Uma Introdução à Epistemologia
3 Fontes do Conhecimento: Racionalismo, Empirismo e a Síntese Kantiana
Por K.S. Sangeetha
Resultados de Aprendizagem do Capítulo
Ao completar este capítulo, os leitores serão capazes de:
Identificar as principais teorias sobre as fontes de conhecimento, incluindo o racionalismo, o empirismo e a síntese kantiana.
Empregar cada teoria para reconstruir as origens de uma dada instância de conhecimento.
Diferenciar as categorias de conhecimento que surgem a partir das distinções a priori / a posteriori, necessária / contingente e analítica / sintética.
Avaliar os méritos de cada teoria.
INTRODUÇÃO
Todos nós temos muitas coisas acontecendo em nossas mentes, tais como crenças, desejos, esperanças, sonhos, figuras imaginárias, conhecimento, amor e ódio – para nomear um punhado. Alguma vez você considerou as fontes delas? Como elas vieram a ser parte do processo de pensamento? Como elas se tornaram ideias em nossas mentes? Alguns filósofos atribuem a fonte de nossas ideias aos sentidos, incluindo sentidos interiores (tais como emoções) e os cinco sentidos exteriores (visão, olfato, audição, paladar e tato). Nós poderíamos sentir o mundo diretamente ou indiretamente, através dos pensamentos de outros, Alguns filósofos até alegam que todas as nossas ideias devem surgir a partir de nossos sentidos. Essa alegação sustenta que cada um de nós nasce com uma mente que é como uma tabula rasa (latim para “lousa em branco (blank slate)” ou “tábua em branco (blank tablet)”) sobre a qual nada está escrito e à qual nós adicionamos conteúdos através da experiência conforme nós nos tornamos expostos ao mundo. O conhecimento que é dependente da experiência, ou que surge a partir da experiência, é chamado de a posteriori (latim para “a partir do último (from the latter)”). Uma vez que o conhecimento a posteriori é empírico (baseado em observação ou experiência), essa visão é chamada de empirismo.
Oposto ao empirismo está o racionalismo, a visão que a razão é a fonte primária de conhecimento. Tal conhecimento pode ser apreendido, ele alegam, através apenas da razão, sem envolver diretamente os sentidos. Eles argumentam que o conhecimento acessado através do raciocínio é eterno (ou seja, existe imutável através de passado, presente e futuro). Por exemplo, dois plus três permanecem cinco. Os racionalistas estão impressionados pela certeza e clareza de conhecimento que o raciocínio fornece, e eles argumentam que esse método deveria ser aplicado também para obter conhecimento do mundo. A evidência dos sentidos deveria estar em conformidade com as verdades da razão, mas não é um pré-requisito para a aquisição dessas verdades.
O conhecimento que é independente da (ou anterior à) observação e experiência é chamado de a priori (latim para “a partir do anterior (from the former)”). Os racionalistas sustentam que a razão é a base do conhecimento a priori. Mas, em última análise, onde nós obtemos as ideias sobre as quais a razão está baseada, se não a partir de observação ou experiência? Os racionalistas tendem a favorecer o inatismo, a crença de que nós já nascemos com certas ideias em nossas mentes. Quer dizer, elas são “inatas” em nós. Exemplos potenciais incluem os princípios matemáticos ou lógicos, o sentido moral e o conceito de Deus. Enquanto os inatistas alegam que tais ideias estão presentes em nós desde o nascimento, isso não garante nossa consciência imediata da presença delas. A razão é a faculdade que nos capacita a percebê-las ou acessá-las. No que se segue, dessa forma, as ideias inatas servem co mo o fundamento de um modelo para o racionalismo.1
A ÊNFASE DO RACIONALISMO EM CONHECIMENTO A PRIORI
O filósofo francês René Descartes (1596-1650) e o filósofo alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), dois importantes pensadores racionalistas, suportam a existência de ideias inatas e a compreensão delas através da razão. Eles argumentam que as verdades reveladas por tais ideias são eternas, necessárias e universais.
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Retrato de René Descartes, por Frans Hals, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
Para Descartes, há modos diferentes através dos quais nós adquirimos conhecimento: algumas ideias são inatas, algumas têm fontes externas, e outras são construídas por nós. Descartes dá o exemplo da ideia de Deus como inata em nós, assim como a ideia da própria existência de alguém ([1641] 1985, Terceira Meditação). De acordo com Descartes, ideias inatas como as verdades da geometria e as leis da lógica são reconhecidas independentemente da experiência, pois a experiência concede-nos apenas instâncias particulares a partir dos quais a mente descobre as ideias universais contidas nelas. Portanto, elas são a priori. As ideias inatas de Descartes têm sido comparadas à informação armazenada em um livro. As ideias estão em nós, embora nem sempre à vista da mente. Uma vez que nós comecemos a ler o livro, os conteúdos revelam-se a nós, exatamente como o raciocínio revela nossas ideias inatas a nós. Em outras palavras, é apenas através de “leitura” (pensamento) cuidadosa que nós chegamos a entende quais ideias são inatas e quais chegam a nós de outro lugar.
