Elementos de Retórica
Por Richard Whately
[1]Introdução
§1.
,
De retórica, várias definições foram dadas por autores diferentes; quem, entretanto, não parecem ter discordado muito em suas concepções da natureza da mesma coisa quanto a terem tido coisas diferentes em vista enquanto eles empregavam o mesmo termo. Não apenas a palavra retórica mesma, mas também aquelas usadas na definição dela, foram tomadas em vários sentidos; como pode ser observado com respeito à palavra “arte” em de Orat., de Cícero, onde uma discussão é introduzida quanto à aplicabilidade desse termo a retórica; manifestamente se voltando para os sentidos diferentes nos quais “arte” pode ser entendida.
Entrar em um exame de todas as definições que têm sido dadas conduziria a controvérsia verbal muito desinteressante e não instrutiva. É suficiente colocar o leitor em guarda contra o erro comum de supor que um termo geral tem algum objeto real, apropriadamente correspondente a ele, independente das nossas concepções; - que, consequentemente, alguma definição em cada caso deve ser encontrada que compreenderá tudo que é corretamente designado por esse termo; - e que todos os outros têm de ser errôneos; considerando que, de fato, frequentemente acontecerá, como na [2]instância presente, que tanto o sentido mais amplo quanto o mais estrito de um termo, irão igualmente ser sancionados pelo uso (a única autoridade competente), e que a consequência será uma variação correspondente nas definições empregadas; nenhuma das quais talvez possa ser justamente acusável de erro, embora nenhuma possa ser estruturada que se aplicará a cada acepção do termo.
É evidente que em sua significação primária, a retórica tinha referência apenas a falar em público (public Speaking), como a sua etimologia implica. Mas é claro, como a maioria das regras para a fala aplicam-se igualmente à escrita, uma extensão do termo naturalmente ocorreu; e nós encontramos mesmo Aristóteles, o primeiro escritor sistemático sobre o assunto cujos trabalhos foram transmitidos a nós, incluindo em seu tratado regras para aquelas composições que não eram intencionadas para serem recitadas publicamente.1 E mesmo quando se relaciona aos discursos (speeches), propriamente assim chamados, ele adota, no mesmo tratado, em um momento, uma visão mais ampla, e, em outro momento, uma mais restrita do assunto; incluindo sob o termo retórica, na abertura do seu trabalho, nada além da descoberta dos tópicos de persuasão, até onde se diz respeito ao conteúdo do que é dito; e depois adotando a consideração de estilo, arranjo e maneira de falar (delivery).
A invenção da imprensa2, ao estender a esfera de operação do escritor, é claro, contribuiu para a extensão daqueles termos que, em sua significação primária, tinham referência apenas a fala. Muitos objetivos agora são alcançados através do meio da imprensa, os quais, antigamente, incluíam-se na província exclusiva do orador; [3]e as qualificações necessárias para o sucesso são tão as mesmas em ambos os casos, que nós aplicamos o termo “eloquente” tão prontamente a um escritor quanto a um orador; embora, etimologicamente considerado, ele apenas poderia pertencer ao último. De fato, “eloquência” é frequentemente atribuída até àquelas composições, - por exemplo, trabalhos históricos, - que têm em vista um objetivo inteiramente diferente de qualquer um que poderia ser proposto por um orador; porque alguma parte das regras a serem observadas na oratória, ou regras análogas a essas, são aplicáveis a tais composições. Portanto, de acordo com essa visão, alguns escritores falaram da retórica como a arte da composição, universalmente; ou, com a exclusão apenas da poesia, como englobando toda composição em prosa.
Uma extensão ainda mais ampla da província da retórica foi pretendida por alguns dos escritores antigos; quem, considerando necessário incluir como pertencente à arte, tudo que pudesse conduzir ao alcance do objetivo proposto, introduziram em seus sistemas tratados sobre direito, moral, política, etc, sobre o fundamento de que um conhecimento desses assuntos era necessário para capacitar um homem a falar bem sobre eles: e até insistiam na virtude3 como uma qualificação essencial de um orador perfeito; porque um bom caráter, o qual de maneira nenhuma pode ser tão certamente estabelecido como merecendo isso, tem um grande peso com a audiência.
