base solipsista; mas aqueles – e eu temo que eles sejam a maioria – em quem os afetos humanos são mais fortes do que o desejo por economia lógica, sem dúvida, não compartilharão do meu desejo para tornar o solipsismo cientificamente satisfatório. A segunda classe de entidades inferidas levanta questões muito mais sérias. Pode ser considerado monstruoso sustentar que uma coisa pode apresentar qualquer aparência de qualquer maneira em um lugar onde nenhum órgão do sentido e sistema nervoso exista através do qual ela pode aparecer. Eu mesmo não sinto a monstruosidade; mesmo assim, eu deverei considerar essas supostas aparências apenas à luz de um andaime hipotético, a ser usado enquanto o edifício da física estiver sendo erguido, embora possivelmente capaz de ser removido tão logo o edifício esteja completado. Portanto, esses “sensibilia” que não são dados para ninguém devem ser aceitos antes como uma hipótese ilustrativa e como um auxílio em formulação preliminar do que como uma parte dogmática da filosofia da física em sua forma final.


VII Espaços Privados e Espaços de Perspectivas


Nós agora temos de explicar a ambiguidade na palavra “lugar (place),” e como se chega a que dois lugares de tipos diferentes estão associados com cada dado do sentido, a saber, o lugar no qual ele está e o lugar a partir do qual ele é percebido. A teoria a ser defendida é análoga de perto à monadologia de Leibniz, da qual ela difere principalmente ao ser menos suave e arrumada.

O primeiro fato a notar é que, até onde pode ser descoberto, nenhum sensibile nunca é um dado para duas pessoas ao [159]mesmo tempo. As coisas vistas por duas pessoas diferentes são frequentemente similares de perto, tão similares que as mesmas palavras podem ser usadas para as denotar, sem o quê a comunicação com outros relativa a objetos sensíveis seria impossível. Mas, a despeito dessa similaridade, pareceria que alguma diferença sempre surge a partir da diferença no ponto de vista. Assim, cada pessoa, até onde se diz respeito ao dados do sentido dela, vive em um mundo privado. Esse mundo privado contém o seu próprio espaço, ou antes espaços, pois pareceria que apenas a experiência ensina-nos a correlacionar o espaço da visão com o espaço do toque e com os vários espaços de outros sentidos. Contudo, essa multiplicidade de espaços privados, embora interessante para o psicólogo, não é de grande importância com respeito ao nosso problema presente, uma vez que uma experiência meramente solipsista possibilita que nós os correlacionemos em um espaço privado que englobe todo os nossos dados do sentido. O lugar no qual está um dado do sentido é um lugar no espaço privado. Portanto, esse espaço é diferente de qualquer outro espaço no espaço privado de outro percipiente. Pois se nós assumimos, como a economia lógica demanda, que toda posição é relativa, um lugar é apenas definível pelas coisas nele ou ao redor dele, e, portanto, o mesmo lugar não pode ocorrer em dois mundos privados que não têm constituinte comum. Portanto, a questão da combinação do que nós chamamos de aparências diferentes da mesma coisa no mesmo lugar não surge, e o fato de que um objeto dado pareça, para espectadores diferentes, ter formas e cores diferentes não propicia argumento contra a realidade física de todas essas formas e cores.

Contudo, em adição aos espaços privados pertencentes aos mundos privados de percebedores diferentes, há outro espaço, no qual todo um mundo privado conta como um ponto, ou, pelo menos, como uma unidade espacial. Esse poderia ser [160]descrito como o espaço de pontos de vista, uma vez que cada mundo privado pode ser considerado como a aparência que o universo apresenta a partir de um certo ponto de vista. Contudo, eu prefiro falar dele como o espaço de perspectivas, para evitar a sugestão de que um espaço privado seja apenas real quando alguém o vê. E, pela mesma razão, quando eu deseja falar de um mundo privado particular sem assumir um percebedor, eu deverei chamá-lo de uma “perspectiva.”

Agora nós temos de explicar como as diferentes perspectivas estão ordenadas em um espaço. Isso é efetuado através dos “sensibilia” correlacionados, os quais são considerados como as aparências, em perspectivas diferentes, de uma e mesma coisa. Movendo-nos, e através de testemunho, nós descobrimos que duas perspectivas diferentes, embora ambas elas não possam conter os mesmos “sensibilia,” podem, mesmo assim, conter muito similares; e a ordem espacial de um certo grupo de “sensibilia” em um espaço privado de uma perspectiva é considerada ser idêntica com, ou muito similar a, a ordem espacial dos “sensibilia” correlacionados no espaço privado de outra perspectiva. Dessa maneira, um “sensibile” em uma perspectiva está correlacionado com um “sensibile” em outra. Tais “sensibilia” correlacionados serão chamados de “aparências de uma coisa.” Na monadologia de Leibniz, uma vez que cada mônada espelhava o universo inteiro, havia em cada perspectiva um “sensible” que era uma aparência de cada coisa. No nosso sistema de perspectivas, nós não fazemos suposição de completude. Uma dada coisa terá aparência em algumas perspectivas, mas, presumivelmente, não em certas outras. A “coisa” sendo definida como a classe das suas aparências, se k é a classe de perspectivas nas quais uma certa coisa O aparece, então O é um membro da classe multiplicativa de k, k sendo uma classe de classes mutuamente exclusivas de “sensibilia.” E [161]similarmente uma perspectiva é um membro da classe multiplicativa das coisas que aparecem nela.