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Retrato de Gottfried Leibniz, por Christoph Bernahard Francke, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
Leibniz chama as ideias inatas de “princípios.” Como Descartes, Leibniz sustenta que os princípios são acessados através da razão. A natureza universal das ideias matemáticas, por exemplo, não é revelada pelos sentidos. É a faculdade da razão que adquire verdades universais a partir de instâncias particulares. Leibniz argumenta que uma coleção de instâncias baseada nos sentidos não pode nos conduzir a verdades necessárias. Ao mesmo tempo, também é claro que nós podemos apreender muitas verdades necessárias, tais como a matemática. Portanto, a mente é a fonte, o que significa que essas verdades existem inatamente. Contudo, ideias não são pensamentos de pleno direito para Leibniz: ele sustenta que nossas mentes são estruturadas de modo que certas ideias ou princípios ocorrer-nos-ão uma vez induzidos pelos sentidos, embora eles não sejam derivados a partir dos sentidos. Inicialmente, ideias e verdades são inatas em nós como disposições ou tendências ante que como atuais pensamentos conscientes ([1705] 2017, Prefácio).
OPONDO-SE AO CONHECIMENTO A PRIORI REJEITANDO AS IDEIAS INATAS
A alegação empirista de que todo o nosso conhecimento origina-se a partir da experiência está em forte contraste com o conceito de ideias inatas. Para os empiristas, todo o conhecimento é a posteriori, significando adquirido através da, ou após a, experiência. John Locke (1632-1704), um filósofo britânico empirista, adota duas abordagens para questionar as ideias inatas como a base de conhecimento a priori. Primeiro, ele mostra que as ideias inatas são baseadas em alegações duvidosas; segundo, junto com o empirista escocês David Hume (1711-1776), Locke mostra como o empirismo é capaz de oferecer uma melhor teoria do conhecimento através do a posteriori.
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Retrato de John Locke, por Godfrey Kneller, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
Locke começa questionando a “natureza universal” das ideias inatas. Ele opõe-se à alegação que as ideias inatas estão presentes em todos nós notando que crianças suficientemente jovens e adultos sem a educação necessária, carecem de um conceito de Deus ou do conhecimento de princípios lógicos ou matemáticos. Portanto, é sem fundamento dizer que as ideias inatas são universais. É através de experiência e observação que nós adquirimos tais ideias. Quer dizer, elas são a posteriori ([1690] 2017, Livro I).
Aqui Leibniz defende a visão inatista da objeção de Locke mostrando como crianças e aqueles sem a educação necessária são capazes de empregar princípios matemáticos em suas vidas cotidianas sem entender o que eles são ou ser capazes de os articular em palavras ([1705] 2017, Livro I). Uma criança, para usar um exemplo meu, conhece sem nenhuma confusão que ela não pode se sentar ao mesmo tempo nos colos de ambos os pais ao mesmo tempo. De maneira similar, aqueles sem treinamento matemático formal ainda poderiam saber que dois milharais triangulares adjacentes e separados por uma cerca em seu lado mais longo podem formar um milharal quadrado ao remover a cerca que os divide. Evidentemente, Leibniz argumenta, princípios gerais de lógica e matemática são inatos. Mas isso não significa que todas as ideias inatas são universalmente consideradas. É possível que todos nós tenhamos ideias inatas, contudo, alguns de nós são ignorantes delas.
Contudo, Locke argumenta adicionalmente, que não pode haver nada na mente do qual ela esteja inconsciente ([1690] 2017, Livro II). Ter ideias inatas sem estar consciente delas não é uma posição viável para Locke. Uma ideia tem de primeiro ser experienciada ou pensada. De que outra forma ela poderia estar “na” mente? Nesse ponto, Leibniz discorda de Locke: é possível ter uma pletora de ideias em nossas mentes sem estar consciente delas ([1705] 2017, Prefácio). Por exemplo, suponha que você absorva um “música (tune)” tocando em um mercado (marketplace) sem estar conscientemente ciente disso. A música não está prontamente acessível ou transparente para sua mente, no que você não pode se lembrar dela; contudo, ela pode ser reconhecida em consequência de a ouvir novamente. Assim, ela deve ter estado em alguma parte “em” você, em algum sentido. Nós nascemos com a habilidade para compreendemos as ideias inatas quando obtemos condições favoráveis mais tarde na vida, tais como as ideias de beleza, justiça e verdades matemáticas.
A resposta de Locke é que a compreensão de ideias ou capacidades nas circunstâncias corretas é aplicável a todas as ideias – não apenas aquelas supostamente inatas ([1690] 2017, Livro I). Ele desafia os inatistas a produzirem um critério para distinguir entre ideias inatas e não inatas. Leibniz responde com um tal critério: ideias inatas são necessárias (elas têm de ser verdadeiras, não podem ser falsas), ao passo que ideias não inatas são meramente contingentes (possivelmente verdadeiras, possivelmente falsas). Nós podemos distinguir verdades que são necessárias (e portanto externas na visão de Leibniz) de verdades contingentes dependentes de várias questões de fato ([1705] 2017, Prefácio).
A ÊNFASE DO EMPIRISMO EM CONHECIMENTO A POSTERIORI
Locke alega mostrar como a mente, a qual é como uma tabula rasa no nascimento, adquire conhecimento. Para os empiristas, apenas a experiência fornece a nossa mente ideias simples, as quais são os elementos básicos do conhecimento. Uma vez mostrado que todas as nossas ideias podem surgir a partir da experiência, seria redundante postular adicionalmente ideias inatas. Assim, o conhecimento a posteriori leva-nos a rejeitar o conhecimento a priori? Descubramos.