Essas noções são combatidas por Aristóteles; quem as atribui ou ao entendimento mal cultivado (ἀπαιδενσία) daquelas que as sustentavam, ou à sua disposição arrogante e pretensiosa (ἀλαζονεία); ou seja, um desejo para exaltar e magnificar a arte que eles professavam. Nos dias atuais, a extravagância de tais doutrinas é tão aparente para a maioria dos leitores que não vale a pena encarar dificuldades para as refutar. Contudo, é digno de atenção que, mesmo agora, a mesma visão errônea é frequentemente adotada sobre a lógica;4 a qual tem sido considerada por alguns [4]como um tipo universal de conhecimento, sobre o fundamento que ela pode ser aplicada a todos os assuntos e de que ninguém pode argumentar bem sobre um assunto que ele não entende; e o que tem sido complicado por outros não suprindo nenhuma instrução tão universal, visto que defensores inabilidosos se posicionaram dentro da sua província; tal como nenhuma arte ou nenhum sistema possivelmente pode suportar.
O erro é precisamente o mesmo com respeito à retórica e à lógica; ambas sendo artes instrumentais; e, como tal, aplicáveis a vários tipos de assuntos, os quais não propriamente se incluem nelas.
Um autor tão judicioso quanto Quintiliano não teria deixado de perceber, não tivesse ele sido levado por uma desordenada veneração da sua própria arte, que, como a posse de materiais de construção não é parte da arte da arquitetura, embora seja impossível construir sem materiais, assim, o conhecimento dos assuntos sobre os quais o orador deve falar não constitui parte da arte da retórica, embora ele seja essencial para o seu emprego exitoso; e que embora a virtude, e a boa reputação que ela adquire, acrescentem materialmente à influência do orador, elas não devem ser mais consideradas como pertencentes à arte do orador como tal, por essa razão, do que riqueza, posição social, ou um bom caráter, os quais, manifestamente, têm uma tendência a produzirem o mesmo efeito.
Não obstante, nos dias presentes, a província da retórica, na acepção mais ampla que seria reconhecia admissível, compreende toda “composição em prosa;” no sentido mais estreito, estaria limita à “fala persuasiva.”
Na obra presente, eu proponho adotar um curso intermediário entre esses dois pontos extremos; e tratar da “composição argumentativa,” geralmente e exclusivamente; considerando a retórica (em conformidade com a visão muito justa e filosófica de Aristóteles) como um ramo da lógica.
[5]Eu observei no tratamento daquela ciência que o raciocínio pode ser considerado como aplicável a dois propósitos, os quais eu aventurei-me a designar respectivamente pelos termos “inferência (Infering)” e “prova (Proving);” ou seja, a determinação (ascertainment) da verdade por investigação, e o estabelecimento (establishment) dela para a satisfação de outra; e ali eu observei que Bacon, em seu Organon, tinha estabelecido as regras para a conduta do primeiro desses processos e que o segundo pertence à província da retórica; e foi acrescentado que inferir deve ser considerado como a tarefa própria do filósofo, ou do juiz; - provar, do advogado. Contudo, não deve ser entendido que obras filosóficas devem ser excluídas da classe à qual as regras retóricas são aplicáveis; pois o filósofo que intenta, através de escrita ou fala, comunicar suas noções a outros, assume, temporariamente, o caráter de advogado das doutrinas que ele sustenta. O processo de investigação tem de ser suposto completo, e certas conclusões alcançadas, antes que ele comece a comunicar suas ideias a outros em um tratado ou preleção; o objetivo dos quais, é claro, tem de ser provar a justeza dessas conclusões. E ao fazer isso, ele nem sempre considerará conveniente aderir ao mesmo curso de raciocínio através do qual as suas próprias descobertas foram originalmente feitas; outros argumentos podem lhe ocorrer depois, mais claros, ou mais concisos, ou melhor adaptados ao entendimento daqueles a quem ele se dirige. Portanto, na explicação e no estabelecimento da verdade, ele frequentemente pode ter ocasião para regras de um tipo diferente