Caminhos: Por que a Vida está Preenchida com tantos Desvios?
Por József Biró, András Gulyás e Zalán Heszberger
[79]Capítulo 10 O Caminho é o Objetivo!
A nossa conclusão em uma sentença sobre a natureza dos caminhos foi que eles seguem uma lógica interna da rede subjacente, mesmo se isso vem ao preço de serem levemente mais longos. Isso implica que os nossos caminhos serão o mesmo? Isso implica que o nosso comportamento será determinístico e absolutamente compelido pela rede? Antes de contemplarmos essas questões, pensemos um pouco sobre o cenário onde não há rede.
Se alguma vez você caminhou através de um parque público você pode ter notado que, ao lado dos caminhos pavimentados, há muitos segmentos de caminhos não pavimentados que claramente são usados pelas pessoas, de acordo com a grama pisada (a despeito dos avisos de “Fique longe da grama!”). De fato, parques modernos são pavimentados apenas depois de alguns poucos meses de uso público, e o pavimento segue os caminhos pisados das pessoas. Nesse caso, não há rede que dite a lógica para os caminhos. Mas, após uns poucos meses de uso público, uma rede clara é formada. O que acontece aqui? Bem, as pessoas começam a usar o parque da sua própria maneira. Nenhuma delas o usa da mesma maneira, uma vez que comumente elas entram e saem em pontos diferentes do parque, mas o comportamento delas dentro do parque é diferente. Elas terão preferências variantes sobre as coisas no parque. Algumas pessoas estão interessadas nas estátuas, outras procuram bancos sob árvores sombreadas ou áreas públicas de exercício. A rede que finalmente é pavimentada emerge a partir do somatório das interações das pessoas com o parque. Mas isso não significa que elas começarão a usar os mesmos caminhos depois que eles estão pavimentados. A rede de segmentos de caminhos pavimentados no parque facilmente pode ser reconstruída depois de umas poucas horas ou dias de caminhada, dependendo do tamanho do parque. De fato, tais mapas são comumente colocados nas entradas, mostrando as principais atrações e caminhos dentro do parque.1 Esse mapa age como um tipo de informação pública. E quanto aos caminhos? Bem, os caminhos ainda pertencem às pessoas. Os caminhos descrevem-nos os hábitos das pessoas e contam-nos sobre elas. Sobre os lugares favoritos delas, a localização da casa delas e mesmo sobre a saúde delas, se elas preferem caminhadas longas ou curtas. Elas ainda usam o parque da sua própria maneira especial.
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[80]Fig. 10.1 O mapa oficial do Parque Central na Cidade de Nova Iorque. [Com a permissão da Central Parque Conservancy]
[81]Similarmente às suas pegadas específicas em parque público, os seus caminhos parecem definir você de um modo mais geral. Nós vimos que não há muita escolha nos caminhos mais curtos, enquanto os caminhos longos podem ser enfadonhos e não seguíveis. O jogo de expressar a si mesmo está em algum lugar no meio. Como você se comunica? Onde você escolhe passar? Que tipos de desvios amáveis e memoráveis você tomou na sua vida? Esses pequenos desvios parecem definir você. As pessoas podem ser identificadas por uma curta sequência de páginas web consecutivas que elas visitam ou simplesmente observado o caminho do movimento do mouse. Até sem suas digitais ou escaneamentos de retina. A maneira pela qual as pessoas escolhem suas palavras variadas em um jogo de morfologia de palavras parece ser única e específica de cada pessoa. Esse é o poder dos caminhos. É compreensível que a maioria dos estudos considerando caminhos em vários sistemas simplesmente supunha que os caminhos mais curtos sejam usados. Bem, esse é modo mais simples, mais claro e mais racional de pensar. Mesmo se nós detectássemos caminhos desviados por mensuração, eles comumente argumentam que há alguma coisa faltando no modelo de rede. Deveria existir aí alguma torção na rede (por exemplo, a adição de pesos para as arestas que as esticarão ou encurtarão), a qual explicaria os caminhos da vida real como caminhos mais curtos em um sistema modificado, e o mundo seria novamente compreensível. Mas essa maneira de pensar elimina a possibilidade de escolha na seleção de caminhos e esteriliza o problema ao erradicar todas as formas de vida e sabor do cenário. Nossa mensagem para levar para casa neste livro é que desvios não são erros, eles são recursos. Um desvio é como uma assinatura. Um desvio é alguma coisa que adiciona o sabor, que adiciona a história, que adiciona a lógica, que adiciona a escolha, que adiciona vitalidade, que adiciona o significado à sequência de caminhos. Quais são os mais importantes pontos centrais estratégicos da sua vida, em relação aos quais você relaciona todos os seus eventos? Qual é a lógica interna ou a hierarquia subjacente à sua vida? Quais são suas mensagens centrais? Esses podem ser muitas coisas, sua família, seus amigos, seus passatempos, sua carreira, dinheiro, poder, até álcool ou drogas.