Para Locke, o conhecimento baseado na experiência é fácil de entender. Ele pede-nos para supor que nós temos ideias inatas de cores e que também podemos ver as cores com nossos olhos. Nesse caso, uma vez que nós não necessitamos depender de ambos, nós podemos seguir com nossos sentidos, porque é mais fácil e simples entender o conhecimento derivado a partir de experiência sensorial do que derivado a partir de alguma fonte da qual nós estamos inconsciente ([1690] 2017, Livro I, cap. ii, §1). Aqui Locke aplica o princípio da Navalha de Ockham, o qual sugere que, tanto quanto possível, nós deveríamos adotar explicações simples antes que complicadas.2 Explicações simples têm a vantagem de ser menos propensas a erros e mais amigáveis a teste do que as complicadas que não acrescentam valor explicativo.
A próxima questão é se apenas o conhecimento a posteriori dá-nos conhecimento adequado do mundo. Tomemos uma instância de experimentação e, por esse meio, conhecer uma flor, tal como uma rosa. Como nós experienciamos a rosa, sua cor, textura e fragrância particulares, são as ideias através das quais nós nos tornamos conscientes do objeto. Mas quando nós não estamos experienciando ou sentido a flor, nós ainda podemos pensar sobre ela. Nós também podemos reconhecê-la na próxima vez que nós vemos a flor e reter a crença de seu cheiro doce, sua beleza de se olhar e sua maciez ao toque. Isso mostra que, em adição à sensação, a habilidade de formar conceitos sobre os objetos que nós encontramos é crucial para conhecer o mundo. A experiência também torna possível para nós imaginarmos aquilo que nós não experienciamos diretamente, tal como uma sereia ([1690] 2017, Livro II, cap iii, §19). Tais imagens são tornadas possíveis porque nós experienciamos direta e separadamente as partes diferentes desse objeto imaginado. Unindo essas experiências na mente, de uma maneira ordenada, produz o objeto imaginado ([1690] 2017, Livro II, cap. iii, §5). Não houvéssemos nós experienciado e, por esse meio, antes e separadamente, formado os conceitos de um peixe e de uma mulher, nós não seríamos capazes de imaginar uma sereia no presente.
Essas considerações levaram Locke a categorizar todas as nossas experiências dos sentidos em ideias simples e complexas. Ideias simples são básicas e indivisíveis, tais como a ideia de vermelho. Ideias complexas são formadas pela mente, quer a partir de mais do que uma ideia simples, quer a partir de impressões complexas ([1690] 2017, Livro II, caps. ii & iii). Ideias complexas são divisíveis porque elas têm partes. Exemplos incluem ruas de ouro, um exército e o universo. Minha ideia ou conceito de um objeto, ou simples ou complexo, em última instância, pode ser traçado de voltas às suas correspondentes impressões sensoriais.
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Retrato de David Hume, por Allan Ramsay, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
Hume, outro importante filósofo empirista, escreve que as ideias são “cópias” de “impressões.” As impressões são “vívidas” e “animadas,” como recebidas diretamente a partir da experiência sensorial. Hume também admite impressões internas, incluindo ciúmes, indignação e assim por diante. Ideias são cópias mentais impressões internas ou externas, tornando-as “fracas” e “débeis” (tente comparar uma experiência sensorial com a lembrança dela a partir da memória) ([1748] 2017, seções 1 & 2). Hume argumenta que, onde não há impressões, não podem haver ideias. Um homem cego não pode ter noção de cor, de acordo com Hume. Alguém não pode ter nascido com ideias que não são derivadas a partir de nenhuma impressão. Assim, não há ideias inatas para Hume. Contudo, ele concorda que nossas tendências para evitar a dor, ou para buscar muitas de nossas paixões e desejos, são inatas. Aqui eu argumentaria que mesmo essas tendências são baseadas em nossas impressões sensoriais e nas ideias correspondentes que nós formamos a partir daquelas impressões. A inclinação mental para, repetidamente, buscarmos o prazer e evitarmos a dor chega a nós apenas após o primeiro incidente de exposição a uma ou outra sensação.
Em contraste com Descartes, mesmo a ideia de Deus cai sob o a posteriori para Hume. Uma vez que nenhum de nós experienciou Deus diretamente, Hume argumenta, não há impressão de Deus disponível para nós a partir da qual formar a ideia correspondente. Na visão de Hume, nossa imaginação forma essa ideia estendendo prodigamente nossa experiência das boas qualidades possuídas pelas pessoas ao nosso redor ([1748] 2017 Seções 1 & 11). Dado que mesmo a ideia de Deus pode ser derivada a partir de impressões sensoriais, isso empresta suporte adicional para a alegação empiristas de que todas as nossas ideias são a posteriori. Portanto, de acordo com Hume, as alegações racionalistas para a existência de ideias inatas e conhecimento a priori são equivocadas.
A INADEQUAÇÃO DA TEORIA DA TABULA RASA
Uma fraqueza da teoria empirista da tabula rasa pode se exposta se nós pudermos mostrar que nem todas as nossas ideias derivam-se a partir de impressões correspondentes. Contudo, isso não significaria que nós devemos retornar à teoria racionalista das ideias inatas, como nós devemos ver. O plano é explorar uma terceira alternativa.