daquelas empregadas na sua descoberta. Portanto, quando eu observei, na obra aludida acima, que é uma falta comum, para aqueles engajados em investigações filosóficas e teológicas, esquecerem-se de sua tarefa peculiar e assumirem impropriamente aquela do advogado, essa cautela deve ser entendida como aplicável ao processo de formação das suas próprias opiniões; não como os excluindo de defenderem, através de todos os argumentos justos, [6]as conclusões às quais eles chegaram através de investigação franca. Mas se essa investigação franca não ocorrer em primeiro lugar, nenhum esforço que eles possam conceder na busca por argumentos terá qualquer tendência para assegurar o alcance da verdade por eles. Se um homem começa (como é um modo de procedimento demais evidente) apressadamente adotando, ou fortemente se inclinando a, alguma opinião que se adéqua à sua inclinação, ou que é sancionada por alguma autoridade que ele venera cegamente, e então estuda com a diligência máxima, não como um investigador da verdade, mas como um advogado laborando para provar o seu ponto, seus talentos e suas pesquisas, qualquer que seja o efeito que elas possam produzir na criação de convertidos para as suas noções, não valerão de nada na iluminação do seu próprio julgamento e para o guardar contra erro5.
Contudo, a composição do tipo argumentativo pode ser considerada (como foi afirmado acima) como se incluindo na província da retórica. E essa visão do assunto está menos aberta à objeção, na medida que ela não é provável de levar a discussões que possam ser consideradas supérfluas, mesmo para aqueles que podem escolher considerar a retórica no sentido mais restrito, como se relacionando apenas à “fala persuasiva;” uma vez que é evidente que o argumento tem de ser, na maioria dos casos, pelo menos, a base da persuasão.
Então eu proponho tratar, primeira e principalmente, da descoberta de argumentos e do seu arranjo; em segundo lugar, a estabelecer algumas regras respeitantes à excitação e ao manejo do que são comumente chamadas de paixões, (incluindo cada tipo de sensação, sentimento, ou emoção,) com uma visão para o alcance de qualquer objetivo proposto, - principalmente, a persuasão, no sentido estrito, ou seja, a influência sobre a vontade; em terceiro lugar, oferecer algumas observações sobre estilo; e, em quarto lugar, tratar da elocução.
[7]§2.
Pode ser esperado que, antes que prosseguisse para tratar da arte em questão, eu devesse apresentar ao leitor um esboço da história dela. Contudo, pouco é requerido para ser dito sobre essa categoria, porque o presente não é um daqueles ramos de estudo no qual nós podemos traçar com interesse um aperfeiçoamento progressivo de época para época. Pelo contrário, é um para o qual mais atenção parece ter sido concedida, e no qual se supõe que mais proficiência tenha sido realizada, nos dias iniciais da ciência e literatura, do que em qualquer período subsequente. Entre os antigos, Aristóteles, o mais antigo cujas obras são sobreviventes, seguramente também pode ser pronunciado o melhor dos escritores sistemáticos sobre retórica. Dificilmente Cicero deve ser reconhecido entre o número; pois ele deleitava-se tão mais na prática que na teoria dessa arte que ele é perpetuamente distraído da rígida análise filosófica dos seus princípios, para declamações discursivas, sempre eloquentes, de fato, e frequentemente altamente interessantes, mas adversas a toda regularidade de sistema, e frequentemente tão insatisfatórias para o estudante prático quanto para o filósofo. De fato, ele abunda com excelentes observações práticas; embora as melhores delas estejam espalhadas para cima e para baixo nas obras deles com muita irregularidade; mas os preceitos dele, embora de grande peso, visto que sendo o resultado de experiência, frequentemente não são rastreados por ele a primeiros princípios; e nós somos frequentemente deixados para adivinhar não apenas sobre que base as regras dele estão fundamentadas, mas a quais casos elas são aplicáveis. Desse último defeito, uma instância notável será citada a seguir6.