O arranjo de perspectivas em um espaço é efetuado através das diferenças entre as aparências de uma dada coisa nas várias perspectivas. Suponha, digamos, que um certo centavo apareça em um número de perspectivas diferentes; em algumas, ele parece maior e em algumas, menor, em algumas ele parece circular, em outros ele apresenta a aparência de uma elipse de excentricidade variante. Nós podemos juntar todas aquelas perspectivas nas quais a aparência do centavo é circular. Essas nós colocaremos em uma linha reta, ordenando-as em uma série através das variações no tamanho aparente do centavo. Aquelas perspectivas nas quais o centavo aparece como uma linha reta de uma certa espessura serão colocadas similarmente sobre um plano (embora, nesse caso, haverá muitas perspectivas diferentes nas quais o centavo seja do mesmo tamanho; quando um arranjo é completado, essas formarão um círculo concêntrico com o centavo), e ordenadas como antes pelo tamanho aparente do centavo. Através de tais meios, todas essas perspectivas podem ser arranjadas em uma ordem espacial tridimensional. A experiência mostra que a mesma ordem espacial de perspectivas teria resultado se, em vez do centavo, nós tivéssemos escolhido qualquer outra coisa que aparecesse em todas as perspectivas em questão, ou qualquer outra de utilização das diferenças entre as aparências das mesmas coisas em perspectivas diferentes. É esse fato empírico que tornou possível construir o único espaço onienglobante da física.

O espaço cuja construção há pouco foi explicada e cujos elementos são perspectivas todas, será chamado de “espaço-perspectivo.”


[162]VIII A Colocação de “Coisas” e “Coisas” no Espaço Perspectivo


O mundo que nós até agora temos construído é um mundo de seis dimensões, uma vez que ele é uma série tridimensional de perspectivas, cada uma das quais é ela mesma tridimensional. Nós agora temos de explicar a correlação entre o espaço perspectivo e os vários espaços privados contido nas várias perspectivas separadamente. É através dessa correlação que o único espaço tridimensional da física é construído; e é por causa do desempenho inconsciente dessa correlação que a distinção entre espaço perspectivo e o espaço privado do percebedor tem sido obscurecida, com resultados desastrosos para a filosofia da física. Retornemos ao nosso centavo: as perspectivas nas quais o centavo aparece maior são consideradas como estando mais próximas do centavo do que aquelas nas quais ele aparece menor, mas, até onde a experiência segue, o tamanho aparente do centavo não crescerá além de um certo limite, a saber, aquele onde (como nós dizemos) o centavo está tão perto do olho que, se ele estivesse de qualquer modo mais próximo, ele não poderia ser visto. Através do toque, nós podemos prolongar a série até que o centavo toque o olho, mas não mais adiante. Se nós estivemos viajando ao longo de uma linha de perspectivas no sentido previamente definido, nós podemos, contudo, ao imaginarmos o centavo removido, prolongar a linha de perspectivas por meio de, digamos, outro centavo; e o mesmo pode ser feito com qualquer outra linha de perspectivas definida através do centavo. Todas essas linhas se encontram em um certo lugar, quer dizer, em uma certa perspectiva. Essa perspectiva será definida como “o lugar onde o centavo está.”

É agora evidente em qual sentido os dois lugares no espaço físico construído estão associados com um “sensibile” dado. Há o primeiro lugar que é a [163]perspectiva da qual o “sensibile” é um membro. Esse é o espaço a partir do qual o “sensibile” aparece. Segundo, há o lugar onde a coisa da qual o “sensibile” é um membro, em outras palavras, uma aparência; este é o local no qual o “sensible” aparece. O “sensibile” que é um membro de uma perspectiva está correlacionado com outra perspectiva, a saber, aquela que é o lugar onde está a coisa da qual o “sensibile” é uma aparência. Para o psicólogo, o “lugar a partir do qual” é o mais interessante e, portanto, o “sensibile” parece para ele subjetivo e onde o percebedor está. Para o físico, o “lugar no qual” é o mais interessante e, portanto, o “sensibile” parece para ele físico e externo. As causas, os limites e a justificação parcial de cada uma dessas duas visões aparentemente incompatíveis são evidentes a partir da duplicidade acima de lugares associados com um dado “sensibile.”