A presença de conceitos gerais em nossas mentes mostra que nem sempre há uma relação de um para um entre as ideias e as correspondentes impressões dos sentidos. Por exemplo, nós vemos instâncias diferentes da mesma cor azul ao nosso redor e, a partir dessas instâncias, formamos um conceito geral de azul. Esse conceito geral não é copiado a partir de uma impressão particular de azul, nem mesmo de um tom (shade) particular de azul. Nós também temos conceitos abstratos (tais como justiça, gentileza e coragem), os quais não são rastreáveis a impressões sensoriais correspondentes. Em tais casos, nós experienciamos diferentes atos ou instâncias de justiça, gentileza e coragem. Mas, se esses conceitos são copiados a partir de suas impressões particulares, então apenas essas instâncias – e não os conceitos mesmos – estariam em nossas mentes. Segue-se que conceitos são formados ou entendidos antes que copiados. De maneira similar, conceitos relacionais (tais como “sobre (on)” – idade (-ness), entridade (betweenness), mesmidade/identidade (sameness) e semelhantes) são compreendidos não através da cópia das impressões envolvidas. De fato, absolutamente não há impressões correspondendo a esses conceitos relacionais. Antes nós recebemos impressões de particulares posicionados (standing) em tais relações – o gato sentado sobre (sitting on) o tapete, o Canal da Mancha fluindo entre (flowing between) o Reino Unido e a Europa, um menos um igualando zero, e assim por diante.
Em suma, a formação de conceitos gerais, abstratos e relacionais em nossas mentes mostra que um fluxo ininterrupto de impressões não constitui todas as ideias que nós temos. Antes, ela requer que, desde o nascimento, a mente esteja, pelo menos, parcialmente equipadas com uma estrutura ou arquitetura que nos capacite a fazer sentido das impressões brutas que ela recebe e formar conceitos onde não há uma correspondência de um-para-um entre as impressões e as ideias. Isso desafia a autenticidade de uma tabula rasa. Isso nos leva a uma etapa onde nós precisamos descobrir a indispensável terceira alternativa, a qual pode facilitar um conhecimento mais completo do mundo. Isso faz necessário um cruzamento (crossover) entre o a priori e o a posteriori, ou uma reconciliação dos dois.
COMBINAÇÃO DE PERCETOS-CONCEITOS
A natureza direta e imediata das sensações, impressões e percepções torna-as certas.3 Brevemente, desempacotemos essa ideia. Considere se alguma vez nós podemos estar errados sobre nossas sensações. Comumente se considera que, enquanto nós podemos estar errados sobre como o mundo é, nós não podemos estar errados sobre o fato de que nós estamos tendo sensações particulares. Mesmo se você está sonhando neste segundo mesmo, e não há livro real diante de seus olhos, você não pode negar que você está tendo certas sensações assemelhando-se a uma página em branco e fonte preta na forma de palavras. Portanto, nossas sensações são certas e nós não podemos duvidar de que elas existem. Contudo, é possível que, algumas vezes, nós fiquemos inseguros de se a cor é verde ou cinza metálico. Assim, você poderia confundir-se na descrição de sua sensação, mas isso não afeta a certeza e indubitabilidade da sensação mesma, ou que está aqui e agora para você.
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Immanuel Kant, por Johann Gottlieb Becker, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público. |
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) argumenta que, para nossas percepções fazerem sucesso para nós, elas deveriam ser recebidas em conceitos que existem dentro de nossas mentes. Essas estruturas do entendimento permitem a nossas mentes processar as impressões que nós experienciamos. A menos que a multiplicidade das sensações brutas que nós recebemos a partir da experiência seja classificada em diferentes categorias de entendimento, nós não podemos fazer sentido delas.
Por exemplo, a mente deveria ter a habilidade de reconhecer se duas sensações são similares ou diferentes, para dizer o mínimo. Sem essa habilidade, nós não podemos fazer sentido da experiência. Ou considere que os objetos estão no espaço e no tempo, colocam-se em relações de causa-e-efeito, pertencem às categorias de unidade-pluralidae, afirmação-negação, particular-universal e semelhantes. Aqui, novamente, nós somos incapazes de entender qualquer experiência que não seja processada através dessas categorias. Portanto, Kant argumenta que espaço, tempo, causação, quantidade, qualidade e semelhante são representadas para nós em estruturas ou conceitos inatos, de modo que nossas mentes são ajustadas anteriormente a qualquer experiência.
De acordo com Kant, essas categorias são transcendentais, no sentido de que elas preenchem a lacuna (bridge the gap) entre a mente e o mundo. Elas são estruturas, pontes, ou conceitos que ocupam a, de outra forma, lousa em branco e moldam nossa maneira de pensar e experienciar o mundo. Esses conceitos também requerem inputs, ou perceptos (os objetos imediatos do conhecimento factual, entregues a nós na experiência perceptual através dos sentidos). Como a visão de Kant é famosamente expressa, “Perceptos sem conceitos são cegos e conceitos sem perceptos são vazios” ([1781] 1998, 209).