Quintiliano é realmente um escritor sistemático; mas não pode ser considerado como tendo estendido muito as visões filosóficas dos seus predecessores nesse departamento. Ele possuía gosto muito bom, mas isso estava [8]tingido com pedantismo; - com aquela pretensão (ἀλαζονεία, como Aristóteles chama-a) a qual estende a um grau extravagante a província da arte que ele professa. De fato, uma grande parte da obra dele é um tratado sobre educação, de modo geral; na condução do qual ele de maneira nenhuma foi proficiente; pois tão grande era a importância atribuída à fala pública, mesmo muito depois que a queda da república tinha isolado o orador as esperanças de obter, através dos meios dessa qualificação, a importância política mais elevada, que ele, quem foi nominalmente um professor de retórica, de fato, teve os mais importantes ramos de instrução confiados ao seu cuidado.
Todavia, muitas máximas valiosas devem ser encontradas nesse autor; mas ele carecia da profundidade de pensamento e do poder de análise que Aristóteles possuía.
Os escritores de retórica entre os antigos cujas obras são perdidas parecem ter sido numerosos; mas a maioria deles parece ter confinado a si mesmos a uma visão muito estreita do assunto; e terem estado ocupados, como Aristóteles reclama, com detalhes menores de estilo e arranjo, e com os truques sofísticos e artifícios mesquinhos do advogado (pleader), em vez de concederem um contorno magistral e compreensivo dos essenciais.
Entre os modernos, muitos poucos escritores de habilidade voltaram seus pensamentos para o assunto; e bem pouco foi adicionado, quer com respeito à matéria, ou ao sistema, àquilo que os antigos nos deixaram. Contudo, os “Antitheta” de Bacon, - os lugares comuns retóricos, - são um exemplo maravilho de agudeza de pensamento e concisão afiada de expressão. Portanto, eu coloquei uma seleção deles no apêndice7.
Seria muito injusto neste ponto deixar despercebida a “Philosophy of Rhetoric” do doutor Campbell: uma obra que, de fato, não obteve um grau tão elevado de favor popular como a do dr. Blair uma vez desfrutou, mas é incomparavelmente superior a ela, não [9]apenas na profundidade de pensamento e pesquisa engenhosa original, mas também em utilidade prática para o estudante. Talvez o título da obra do dr. Campbell tenha dissuadido muitos leitores, quem concluíram que ela é mais abstrusa e menos popular em seu caráter do que ela realmente é. Contudo, em meio a muito do que é prontamente entendido por qualquer leitor moderadamente inteligente, também há muito que demanda algum esforço de pensamento, o que a indolência da maioria dos leitores recusa-se a conceder. E deve ser reconhecido que ele também, em algumas instâncias, confunde seus leitores ao confundir a si mesma, e confundido na discussão de questões através das quais ele não enxerga o seu caminho; o grande defeito dele, o qual não apenas o leva a erros ocasionais, mas deixa muitas das suas ideias apenas imperfeitamente desenvolvidas, é a ignorância dele e a sua concepção completamente equivocada da natureza e do objeto da lógica; sobre as quais muitas observações são feitas no tratado sobre essa ciência. Verdadeiramente a retórica sendo um ramo da lógica, tem de laborar sob grandes dificuldades aquele retor que não apenas está mal familiarizado com esse sistema, mas também está completamente inconsciente da sua deficiência.
§3.
A partir de uma visão geral da história da retórica, duas questões naturalmente sugerem a si mesmas, as quais, em exame, serão descobertas muito estreitamente conectadas: primeiro, qual é a causa do refinamento cuidadoso e extenso entre os antigos de uma arte que os modernos têm comparativamente negligenciado; e segundo, se os primeiros ou os últimos devem ser considerados como os mais sábios nesse aspecto; - em outras palavras, se a retórica é de digna de qualquer refinamento diligente.