Nós temos visto que nós podemos atribuir a uma coisa física um lugar no espaço perspectivo. Dessa maneira, partes diferentes do nosso corpo adquirem posições no espaço perspectivo, e, portanto, há um significado (não necessita nos preocupar muito se verdadeiro ou falso) ao dizer que a perspectiva à qual os nossos dados do sentido pertencem está dentro da nossa cabeça. Uma vez que a nossa mente está correlacionado com a perspectiva à qual os nossos dados do sentido pertencem, nós podemos considerar essa perspectiva como sendo a posição da nossa mente no espaço perspectivo. Portanto, se essa perspectiva está, no sentido acima definido, dentro da nossa cabeça, há um bom significado para a afirmação de que a mente está na cabeça. Nós agora podemos dizer das várias aparências de uma dada coisa que algumas delas estão mais próximas da coisa do que outras; aquelas que estão mais próximas pertencem às perspectivas que estão mais próximas de “o lugar onde a coisa está.” Assim nós podemos encontrar um significado, verdadeiro ou falso, para a afirmação de que há mais a ser [164]aprendido sobre uma coisa examinando-a de perto do que a vendo à distância. Nós também podemos encontrar um significado para a frase “as coisas que intervêm entre o sujeito e a coisa da qual uma aparência é um dado para ele.” Uma razão frequentemente alegada para a subjetividade dos dados do sentido é que a aparência de uma coisa pode mudar quando nós consideramos difícil supor que a coisa mesma mudou – por exemplo, quando a mudança é devida a nós fecharmos os olhos, ou a nós apertarmo-los de modo a fazer a coisa parece dupla. Se a coisa for definida como a classe das suas aparências (a qual é a definição adotada acima), é claro que necessariamente há alguma mudança na coisa sempre que qualquer uma das suas aparências muda. Mesmo assim há uma distinção muito importante entre os dois modos nos quais as aparências podem mudar. Se após olhar para uma coisa eu fecho meus olhos, a aparência dos meus olhos muda em cada perspectiva na qual há uma tal aparência, ao passo que a maior parte das aparências das coisa permanecerá não mudada. Nós podemos dizer, como uma questão de definição, que uma coisa muda quando, por mais próxima da coisa uma aparência dela possa estar, há mudanças nas aparências tão perto quanto, ou ainda mais perto, da coisa. Por outro lado, nós devemos dizer que a mudança está em alguma outra coisa se todas as aparências da coisa que não estão a mais do que uma certa distância da coisa permanecer não mudadas, enquanto apenas aparências comparativamente distantes da coisa são alteradas. A partir dessa consideração, nós somos naturalmente conduzidos à consideração da matéria, a qual tem de ser o nosso próximo tópico.


IX A Definição de Matéria


Nós definimos a “coisa física” como a classe das suas aparências, mas isso dificilmente pode ser tomado como uma definição de matéria. Nós queremos ser capazes de expressar o fato de que [165]a aparência de uma coisa em uma dada perspectiva é causalmente afetada pela matéria entre a coisa e a perspectiva. Nós encontramos um significado para “entre uma coisa e uma perspectiva.” Mas nós queremos que a matéria seja alguma outra coisa que a inteira classe das aparências de uma coisa, para afirmar a influência da matéria sobre as aparências.

Nós comumente assumimos que a informação que nós obtemos sobre uma coisa é mais precisa quando a coisa está mais perto. Longe, nós vemos que é um homem; então nós vemos que é Jones; então nós vemos que ele está sorrindo. Precisão completa apenas seria alcançável como um limite: se as aparências de Jones conforme nos aproximamos dele tendem a um limite, esse limite pode ser aceito ser o que Jones realmente é. É óbvio que a partir do ponto de vista da física, as aparências de uma coisa próxima “contam” mais do que as aparências distantes. Portanto, nós podemos estabelecer a seguinte definição experimental:

A matéria de uma dada coisa é o limite das suas aparências conforme a distância delas a partir da coisa diminui.

Parece provável que haja alguma coisa nessa definição, mas ela não é bastante satisfatória, porque, empiricamente, não há esse limite a ser obtido a partir de dados do sentido. A definição terá de ser prolongada através de construções e definições. Mas, provavelmente, ela sugere a direção correta para a qual olhar.

Nós agora estamos em uma posição para entendermos em contorno a jornada inversa a partir da matéria para os dados do sentido que é realizada pela física. A aparência de uma coisa em uma dada perspectiva é uma função da matéria compondo a coisa e a matéria interveniente. A aparência de uma coisa é alterada por fumaça ou névoa intervenientes, por óculos azuis ou por alterações nos órgãos do sentido ou nervos do percebedor (o qual também tem de ser reconhecido como parte do meio interveniente). Quanto mais próximos nós chegamos [166]da coisa, menos a aparência dela é afetada pela matéria interveniente. Conforme nós viajamos mais e mais a partir da coisa, a aparência dela diverge mais e mais do seu caráter inicial; e as leis causais da divergências devem ser formuladas em termos da matéria que está entre elas e a coisa. Uma vez que as aparências em distâncias muito pequenas são menos afetadas por outras causas além da coisa mesma, nós chegamos a pensar que o limites na direção do qual essas aparências tendem conforme a distância diminui é o que a coisa “realmente é,” enquanto oposta ao que ela meramente parece ser. Isso, junto com a sua necessidade para a formulação de leis causais, parece ser a fonte do sentimento inteiramente errôneo de que a matéria é mais “real” do que dados do sentido.

Por exemplo, considere a divisibilidade infinita da matéria. Olhando para uma dada coisa e aproximando-se dela, um dado do sentido tornar-se-á vários, e cada um desses, novamente, dividir-se-á. Dessa forma, uma aparência pode representar muitas coisas, e não parece haver fim para esse processo. Consequentemente, no limite, quando nos aproximamos indefinidamente da coisa, haverá um número indefinido de unidades de matéria correspondendo ao quê, a uma distância finita, é apenas uma única aparência. É assim que a divisibilidade infinita surge.