Até agora, nós temos visto através de vários estágios que o racionalismo e empirismo são incompletos. O idealismo transcendental (como sua visão é chamada) de Kant encontra um equilíbrio, reconciliando as duas explicações. Ele combina o input sensorial e os conceitos inatos em uma explicação unificada de como nós entendemos o mundo. Antes de nós concluirmos este capítulo com um passo final na abordagem de Kant, retornemos a Descartes e Hume uma vez mais, os dois filósofos que mais influenciaram Kant.
CONHECIMENTO SINTÉTICO A PRIORI
Descartes pensa que apenas a razão pode fornecer certeza para todo o conhecimento humano. Intuição e dedução são as ferramentas através das quais a faculdade da razão opera. A intuição é a capacidade de olhar para dentro e compreender objetos intelectuais e verdades básicas. Sendo um geômetra, Descartes considera que a dedução (o tipo de raciocínio pelo qual a verdade da conclusão é garantida pela verdade das premissas) deveria ser usada para obter conhecimento do mundo, começando com o input das ideias4 “claras e distintas.” Uma vez que a intuição está dissociada da evidência dos sentidos, as verdades que ela desfralda podem ser conhecidas a priori. O resultado é que o conhecimento substancial do mundo pode ser adquirido a priori ([1701] 1985).
De acordo com Hume, há duas maneiras através das quais o raciocínio objetiva ganhar conhecimento do mundo: através de “relações de ideias” e através de “questões de fato” ([1748] 2017, seção 4). Hume considera que o método da dedução estabelece relações entre as ideias que nós já adquirimos através da experiência (por exemplo, que uma mãe é uma mulher genitora (parent)). Essas relações de ideias são o tipo de verdade que nós encontramos na lógica e matemáticas (por exemplo, a proposição de que um círculo é redondo). Elas são verdadeiras por definição. Tais verdades são necessárias ou certas (a negação delas leva a contradição). Elas também são conhecidas a priori, uma vez que elas não dependem de como é o mundo. Por essa razão, as relações de ideias e a dedução não produzem novo conhecimento substantivo do mundo; o conhecimento que elas transmitem já é entendido por nós (como os exemplos acima mostram), mesmo se o nosso entendimento estiver meramente implícito no interior das premissas de um argumento dedutivo a conclusão do qual torna-o explícito.
Questões de fato (Matters of fact), para Hume, estão baseadas na observação e experiência. Algumas delas são generalizações alcançadas por indução a partir de instâncias particulares. Verdades indutivas são incertas. Na melhor das hipóteses, elas são prováveis, uma vez que elas são dependentes de como é o mundo. Por exemplo, até agora, nós temos a experiência do calor a partir do fogo; mas nós não podemos estar certos que esse também será o caso amanhã (talvez nós inesperadamente sentiremos outra sensação, como o frio, a partir do fogo). Nós esperamos que o futuro assemelhar-se-á ao passado, mas nós não podemos estar certos sobre isso.5 Questões de fato fornecem-nos verdades a posteriori, as quais são contingentemente verdadeiras (a negação delas pode ser concebida sem contradição). Uma vez que verdades de fato não são verdadeiras por definição, elas acrescentam nova informação substantiva ao nosso conhecimento existente, diferentemente das relações de ideias ([1748] 2017, seção 4).
Inicialmente um racionalista, Kant foi influenciado pela divisão no conhecimento feita por Hume. Apenas uma combinação de razão e experiência pode dar-nos conhecimento adequado, de acordo com Kant. Ele começa fornecendo uma explicação das relações de ideias, as quais ele denomina de verdades analíticas. Em sentenças que expressam verdades analíticas, o termo predicado já está “contido” no, ou é o significado do, termo sujeito. Por exemplo, na sentença, “um círculo é redondo,” o predicado “redondo” está contido no sujeito, “círculo.” Para tomar um outro exemplo padrão, em “um solteiro é um homem não casado,” o predicado “homem não casado” é o significado do termo sujeito, “solteiro.” Nós não podemos negar tais verdades sem contradição. Elas são necessariamente verdadeiras, o que significa que elas são verdadeiras independentemente de como é o mundo. Uma vez que nós não precisamos examinar o mundo para dizer se elas são verdadeiras, verdades analíticas são conhecíveis a priori ([1781] 1998, 146, 157).6
Kant denomina as questões de fato de verdades sintéticas: o termo predicado não está nem contido no interior do, nem é o significado do, termo sujeito. Verdades sintéticas não são verdadeiras por definição. Como tal, isso equivalve para a razão que elas são baseadas em observação e, portanto, devem ser a posteriori (embora, como logo nós veremos, Kant argumenta que esse não é o caso para todas as verdades sintéticas). Por exemplo, considere a proposição, “George, o solteiro, é um escritor.” Aqui, nós temos informação nova sobre uma pessoa particular denominada de “George” sendo um solteiro e escritor, e a experiência é requerida para descobrir isso. Uma vez que os opostos das verdades sintéticas não são contraditórios, eles são contingentes ([1781] 1998, 147, 157).7
Kant sustenta que apenas verdades sintéticas são capazes de fornecer nova informação substantiva sobre o mundo. Isso dito, nossas experiências sensoriais não entram passivamente em nossas mentes, mas conformam-se às nossas estruturas mentais para facilitar o conhecimento. Uma vez que essas estruturas funcionam independentemente da experiência, elas são a priori. Essas estruturas a priori inatas de nossas mentes – nossos conceitos – estão ativamente envolvidas em fazer sentido de nossas experiências ([1781] 1998). Elas fazem-no discriminando e organizando a informação recebida na experiência. Mas novamente, a habilidade para realizar essa atividade pressupõe que o mundo tanto forneça a informação quanto nossos conceitos sejam eles mesmos estruturados de uma maneira que possibilidade a inteligibilidade. As maneiras particulares nas quais o mundo deve ser estruturado – suas relações de espaço-tempo e causa-e-efeito, por exemplo, produzem verdades substantivas sobre a realidade. Essas verdades valem não meramente por causa dos significados das palavras ou das formas lógicas de sentenças. Elas são sintéticas. E, uma vez que nós chegamos a esse resultado através de reflexão a priori, Kant argumenta que nós possuímos conhecimento “sintético a priori” do mundo – uma categoria de conhecimento anteriormente desconhecida, agora a ser acrescentado às categorias padrões de conhecimento sintético a posteriori e analítico a priori. (Ver tabela 1 abaixo, para um sumário dessas categorias.)