Com respeito à primeira dessas questões, a resposta geralmente dada é que a natureza do governo nos antigos estados democráticos causou uma demanda por [10]oradores públicos, e por aqueles oradores que devessem ser capazes de ganhar influência não apenas com as pessoas educadas em deliberação desapaixonada, mas com a multidão promíscua; e portanto, é observado que a extinção da liberdade trouxe com ela, ou pelo trouxe depois dela, o declínio da eloquência; visto que é justamente observado (embora de uma forma cortês) pelo autor do diálogo sobre oratória, o qual se passa sob o nome de Tácito: “Que necessidade há de discursos longos no Senado, quando os melhores dos seus membros velozmente chegam a um acordo? Ou de arengas numerosas para o povo, quando deliberações sobre assuntos públicos são conduzidas, não por uma multidão de pessoas inabilidosas, mas por um único indivíduo, e esse o mais sábio8?”
Essa explicação da questão é indubitavelmente correta até onde ela vai; mas a importância de falar em público é tão grande, na nossa própria época, e em todos os países que não estão sob um governo despótico, que a negligência aparente do estudo da retórica parece requer alguma explicação adicional. Parte dessa explicação pode ser suprida pela consideração de que a diferença nesse aspecto entre os antigos e nós mesmos não é tão grande na realidade quanto na aparência. Quando a única maneira de se dirigir ao público era por orações, e quando todas as medidas políticas eram debatidas em assembleias populares, os caráteres do orador, do autor e do político coincidiam quase inteiramente; aquele que desejasse comunicar suas ideias para o mundo, ou desejasse conquistar poder político e levar seus esquemas legislativos a efeito, era necessariamente um orador; uma vez que, como Péricles é feito observar por Tucídides, “alguém quem forma um julgamento sobre qualquer questão, mas não pode explicar a si mesmo claramente para o povo, bem poderia nunca ter pensado de qualquer maneira sobre o assunto9.” A [11]consequência foi que quase todos que buscavam, e todos que professavam dar, instrução nos princípios do governo e na conduta dos procedimentos judiciais, combinavam esses, em suas mentes e sua prática, com o estudo da retórica, o qual era necessário para conceder efeito a todos essas realizações; e com o tempo, os escritores em retórica (de quem Aristóteles faz aquela reclamação) chegaram a considerar a ciência da legislação e da política no geral como uma parte da sua própria arte.
Portanto, muito do que antigamente era estudado sob o nome de retórica, ainda é, sob outros nomes, tão geral e diligentemente estudado como sempre. Muito do que nós agora chamamos de literatura ou “Belas Letras,” estava antigamente incluído no quê os antigos chamavam de estudos retóricos.
Todavia, não pode ser negado que, como eu tenho dito, uma grande diferença, embora menor do que à primeira vista poderia parecer, existe entre os antigos e os modernos nesse ponto; - que o que é estrita e propriamente chamado de retórica, é muito menos estudado, pelo menos, menos sistematicamente estudado, agora do que antigamente. Talvez isso também possa ser explicado em alguma medida a partir das circunstâncias há pouco foram observadas. Tal é a desconfiança excitada por qualquer suspeita de artifício retórico, que cada orador ou escritor que está ansioso por transmitir seu argumento, tenta renegar ou manter fora de vista qualquer superioridade de habilidade; e deseja ser considerado como dependendo antes da força da sua causa e da correção das suas visões, do que da sua ingenuidade e esperteza como um advogado. Consequentemente é que, mesmo aqueles que concederam a maior e mais exitosa atenção ao estudo da composição e da elocução, estão tão longe de encorajarem outros por exemplo ou recomendação a engajaram-se na mesma atividade, que eles laboram antes para ocultar e rejeitar a sua própria proficiência; e, dessa maneira, as regras teóricas são descreditadas, até por aqueles que mais devem a elas. Ao passo que, entre os antigos, a [12]mesma causa, pelas razões recentemente mencionadas, não operava à mesma extensão; uma vez que, por mais cuidadoso que qualquer orador pudesse ficar para renegar os artifícios da retórica propriamente assim chamada, ele não ficaria envergonhado de reconhecer a si mesmo, de modo geral, um estudante ou um proficiente, em uma arte que era entendida incluir os elementos da sabedoria política.