A eficácia causal total de uma coisa reside em sua matéria. Isso é, em algum sentido empírico, mas seria difícil o formular precisamente, porque “eficácia causal” é difícil de definir.

O que pode ser empiricamente conhecido sobre a matéria de alguma coisa é apenas aproximado, porque nós não podemos conhecer as aparências da coisa a partir de distâncias muito pequenas, e não podemos inferir precisamente o limite dessas aparências. Mas isso é inferido aproximadamente através das aparências que nós podemos observar. Revela-se então que essas aparências podem ser exibidas pela física como uma função da [167]matéria na nossa vizinhança imediata: por exemplo, a aparência visual de um objeto distante é uma função das ondas de luz que alcançam os nossos olhos. Isso conduz a confusões de pensamento, mas não oferece nenhuma dificuldade real.

Uma aparência, de um objeto visível, por exemplo, não é suficiente para determinar as suas outras aparências simultâneas, embora ela avance uma certa distância na direção de as determinar. A determinação da estrutura oculta de uma coisa, até onde é possível de qualquer maneira, apenas pode ser efetuada através de elaboradas inferências dinâmicas.


X Tempo2


Parece que o tempo único oniabrangente é uma construção, como o espaço único oniabrangente. A física mesma se tornou consciente desse fato através das discussões conectadas com a relatividade.

Entre duas perspectivas que pertencem igualmente à experiência de uma pessoa, haverá uma direta relação-tempo de antes e depois. Isso sugere uma maneira de dividir a história no mesmo tipo de maneira que ela é dividida por experiências diferentes, mas sem a introdução de experiência ou qualquer coisa mental: nós podemos definir uma “biografia” como toda coisa que é (diretamente) anterior ou posterior a, ou simultânea a, um dado “sensibile.” Isso fornecerá uma série de perspectivas, as quais poderiam formar todas as partes da experiência de uma pessoa, embora não seja necessário que todas ou nenhuma delas deveria efetivamente o fazer. Por esse meio, a história do mundo é dividida em um número de biografias mutuamente exclusivas.

[168]Agora nós temos de correlacionar os tempos nas diferentes biografias. A coisa natural seria dizer que as aparências de uma dada coisa (momentânea) em duas perspectivas diferentes pertencendo a biografias diferentes devem ser aceitas como simultâneas; mas isso não é conveniente. Suponha que A grite para B, e B responda tão logo ele ouça o grito de A. Então, entre A ouvir o seu próprio grito e ele ouvir o de B há um intervalo; dessa maneira, se tornamos nós os atos de A e de B ouvirem o mesmo grito simultâneos um com o outro, nós deveríamos ter eventos exatamente simultâneos com um dado evento mas não um com o outro. Para evitarmos isso, nós assumimos uma “velocidade do som.” Quer dizer, nós assumimos que o tempo quando B ouve o grito de A está a meio caminho do tempo quando A ouve o seu próprio grito e o tempo quando ele ouve o grito de B. Dessa maneira a correlação é efetuada.

É claro, o que foi dito sobre o som aplica-se igualmente à luz. O princípio geral é que as aparências, em perspectivas diferentes, as quais devem ser agrupadas juntas como constituindo o que uma certa coisa é em um certo momento, não devem ser todas consideradas como estando naquele momento. Pelo contrário, elas espalham-se para fora da coisa, com várias velocidades de acordo com a natureza das aparências. Uma vez que nenhum meio direto existe de correlação do tempo em uma biografia com o tempo em outra, esse agrupamento temporal das aparências pertencentes a uma dada coisa em um dado momento é em parte convencional. O seu motivo é parcialmente assegurar a verificação de tais máximas de modo que eventos que são exatamente simultâneos com o mesmo evento sejam exatamente simultâneos um com o outro, parcialmente para assegura conveniência na formulação de leis causais.


[169]XI A Persistência das Coisas e da Matéria


Além de qualquer hipótese flutuante da física, três problemas principais surgem na conexão do mundo da física com o mundo do sentido, a saber:

  1. a construção de um espaço único;

  2. a construção de um tempo único;

  3. a construção de coisas ou matéria permanentes.

Nós já consideramos o primeiro e o segundo desses problemas; resta considerar o terceiro.

Nós já vimos como aparências correlacionadas em perspectivas diferentes são combinadas para formar uma “coisa” em um momento no tempo onienglobante da física. Agora nós temos de considerar como aparências em tempos diferentes são combinadas como pertencendo a uma “coisa,” e como nós chegamos à “matéria” persistente da física. É claro, a suposição de substância permanente, a qual tecnicamente subjaz ao procedimento da física, não pode ser considerada como metafisicamente legítima: exatamente como a coisa única vista simultaneamente por muitas pessoas é uma construção, assim a coisa única vista em tempos diferentes, pelas mesmas ou por diferentes pessoas, tem de ser uma construção, sendo de fato nada exceto um certo agrupamento de certos “sensibilia.”