Resta a questão de como nossos conceitos descriminam e organizam a informação recebida a partir dos sentidos. Esses objetivos são atingidos através de atos de síntese. Por “síntese,” Kant entende “o ato de colocar diferentes representações [elementos de cognição] juntas, e apreender qual é a multiplicidade deles em uma cognição” ([1781] 1998, 77).
Kant explica três tipos de sínteses: o processo começa com a “síntese de apreensão na percepção,” passa através da “síntese de reprodução na imaginação,” e termina com a “síntese de reconhecimento no conceito” ([1781] 1998, 228-34). Para Kant, a apreensão na percepção envolve a localização de um objeto no espaço e tempo. A síntese de reprodução na imaginação consiste na conexão de diferentes elementos em nossas mentes para formar uma imagem. E a síntese de reconhecimento em um conceito requer a memória de uma experiência passada assim como o reconhecimento da relação dela com a experiência presente. Reconhecendo que tanto a experiência do passado quanto a do presente referem-se ao mesmo objeto, nós formamos um conceito para ele. Reconhecer alguma coisa como um objeto unificado sob um conceito é atribuir significado aos perceptos. Essa atribuição de significado é o que Kant chama de apercepção (Guyer 1987).
A apercepção é o ponto onde o eu (self) e o mundo juntam-se (come together). Para Kant. A possibilidade da apercepção requer dois tipos de unidade. Primeiro, os vários dados recebidos na experiência devem eles mesmos representar um tópico (subject) comum, reconhecendo os dados estarem combinados e mantidos juntos. Segundo, os dados precisam ser combinados e mantidos juntos por eu eu unificado ou o que Kant chama de uma “unidade de consciência” ou “unidade de apercepção”. Kant conclui que, por causa de tal unidade, todos nós somos igualmente capazes de fazer sentido do mesmo objeto de uma maneira uniforme baseados em nossas experiências individuais, privadas. Quer dizer, nós estamos em um acordo não expresso (unspoken agreement) em relação ao mundo independente da mente no qual nós vivemos, possibilitado por nossas experiências subjetivas, mas regulado pelas estruturas mentais inatas dadas a nós pelo mundo.8 Em conclusão, considerando o debate entre racionalistas e empiristas culminando na síntese de Kant, este capítulo lançou luz sobre a questão de como nós alcançamos conhecimento substantivo.
CAIXA 1 – A Revolução Copernicana de Kant na Epistemologia
Astronomer Copernicus, or Conversations with God, pintura ca. 1872, por Jan Matejko, via Wikimedia Commons. Essa obra está no domínio público.
Em sua Critique of Pure Reason, Kant sumariza sua epistemologia delineando uma analogia com a Revolução Copernicana (a mudança na astronomia de um modelo geocêntrico para um heliocêntrico do universo, nomeada a partir do astrônomo e matemático do século XVI Nicolau Copérnico (1473-1543)):
Até agora tem sido assumido que toda a nossa cognição precisa conformar-se com os objetos; mas todas as tentativas de descobrir alguma coisa sobre eles a priori através de conceitos que estenderiam a nossa cognição, sobre essa suposição, não deram em nada. Consequentemente, tentemos se nós não chegamos mais longe com os problemas da metafísica assumindo que os objetos precisam conformar-se com nossa cognição, o que concordaria melhor com a possibilidade requisitada de uma cognição a priori deles, a qual deve estabelecer alguma coisa sobre os objetos antes que eles sejam dados a nós. Isso seria exatamente como os primeiros pensamentos de Copérnico, quem, quando ele não fazia bom progresso na explicação dos movimentos celestes se assumido que a inteira tropa celeste gira em torno do observador, tentou ver se ele não poderia ter sucesso maior se ele fizesse o observador girar e deixasse as estrelas em repouso. Agora, na metafísica, nós podemos tentar um caminho similar com respeito à intuição dos objetos. Se a intuição tivesse de se conformar à constituição dos objetos, então eu não vejo como nós podemos conhecer coisa alguma deles a priori; mas se o objeto (como um objeto dos sentidos) conforma-se à constituição da nossa faculdade de intuição, então eu posso representar muito bem essa possibilidade para mim mesmo. Todavia, porque eu não posso parar nessas intuições, se elas devem tornar-se cognições, senão preciso referi-las como representações a alguma coisa como seu objeto e determinar esse objeto através delas, eu posso assumir ou que os conceitos através dos quais eu alcanço essa determinação também se conformam aos objetos, e então eu fico, uma vez mais, na mesma dificuldade sobre como eu poderia conhecer qualquer coisa sobre eles a priori, ou senão, eu assumo que os objetos, ou que é a mesma coisa, a experiência na qual apenas eles podem ser conhecidos (como objetos dados) conforma-se àqueles conceitos, caso no qual eu imediatamente vejo uma saída mais fácil para a dificuldade, uma vez que a experiência mesma é um tipo de cognição requerendo o entendimento, cuja a regra eu tenho de presumir em mim mesmo antes que qualquer objeto seja dado a mim, consequentemente a priori, regra a qual é expressa em conceitos a priori, à qual todos os objetos da experiência precisam, portanto, necessariamente conformar-se, e com a qual eles precisa concordar ([1781] 1998, B xvi-B xviiii)
Questões para Reflexão
Dada a suposição de que as proposições abaixo são conhecidas ser verdadeiras, etiquete cada uma como (i) analítica ou sintética, (ii) necessária ou contingente, e (iii) a priori ou a posteriori. Se algumas são questionáveis, declare a sua opinião e explique as suas razões.