§4.
Com respeito à outra questão proposta, a saber, relativa à utilidade da retórica, deve ser observado que ela se divide em duas; primeira, se a habilidade retórica for, no todo, um benefício público, ou um mal; e segunda, se qualquer sistema artificial é propício à obtenção dessa habilidade.
A primeira dessas duas questões foi ansiosamente debatida entre os antigos; sobre a segunda, bem pouca dúvida parece ter existido. Conosco, pelo contrário, o estado dessas questões parece quase invertido. Geralmente parece admitido que a habilidade em composição e fala, passível como evidentemente é de abuso, deve ser considerada, no todo, como vantajosa para o público; porque, nem neste, nem em nenhum outro caso, essa inclinação para abusar deve ser considerada como conclusiva contra a utilidade de nenhuma arte, faculdade ou profissão; - porque os efeitos maus do poder mal direcionado requerem que poderes iguais devam ser organizados no lado oposto; - e porque a verdade, tendo uma superioridade intrínseca sobre a falsidade, pode ser esperada prevalecer quando a habilidade das partes disputantes for igual; o que é mais provável de ocorrer, quanto mais amplamente essa habilidade estiver difundida10.
[13]Mas muitas, talvez a maioria das pessoas, estão inclinadas à opinião de que a eloquência, quer na escrita, quer na fala, é ou dom natural, ou, pelo menos, deve ser adquirida pela mera prática, e não deve ser alcançada ou melhorada por nenhum sistema de regras. E essa opinião é não menos favorecida por aqueles (como há pouco foi observado) cuja própria experiência capacitá-los-ia a decidir muito diferentemente; e certamente parece ser, em um grande grau, adotada. A maioria das pessoas, se não deixadas inteiramente à disposição do acaso com respeito a esse ramo da educação, pelo menos são deixadas para adquirirem o que elas podem através de prática, tais como exercícios de escola ou colégio propiciam, sem muito cuidado sendo tomado para as iniciar sistematicamente nos princípios da arte; e isso, frequentemente, não tanto a partir de negligência nos condutores da educação, quanto a partir das dúvidas deles da utilidade de qualquer sistema regular similar.
Certamente tem de ser admitido que regras não construídas sobre amplos princípios filosóficos são mais prováveis de restringir do que assistir as operações das nossas faculdades; - que uma exibição pedante de habilidade técnica é mais prejudicial nessa do que em qualquer outra atividade, uma vez que, através de desconfiança excitada, ela contra-ataca o próprio propósito dela; - que um sistema de regras imperfeitamente compreendido, ou não familiarizado através de prática, (enquanto esse continuar a ser o caso) provar-se-á antes um impedimento do que uma ajuda; como, de fato, será encontrado em todas as artes, da mesma maneira; - e que nenhum sistema pode ser esperado igualar homens cujos poderes naturais sejam diferentes. Mas absolutamente nenhuma dessas concessões invalida as posições de Aristóteles; que alguns tiveram mais sucesso do que outros ao explicarem suas opiniões e converterem outros a elas; e isso, não meramente por superioridade de dons naturais, mas [14]por hábito adquirido; e que, consequentemente, se nós podemos descobrir as causas desse sucesso superior, - os meios através dos quais o fim desejado é alcançado por todos quem o alcançam, - nós deveremos estar de posse de regras capazes de aplicação geral; o que é, diz ele, o ofício próprio de uma arte11. A experiência tão evidentemente mostra, o que, de fato, nós poderíamos naturalmente ser levados a conjecturar anteriormente, que um julgamento correto sobre qualquer assunto não é necessariamente acompanhado por habilidade para efetuar convicção, - nem a habilidade para descobrir a verdade, por uma facilidade para a explicar, - que poderia ser questão de surpresa como qualquer dúvida alguma vez deveria ter existido quanto à possibilidade de divisar, e a utilidade de empregar, um sistema de regras para “composição argumentativa” de modo geral; distinto de qualquer sistema familiar com o conteúdo de cada composição.
