Por EderNB do Blog Mathesis
Um dos elementos mais esperados quando se trata de histórias de ficção científica é a previsão do futuro e, mais precisamente, o exercício de futurologia referente aos processos científicos e tecnológicos. No texto sobre Distopias Recicladas (2019) a autora coloca uma questão importante (que aqui é interpretada como relativa a essa expectativa), ao comparar as visões de futuro apresentadas em Blade Runner (de 1982) e Blade Runner 2049 (de 2017); o futurismo distópico do primeiro filme torna-se uma nostalgia distópica no segundo. Isso ocorre, dentre outras considerações específicas à estética visual do cinema, uma vez que muitos elementos sociais e tecnológicos importantes à época de realização do segundo filme (o nosso presente quase imediato) são ignoradas em prol do retorno nostálgico aos elementos do primeiro (um passado quase distante). Isso leva à consideração de algumas relações interessantes entre as dimensões do tempo e as possibilidades de ficção científica futurista que se pode estruturar em torno dos seguintes polos:
O futuro do passado. Neste caso enquadram-se aquelas obras de ficção científica que fizeram “previsões” para os seus respectivos futuros, os quais, por sua vez, agora são nosso passado. Em muitos casos esses elementos do porvir nunca se tornaram reais e o futuro projetado (ou temido) tornou-se passado esquecido (ou antiquado). O passado que se voltava para o futuro através da ficção científica é historicamente delimitado pelas primeiras revoluções industriais, as quais foram caracterizadas pela expansão do controle humano sobre a natureza através da aplicação sistemática das ciências ao desenvolvimento tecnológico e à exploração econômica. A grande fábrica / instalação científico / militar, a tecnologia nuclear, o carro voador, a invasão marciana, a terceira guerra mundial; todas esses foram temas ou elementos importantes de histórias dessa época e estilo. O ponto-chave para ser incluído aqui é: a data chegou, passou e nada do que foi narrado aconteceu!
O futuro do presente. Já aqui se pode pensar em obras que, escritas em nosso presente, possuem como objeto a “antecipação” de cenários futuros. ‘Mas que presente é esse?' Alguém poderia perguntar. E seria uma questão válida, já que o presente é essencialmente imediato e não linguístico, ou seja, experiencia-se o presente. Isso torna essa dimensão temporal um “agora” particularmente difícil de apreender, pois falar dele já o torna passado (parar para explicar algo, a rigor, já torna o explicado em passado; descrição e retrospecção) ou futuro (ao planejar algo que se pretende fazer: prescrição e expectação); em ambos os casos não experienciáveis e linguísticos. Para responder com alguma segurança, recorro ao cronotopo do “presente amplo” (Distopias Recicladas 1 em [48], 2018), o qual foi estabelecido no texto do artigo citado e que corresponde ao período histórico pós-guerra fria. Ora, esse nosso presente é marcado pela revolução digital e todos os seus desdobramentos, muitos dos quais determinam substancialmente a condição “onlife” (Manifesto Onlife, 2015). Com isso em mente, pode-se considerar ficções científicas de futuro do presente aquelas que extrapolam os elementos de realidade virtual, inteligência artificial, robótica, engenharia genética, etc. Anarquismo x autoritarismo, realidade x virtualidade, transhumanismo, fim do mundo, etc; são alguns dos temas ou elementos importantes que histórias do presente que se voltam para o futuro.
REFERÊNCIAS:
GOMEL, E. Distopias Recicladas: Cyberpunk e o Fim da História. 2018. (Distopias Recicladas)
INICIATIVA ONLIFE. O Manifesto Onlife. 2015. (Manifesto Onlife)
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