Nós vimos que o estado momentâneo de uma “coisa” é uma coleção de “sensibilia,” em perspetivas diferentes, nem todas simultâneas em um único tempo construído, mas espalhando-se a partir de “o lugar onde a coisa está” com velocidades dependendo da natureza dos “sensibilia.” O tempo no qual a “coisa” está nesse estado é o limite inferior dos tempos nos quais essas aparências ocorrem. Nós agora temos de considerar o que nos leva a falar de outro conjunto de aparências como pertencendo à mesma “coisa” em um tempo diferente.

[170]Para esse propósito, nós podemos, pelo menos para começar, confinar a nós mesmos ao interior de uma única biografia. Se nós sempre podemos dizer quando dois “sensibilia” em uma dada biografia são aparências de uma coisa, então, uma vez que nós temos visto como conectar “sensibilia” em biografias diferentes como aparências do mesmo estado momentâneo de uma coisa, nós deveremos ter tudo que é necessário para a construção completa da história de uma coisa.

Para começar, deve ser observado que a identidade de uma coisa para o senso comum nem sempre está correlacionada com a identidade da matéria para a física. Um corpo humano é uma coisa persistente para o senso comum, mas, para a física, a matéria dele está constantemente mudando. De maneira geral, nós podemos dizer que a concepção do senso comum está baseada na continuidade em aparências nas distâncias ordinárias dos dados do sentido, enquanto a concepção física é baseada na continuidade de aparências em distâncias muitos pequenas a partir da coisa. É provável que a concepção do senso comum não seja capaz de precisão completa. Portanto, concentremos a nossa atenção na concepção de persistência da matéria na física.

A primeira característica de duas aparências do mesmo pedaço de matéria em tempos diferentes é a continuidade. As duas aparências têm de estar conectadas por uma série de intermediárias, as quais, se tempo e espaço são séries compactas, têm elas mesmas de formar uma série compacta. A cor das folhas é diferente no outono do que ela é no verão; mas nós acreditamos que a mudança ocorre gradualmente, e que, se as cores são diferentes em dois tempos dados, há tempos intermediários nos quais as coisas são intermediárias entre aquelas nos momentos dados.

Mas há duas considerações que são importantes com respeito à continuidade.

Primeiro, ela é largamente hipotética. Nós não observamos [171]nenhuma coisa continuamente, e é meramente uma hipótese a assumir que, enquanto nós não a estamos observando, ela passe por condições intermediárias entre aquelas nas quais ela é percebida. Durante observação ininterrupta, é verdadeiro, a continuidade é quase verificada; mas mesmo aqui, quando movimentos são muito rápidos, como no caso de explosões, a continuidade não é capaz de verificação direta. Dessa maneira, nós apenas podemos dizer que os dados do sentido são considerados permitem um complemento hipotético dos “sensibilia” tal como preservarão a continuidade, e que, portanto, pode haver um tal complemento. Contudo, uma vez que nós já tenhamos feito um tal uso de “sensibilia” hipotéticos, nós deixaremos esse ponto passar, e admitiremos tais “sensibilia” como requeridos para preservar a continuidade.

Segundo, continuidade não é um critério suficiente de identidade material. É verdadeiro que em muitos casos, tais como rochas, montanhas, mesas, cadeiras, etc, onde as aparências mudam lentamente, a continuidade é suficiente, mas em outros casos, tais como as partes de um fluido aproximadamente homogêneo, ela falha complemente conosco. Nós podemos viajar através gradações sensivelmente contínuas de uma gota de mar em um tempo para qualquer outra gota em outro momento. Nós inferimos os movimentos da água do mar a partir dos efeitos da corrente, mas eles não podem ser inferidos a partir de observação direta sensível junto com a suposição de continuidade.

A característica requerida em adição à continuidade é conformidade com as leis da dinâmica. Partindo do que o senso comum considera como coisas persistentes, e fazendo apenas modificações tais que de tempo em tempo parecem razoáveis, nós chegamos a coleções de “sensibilia,” as quais são descobertas obedecerem certas leis simples, a saber, aquelas da dinâmica. Considerando “sensibilia” em tempos diferentes como pertencendo ao mesmo pedaço de matéria, nós somos capazes de definir movimento, o qual pressupõe a suposição [172]ou construção de alguma coisa persistindo durante todo o tempo do movimento. Os movimentos que são considerados como ocorrendo, durante um período no qual todos os “sensibilia” e os tempos da aparência deles são dados, serão diferentes de acordo com o modo no qual nós combinamos os “sensibilia” em tempos diferentes como pertencendo ao mesmo pedaço de matéria. Dessa maneira, quando a inteira história do mundo é dada em cada particular, a questão de quais movimentos ocorrem é ainda, a uma certa extensão, arbitrária, mesmo depois da suposição de continuidade. A experiência mostra que é possível determinar movimentos de uma maneira tal a satisfazer as leis da dinâmica, e que essa determinação, grosseiramente e no todo, está justamente de acordo com as opiniões do senso comum sobre coisas persistentes. Portanto, essa determinação é adotada e leva a um critério pelo qual nós podemos determinar, algumas vezes praticamente, algumas vezes apenas teoricamente, se duas aparências em tempos diferentes devem ser consideradas como pertencendo ao mesmo pedaço de matéria. A persistência de toda matéria por todo o tempo pode ser assegurada por definição, eu imagino.