Parece que nós não podemos mudar o nosso ponto de partida na vida e, tampouco, o seu fim. Como Eric Berne, o famoso psiquiatra, diz: “a vida é essencialmente um processo de preencher o tempo até a chegada da morte, ou do Papai Noel, com pouca escolha, se alguma, de qual tipo de atividade alguém realizará durante a longa espera”. Mas ainda, essas pequenas escolhas nos contam quem nós somos. Escolhendo esses pontos intermediários e tomando nossos desvios pequenos mais específicos, é permitido a nós fazermos uma diferença. O nosso caminho é mais importante do que o nosso destino. O caminho é o objetivo.
[83]Coda
Um dia um dos monges entrou inesperadamente na cela Linji.2
“Mestre!” Ele exclamou excitadamente. “Eu despendi um ano no seu monastério estudando a Doutrina. Eu conheci as ideias das Três Carruagens dos Ensinamentos, as Regiões do Mundo Triplo, as Criaturas dos Mundos Sextos de Existência, eu atravessei os dez estados e os reinos das mil coisas, eu superei o Teorema dos Quatro Cantos e estou além das mil negações, mas eu ainda não posso responder a questão: Quem sou eu? Responda-me, Mestre, quem sou eu?”
Linji olhou para o monge, em seguida afastou-se dele. Então ele perguntou, depois de uma longa pausa, suavemente.
“Você comeu o seu mingau, monge?”
“Eu comi, Mestre.”
“Você lavou sua bandeja de jantar?”
“Eu lavei.”
“Você lavou sua cela?”
“Lavei, Mestre.”
“Você varreu o quintal?”
“Varri, Mestre.”
“As folhas vieram quando você agitou, ahn?”
“Elas vieram, Mestre.”
“Mas você as juntou.”
“Eu juntei, Mestre.”
“E você viu a grande árvore de cipreste no quintal?”
“Ela é muito bela, como uma torre, certo?”
“Sim, ela é, Mestre.”
“Ela tem um aroma delicado, balsâmico. Você cheirou-o?”
“Eu cheirei, Mestre.”
[84]“Então você veio até mim.”
“Eu vim até você, Mestre.”
“E perguntou-me quem você é?”
“Eu perguntei, Mestre, quem eu sou.”
“Bem, eu quero que você saiba, monge, que você é o alguém quem comeu seu mingau pela manhã, lavou sua bandeja de jantar, limpou sua cela, varreu o quintal, observou as folhas moverem-se e sentiu o aroma balsâmico do cipreste parecido com uma torre. Então ele veio a mim e perguntou-me quem ele é. Bem, isso é você, monge, nada mais. Mas isso é suficiente, acredite-me. Um homem não pode ser mais do que isso.” Linji disse, voltando-se para o monge e olhando-o lentamente no olho. Então eles apenas ficaram de pé ali, silenciosamente, por um tempo. O monge sentiu que o Mestre foi honesto com ele. Ele curvou-se por muito tempo diante dele e retornou quietamente para sua cela.
FIM
ORIGINAL:
BIRÓ, J.; GULYÁS, A.; HESZBERGER, Z. Paths: Why is life filled with so many detours? Birkhäuser Cham, 2021. p. 79-84. Disponível em: <https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-030-47545-1>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1[79]Ver fig. 10.1.
2[83]Uma História traduzida para o inglês pelos autores, a partir do livro: Su-la-ce. Reggeli beszélgetések Lin-csi apát kolostorában, közreadja Sári László Kelet, (2013).

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