Todos os triângulos têm três lados.
A figura desenhada sobre a mesa é um triângulo.
Se a figura desenhada sobre a mesa é um triângulo, a figura tem três lados.
Não é o caso de que 1 + 2 = 5.
Alguns pássaros podem voar.
Todos os pássaros voadores podem voar.
O sol nascerá amanhã.
É moralmente errado machucar pessoas inocentes para ganho pessoal.
A maçã média é maior do que a uva média.
“Mark Twain” e “Samuel Collins” são nomes diferentes para a mesma pessoa.
Mark Twain é Samuel Clemens.
Água é H2O.
A água é mais importante na terra do que em outros planetas em nosso sistema solar.
Ou Deus existe ou não existe.
Escolha seu próprio exemplo de conhecimento a posteriori. Em seguida, escreva um miniensaio que trace suas origens de uma maneira plausível. Use tantos termos no banco de palavras abaixo quanto possível (mas também se sinta livre para usar outros termos que aparecem neste capítulo, especialmente aqueles em negrito). Para definições, você pode querer consultar o glossário.
Explique, em suas próprias palavras, os principais argumentos a favor e contra o inatismo.
Explique, em suas próprias palavras, os principais argumentos a favor e contra a teoria da tabula rasa.
Como é possível evitar tanto o inatismo quanto a tabula rasa? Qual é a terceira alternativa?
Muitos filósofos veem o conhecimento sintético a priori sob uma luz cética. Por que essa é uma categoria difícil da qual fazer sentido? Como Kant o explica e defende? Resuma a visão dele em suas próprias palavras.
Considere a alegação de que “Não há conhecimento sintético a priori.” Se essa alegação fosse verdadeira, ela poderia ser analítica? Se ela fosse verdadeira, ela poderia ser conhecida a posteriori? Se a alegação é verdadeira, mas ela não pode ser analítica ou a posteriori, ela tem de ser sintética a priori? Se for assim, é possível sustentar consistentemente essa alegação?
Qual você considera o mais plausível – racionalismo, empirismo ou a síntese kantiana? Resuma suas razoes principais para pensar assim.
LEITURA ADICIONAL
Blackburn, Simon. 1999. Truth: A Compelling Introduction to Philosophy. Cambridge: Cambridge
University Press.
Critchley, Simon. 2001. Continental Philosophy: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press.
Ellis, Addison. 2014a. “Idealism Pt. 1: Berkeley’s Subjective Idealism.” In 1000-Word Philosophy: An Introductory Anthology. https://1000wordphilosophy.com/2014/07/07/berkeley/
———. 2014b. “Idealism Pt. 2: Kant’s Transcendental Idealism.” In 1000-Word Philosophy: An Introductory Anthology. https://1000wordphilosophy.com/2014/08/11/idealism-pt-2-kants-transcendental-idealism
Plato. (ca. 380 BCE) 2009. Meno. Traduzido por Benjamin Jowett. The Internet Classics Archive.
http://classics.mit.edu/Plato/meno.html
Russell, Bertrand. (1912) 2013. The Problems of Philosophy. Project Gutenberg. https://www.gutenberg.org/files/5827/5827-h/5827-h.htm
Vernon, Kenneth Blake. 2014. “The Problem of Induction.” 1000-Word Philosophy: An Introductory
Anthology. https://1000wordphilosophy.com/2014/05/26/the-problem-of-induction/
REFERÊNCIAS
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Critchley, Simon. 2001. Continental Philosophy: A Very Short Introduction. Oxford: Oxford University Press.
Descartes, René. (1641) 1985. “Meditations on First Philosophy.” In The Philosophical Writings of
Descartes, traduzido por John Cottingham, Robert Stoothoff e Dugald Murdoch, 1–62. Volume 2. Cambridge: Cambridge University Press.
———. (1701) 1985. “Rules for the Direction of the Mind.” In The Philosophical Writings of Descartes, traduzido por John Cottingham, Robert Stoothoff, and Dugald Murdoch, 7–77. Volume 1. Cambridge: Cambridge University Press.