Para recomendar essa conclusão, nós temos de considerar o quê é que é provado pelo sucesso empírico da física. O quê é provado é que a sua hipótese, embora inverificável onde eles vão além dos dados do sentido, em nenhum ponto es em contradição com os dados do sentido, mas, pelo contrário, são idealmente tais como a tornar todo os dados do sentido calculáveis quando uma coleção suficiente de “sensibilia” é dada. Agora a física tem considerado empiricamente possível coletar dados do sentido em séries, cada série sendo considerada como pertencendo a uma “coisa,” e comportando-se, com respeito às leis da física, de uma maneira na qual séries não pertencentes a uma coisa não se comportariam. Se deve ser não ambíguo se duas aparências pertencem ou [173]não à mesma coisa, tem de haver apenas uma maneira de agrupar aparências de modo que as coisas resultantes obedeçam às leis da física. Seria muito difícil provar que esse é o caso, mas, para os nossos propósitos presentes, nós podemos deixar esse ponto passar e assumir que há apenas uma única maneira. Dessa maneira, nós podemos estabelecer a seguinte definição: Coisas físicas são aquelas séries de aparências cuja a matéria obedece às leis da física. Que tais séries existam é um fato empírico, o qual constitui a verificabilidade da física.


XII Ilusões, Alucinações e Sonhos


Resta perguntar como, em nosso sistema, nós devemos encontrar um lugar para dados do sentido que aparentemente falham em ter a conexão usual com o mundo da física. Tais dados do sentido são de vários tipos, requerendo um tratamento um pouco diferente. Mas todos são do tipo que seria chamado de “irreal,” e, portanto, antes de embarcar nessa discussão, certas observações lógicas têm de ser feitas sobre as concepções de realidade e irrealidade.

O sr. A. Wolf3 diz:

A concepção da mente como um sistema de atividades transparentes é, eu penso, também insustentável por causa da sua falha para explicar a possibilidade mesma de sonhos e alucinações. Parece impossível compreender como uma atividade transparente, nua, pode ser dirigida para o quê não está aí, apreender o quê não é dado.”

Essa afirmação provavelmente é uma que a maioria das pessoas endossaria. Mas ela está aberta a duas objeções. Primeiro, é difícil ver como uma atividade, por mais que não “transparente,” pode ser dirigida a nada: um termo de uma relação não pode ser uma mera não entidade. Segundo, nenhuma razão [174]é dada, e eu estou convencido de que nenhuma pode ser dada, para a afirmação de que os objetos-sonho (dream-object) não estão “aí” e não são “dados.”

(1) A crença de que os objetos-sonho são não dados surge, eu penso, a partir da falha para distinguir, com respeito à vida desperta, entre o dado do sentido e a “coisa” correspondente. Em sonhos, não há tal “coisa” correspondente como o sonhador supõe; portanto, se a “coisa” fosse dada na vida desperta, como, por exemplo, Meinong sustenta,4 então haveria uma diferença com respeito à condição de dado (givenness) entre sonhos e vida desperta. Mas se, como nós temos sustentado, o que é dado nunca é a coisa, mas meramente um dos “sensibilia” que compõem a coisa, então o quê nós apreendemos em um sonho é tanto dado quanto o quê nós aprendemos na vida desperta.

Exatamente o mesmo argumento aplica-se aos objetos-sonho estando “ali (there).” Eles têm a posição deles no espaço privado da perspectiva do sonhador; onde eles falham com sua correlação com outros espaços privados e, portanto, com o espaço perspectivo. Mas, no único sentido no qual “ali” pode ser um dado, eles estão “ali” exatamente tão verdadeiramente quanto quaisquer dos dados do sentido da vida desperta.

(2) A concepção de “ilusão” ou “irrealidade,” e a concepção correlativa de “realidade,” são geralmente usadas de uma maneira que corporifica profundas confusões lógicas. Palavras que vão em pares, tais como “real” e “irreal,” “existente” e “não existente,” “válido” e “inválido,” etc., são todas derivadas a partir de um par fundamental, “verdadeiro” e “falso.” Agora, “verdadeiro” e “falso” são aplicáveis apenas – exceto em significações derivadas – a proposições. Dessa forma, sempre que os pares acima podem ser significativamente aplicados, nós temos de lidar ou com proposições ou com aquelas frases incompletas que [175]apenas adquirem significado quando colocadas em um contexto que, com elas, forma uma proposição. Dessa forma, tais pares de palavras podem ser aplicados a descrições,5 mas não a nomes próprios: em outras palavras, elas não têm nenhuma aplicação que seja aos dados, mas apenas a entidades ou não entidades descritas em termos de dados.

Ilustremos termos “existência” e “não existência.” Dado qualquer dado x, é sem sentido ou afirmar ou negar que x “existe.” Nós poderíamos ficar tentados a dizer: “É claro que x existe, pois de outro modo ele não poderia ser um dado.” Mas uma semelhante formulação é realmente sem sentido, embora seja significante e verdadeiro dizer “Meu presente dado do sentido existe,” e também pode ser verdadeiro que “x é meu presente dado do sentido.” A inferência a partir dessas duas proposições para “x existe” é algo que parece irresistível para pessoas desacostumadas com a lógica; contudo, a proposição aparente inferida não é meramente falsa, mas estritamente sem sentido. Dizer “Meu presente dado do sentido existe” é dizer (grosseiramente): “Há um objeto do qual ‘meu presente dado do sentido’ é uma descrição.” Mas nós não podemos dizer: “Há um objeto do qual ‘x’ é uma descrição,” porque ‘x’ é (no caso que nós estamos supondo) um nome, não uma descrição. O dr. Whitehead e eu explicamos esse ponto completamente em outro lugar (loc. cit.) com a ajuda de símbolos, sem a qual ele é difícil de entender; portanto, eu não deverei repetir aqui a demonstração das proposições acima, mas deverei prosseguir com a aplicação delas ao nosso problema presente.

O fato de que “existência” é apenas aplicável a descrições é escondido pelo uso do que são gramaticalmente nomes próprios de uma maneira que realmente os transforma em descrições. Por exemplo, é uma questão legitima [176]perguntar se Homero existiu; mas aqui “Homero” significa “o autor dos poemas homéricos,” e é uma descrição. Similarmente nós podemos perguntar se Deus existe; mas então “Deus” significa “o Ser Supremo” ou “o ens realissimum” ou seja qual for a descrição que nós possamos preferir. Se “Deus” fosse um nome próprio, Deus teria de ser um dado; e então nenhuma questão poderia surgir quanto à existência Dele. A distinção entre existência e outros predicados, a qual Kant obscuramente sentiu, é trazida à luz pela teoria das descrições, e é vista remover completamente “existência” das noções fundamentais da metafísica.

O que tem sido dito sobre “existência” aplica-se igualmente a “realidade,” a qual pode, de fato, ser tomada como sinônimo de “existência.” Relativo aos objetos imediatos em ilusões, alucinações e sonhos, é sem sentido perguntar se eles “existem” ou são “reais.” Ali eles são, e isso encerra a questão. Mas nós podemos inquirir legitimamente quanto à existência ou realidade de “coisas” ou outros “sensibilia” inferida a partir de tais objetos. É a irrealidade dessas “coisas” e outros “sensibilia,” junto com uma falha para notar que eles não são dados, que têm levado à visão de que os objetos de sonhos são irreais.

Nós agora podemos aplicar essas considerações em detalhe aos argumentos acumulados contra o realismo, embora o que deva ser dito será principalmente uma repetição do que outros já têm dito.

(1) Nós temos primeiro a variedade de aparências normais, supostas serem incompatíveis. Esse é o caso das formas e cores diferentes que uma dada coisa apresenta para espectadores diferentes. A água de Locke que parece tanto quente quando fria pertence a essa classe de casos. O nosso sistema de diferentes perspectivas explica completamente esses casos e mostra que eles não propiciam argumento contra o realismo.

(2) Nós temos casos onde a correlação entre [177]sentidos diferentes é não usual. O bastão curvado na água pertence aqui. As pessoas dizem que ele parece curvado mas é reto: isso apenas significa que ele é reto para o toque, embora curvado para a visão. Não há “ilusão,” mas apenas uma inferência falsa, se nós pensamos que o bastão seria sentido curvado para o toque. O bastão parece igualmente tão curvado em uma fotografia, e, como o sr. Gladstone costumava dizer, ‘a fotografia não pode mentir.’6 O caso da visão dupla também pertence aqui, embora, nesse caso, a causa da correlação não usual é fisiológica e, portanto, não opera em uma fotografia. É um equívoco perguntar se a “coisa” está duplicada quando nós a vemos dobrada. A “coisa” é um inteiro sistema de “sensibilia,” e são apenas aqueles “sensibilia” visuais que são dados para o percebedor que estão duplicados. O fenômeno tem uma explicação puramente fisiológica; de fato, à vista de nós termos dois olhos, ele está em menos necessidade de explicação do que o único dado do sentido visual que nós normalmente obtemos a partir das coisas nas quais nós nos focamos.