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Hume, David. (1748) 2017. Enquiry Concerning Human Understanding. Editado por Jonathan Bennett. https://www.earlymoderntexts.com/assets/pdfs/hume1748.pdf
Kant, Immanuel. (1781) 1998. Critique of Pure Reason. Traduzido por Paul Guyer and Allen Wood. New York: Cambridge University Press.
Leibniz, G. W. (1705) 2017. New Essays on Human Understanding. Editado por Jonathan Bennett.
http://earlymoderntexts.com/authors/leibniz
Locke, John. (1690) 2017. An Essay Concerning Human Understanding. Editado por Jonathan Bennett. https://www.earlymoderntexts.com/authors/locke
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Quine, W. V. 1951. “Main Trends in Recent Philosophy: Two Dogmas of Empiricism.” Philosophical
Review 60 (1): 20–43.
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ORIGINAL:
SANGEETHA, K. S. Source of Knowledge: Rationalism, Empiricism, and the Kantian Synthesis. In. BARNETT, B.C. Introduction to Philosophy: Epistemology. Rebus Community: 2021. Disponível em: <https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/sources-of-knowledge-rationalism-empiricism-and-the-kantian-synthesis/>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Mathesis
Licença: CC BY 4.0
1 Platão (ca. 428-347 a.C.) pode ser tratado como um predecessor do racionalismo. Em seu diálogo Mênon, Platão mostra como ideias inatas podem ser compreendidas através da razão ([ca. 380 a.C.] 2009). Nesse diálogo, o personagem principal, Sócrates (baseado no professor da vida real de Platão) envolve-se em uma discussão com um menino escravo. Através de uma série de questões e respostas – uma abordagem conhecida como Método Socrático – Sócrates extrai do menino uma prova sobre quadrados. Platão argumenta que o menino não aprendeu nada de novo; antes, as questões meramente induziram o menino a lembrar-se do conhecimento que ele possuía anteriormente ao nascimento, como uma alma desencarnada. Portanto, ideias inatas são como memórias esquecidas; nós poderíamos não estar cientes delas. Essa é a “doutrina da reminiscência (recollection)” de Platão (como os estudiosos a chamam). Em anos recentes, alguns linguistas consideram a teoria da linguagem de Chomsky ser uma versão moderna do racionalismo (embora, talvez, ela seja mais acuradamente descrita como kantiana). Chomsky (1975) argumenta que as mentes humanas contêm estruturas inatas responsáveis por nossas capacidades para processar linguagem. É por isso que nossa exposição à linguagem mesma é inadequada para explicar nossa habilidade de falar e entender a outros. Ela alega que essa habilidade inata é universal através de todas as culturas, o que reitera a alegação dos inatistas iniciais de que a universalidade é um indicador de inatismo (innateness).
2 Ver o capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-justification/) deste volume por Todd R. Long para uma discussão da teoria explanacionista da justificação epistêmica, e o capítulo 6 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemology-probability-and-science/) por Jonathan Lopez (especialmente a Caixa 1) sobre considerações probabílisticas em epistemologia – ambas as quais estão estritamente relacionadas à Navalha de Ockham.
3 Nós encontramos um endosso dessa visão no filósofo empirista anglo-irlandês George Berkeley (1685-1753). A visão dele do idealismo é de que apenas as mentes e as ideias delas (onde as sensações são contadas como ideias) existem. Nós apenas estamos imediatamente cientes das ideias, e, dessa maneira, o mundo físico de objetos não existe independentemente da mente – apenas como uma representação de uma mente, finita ou infinita. Portanto, Berkeley recomendava que “Ser é ser percebido (To be is to be perceived)” (em latim, “Esse est percipi”). Contudo, nós não exploraremos essa visão aqui, como nós estamos focados na visão influente de que há uma realidade independente da mente. Para discussão de Berkeley, ver Ellis (2014a).
4 Ver capítulo 2 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemic-justification/) deste volume por Long, para discussão adicional sobre o fundacionalismo cartesiano.
5 Esse é um aspecto de “o problema da indução,” pelo qual Hume é tão famoso. Para uma visão geral do problema, ver Vernon (2014.)
6 Ver capítulo 6 (https://press.rebus.community/intro-to-phil-epistemology/chapter/epistemology-probability-and-science/) deste volume, por Lopez, para uma discussão das verdades analíticas/sintéticas em relação com a teoria da probabilidade.
7 Alguns filósofos, seguindo Quine (1951), contestam completamente a distinção analítico-sintética.
8 A teoria de Kant e suas consequências foram interpretadas diferentemente por filósofos pós-kantianos, conduzindo à famosa divisão analítico-continental em filosofia. No lado continental, alguns filósofos interpretaram Kant como dizendo que nós não podemos conhecer as coisas em si mesma (os noumena). Nós apenas podemos conhecer como elas aparecem para nós (os phenomena), resultando em uma forma ceticismo em relação ao mundo exterior (a visão de que nós carecemos de conhecimento do mundo exterior), na fenomenologia de Husserl (a descrição filosófica da vida mental interior a partir de uma distinção entre ela e a realidade externa), ou uma visão construtivista (a ideia de que nós construímos a realidade). Para uma breve visão geral dessas questões, ver Ellis (2014b). para uma discussão mais minuciosa, ver Critchley (2001).


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