(3) Nós agora chegamos a casos como o dos sonhos, os quais podem, no momento do sonho, conter nada para animar qualquer suspeita, mas são condenados ao chão da sua suposta incompatibilidade com dados anteriores e posteriores. É claro, frequentemente acontece que objetos-sonho falham em se comportarem da maneira costumeira: objetos pesados voam, objetos sólidos derretem, bebês transformam-se em porcos ou passam por mudanças ainda maiores. Mas nenhuma dessas ocorrências incomuns têm de ocorrer em um sonho, e não é por conta dessas ocorrências que objetos-sonho são chamados de “irreais.” É a carência de continuidade deles com o passado e futuro do sonhador que faz ele, quando acorda, condená-los; e é o falta [178]de correlação deles com outros mundos privados que faz outros os condenarem. Omitindo-se o fundamento posterior, a nossa razão para os condenar é que as “coisas” que nós inferimos a partir deles não podem ser combinadas, de acordo com as leis da física, com as “coisas” inferidas a partir dos dados do sentido despertos. Isso poderia ser usado para condenar as “coisas” inferidas a partir dos dados dos sonhos. Dados de sonho são, sem dúvida, aparências de “coisas,” mas não de tais “coisas” como o sonhador supõe. Eu não tenho nenhum desejo de combater teorias psicológicas de sonhos, tais como aquelas dos psicoanalistas. Mas certamente há casos onde (quaisquer causas psicológicas possam contribuir) a presença de causas físicas também é muito evidente. Por exemplo, uma porta batendo pode produzir um sonho de um engajamento naval, com imagens de navios de batalha e mar e fumaça. O inteiro sonho será uma aparência da porta batendo, mas devido à condição peculiar do corpo (especialmente do cérebro) durante o sono, essa aparência não é aquilo esperado de ser produzido por uma porta batendo, e, dessa maneira, o sonhador é levado a entreter falsas crenças. Mas esses dados do sentido ainda são físicos, e são tais como uma física completa incluiria e calcularia.

(4) A última classe de ilusões são aquelas que não podem ser descobertas no interior da experiência de uma pessoa, exceto através da descoberta de discrepâncias com as experiências de outros. Sonhos poderiam concebivelmente pertencer a esta classe, se eles fossem ligados de maneira suficientemente ordenada com a vida desperta; mas as instâncias principais são alucinações sensoriais recorrentes do tipo que levam à insanidade. O quê faz o paciente, em tais casos, tornar-se o quê os outros chamam de insano é o fato de que, dentro da sua própria experiência, não há nada para mostrar que dos dados de sentido alucinatórios não têm o tipo usual de conexão com “sensibilia” em outras perspectivas. É claro, ele pode aprender isso através de testemunho, mas ele [179]provavelmente considera mais simples supor que o testemunho é falso e que ele está sendo voluntariamente enganado. Até onde eu posso ver, não é nenhum critério teórico pelo qual o paciente pode decidir, em um tal caso, entre as duas hipóteses igualmente satisfatórias da sua loucura e da mendácia dos seus amigos.

A partir das instâncias acima pareceria que dados do sentido anormais, do tipo que nós consideramos como enganadores, têm intrinsecamente exatamente o mesmo status que quaisquer outros, mas diferem com respeito às correlações ou conexões causais deles com outros “sensibilia” e com “coisas.” Uma vez que correlações e conexões usuais tornam-se parte das nossas expectativas irrefletidas, e até parecem, exceto para o psicólogo, formar parte dos nossos dados, chega-se ao pensamento, equivocadamente, de que em tais casos os dados são irreais, considerando que eles são meramente as causas de inferências falsas. O fato de correlações e conexões de tipos não usuais ocorrem acrescenta à dificuldade de inferir coisas a partir do sentido e expressar a física em termos de dados de sentido. Mas a irregularidade pareceria ser sempre fisica ou fisiologicamente explicável e, portanto, gera apenas uma complicação, não uma objeção filosófica.

Portanto, eu concluo que nenhuma objeção válida existe para a visão que considera os dados do sentido como parte da substância do mundo físico, e que, por outro lado, essa visão é a única que explica a verificabilidade empírica da física. No presente artigo eu apenas forneci um esboço preliminar grosseiro. Em particular, a parte desempenhada pelo tempo na construção do mundo físico é, eu penso, mais fundamental do que pareceria a partir da explicação acima. Eu deveria esperar que, com elaboração adicional, a parte desempenhada pelos “sensibilia” poderia ser indefinidamente diminuída, provavelmente invocando a história de uma “coisa” para suprir as inferências deriváveis a partir da sua aparência momentânea.


Próximo ensaio


ORIGINAL:

RUSSELL, B. The Relation of Sense-Data to Physics. IN:______. Mysticism and Logic and Other Essays. London; Longmans, Green and Co. 1918. pp. 145-179. Disponível em: <https://archive.org/details/mysticismlogicot00russuoft/page/145/mode/1up>


TRADUÇÃO:

EderNB do Blog Mathesis

Licença: CC BY-NC-SA 4.0


1[153]Proc. Arist. Soc., 1909-1910, pp. 191-218.

2[167]Sobre esse tema, compare A Theory of Time and Space, do sr. A. A. Robb (Camb. Univ. Press), a qual primeiramente sugeriu para mim as visões defendidas aqui, embora eu tenha, para os propósitos presentes, omitido o quê é mais interessante e novo na teoria. O sr. Robb forneceu um esboço da teoria dele em um panfleto com o mesmo título (Heffer and Sons, Cambridge, 1913).

3[173]“Natural Realism and Present Tendencies in Philosophy,” Proc. Arist. Soc., 1908-1909, p. 165.

4[174]Die Erfahrungsgrundlagen unseres Wissens, p. 28.

5[175]Cf. Principia Mathematica, Vol. I, * 14, e Introdução, Cap. III. Para a definição de existência, cf. * 14.02.

6[177]Cf. Edwin B. Holt, The Place of Illusory Experience in a Realistic World, “The New Realism,” p. 305, tanto sobre este ponto quando com respeito à visão duplicada (seeing double).

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