Eu observei nas Lectures on Political Economy (Prel. 9), que “, não completamente sem razão, algumas pessoas reclamam da ignorância prevalente dos fatos relativos a esse e muitos outros assuntos; e contudo, frequentemente será considerado que as partes censuradas, embora possuidoras de menos conhecimento do que elas deveriam ter, contudo, possuem mais do que elas sabem o que fazer com. A deficiência delas em organizar e aplicar seu conhecimento, - em combinação com os fatos, - e corretamente deduzindo e empregando princípios gerais, deverá ser maior que a sua ignorância dos fatos. Agora, tentar remediar essa falta transmitindo-lhes conhecimento adicional, - para conferir a vantagem de experiência mais ampla àqueles que não têm o poder de se beneficiarem por experiência, - é tentar alargar a perspectiva de uma homem míope trazendo-o para o topo de uma colina.”
“No conto de Sanford e Merton, onde os dois garotos são descritos como entretendo a si mesmos com a construção de uma cabana com suas próprias mãos, ele deitam as vigas horizontalmente sobre o [15]topo e cobrem-nas com palha, de modo a tornar o teto plano: é claro, a chuva atravessa; e o mestre Merton então aconselha colocar mais palha: mas Sandford, o garoto mais inteligente, observa que, enquanto o teto for plano, mais cedo ou mais tarde, a chuva tem de encharcar; e que o remédio é fazer um novo arranjo, e formar o teto inclinado. Agora, a ideia de iluminar raciocinadores incorretos através de conhecimento adicional é um erro similar àquele do teto plano; é meramente colocar mais palha: primeiro eles deveriam ser ensinados a maneira correta de elevar o teto. É claro, o conhecimento é necessário: mas nenhuma quantidade de materiais suprirá a carência de saber como construir.”
“Eu acredito ser uma falta predominante no dia presente, não, de fato, procurar conhecimento demais, mas confiar na acumulação de fatos como um substituto para a precisão nos processos lógicos. Tivesse Bacon vivido no dia presente, eu estou inclinado a pensar que ele teria feito a sua reclamação principal contra a investigação sem método e o raciocínio ilógico. Certamente ele não teria reclamado da dialética como filosofia corruptora. Guardar-se agora contra os males prevalentes no tempo dele, seria fortificar uma cidade contra aríetes em vez de contra canhões. Mas é notável que mesmo o abuso da dialética, do qual ele reclama, era antes um erro conectado com o processo de raciocínio do que um surgindo a partir de falta de conhecimento. Os homens eram levados a conclusões falsas não através de mera ignorância, mas ao assumirem, sem fundamentos suficientes, apressadamente, a correção dos dados a partir dos quais eles raciocinavam. E é notável que a revolução causada na filosofia por Bacon foi não o efeito, mas a causa, do conhecimento aumentado de fatos físicos: não foi que os homens foram ensinados a pensarem corretamente ao terem novos fenômenos sido trazidos à luz; mas, pelo contrário, eles descobriram novos fenômenos em consequência de um novo sistema de filosofia.”
[16]É provável que os preconceitos existentes sobre o assunto presente possam ser rastreados em grande medida às noções imperfeitas e incorretas de alguns escritores, quem ou confinaram suas atenções a minúcias insignificantes de estilo, ou, pelo menos, têm falhado em algum aspecto em tomarem uma visão suficientemente compreensiva dos princípios da arte. Especialmente uma distinção de ser claramente estabelecida e cuidadosamente guardada na mente por aqueles que desejam formar uma ideia correta desses princípios; a saber, a distinção já mencionada nos “Elementos de Lógica,” entre uma arte e a arte. “Uma arte de raciocínio” implicaria “um método ou sistema de regras através da observância dos quais alguém pode raciocinar corretamente;” “a arte de raciocínio” implicaria um sistema de regras com o qual, cada um que se conforma (se intencionalmente ou não,) quem raciocina corretamente; e tal é a lógica, considerada como uma arte.
De maneira similar “uma arte de composição” implicaria “um sistema de regras pelo qual uma boa composição pode ser produzida;” “a arte de composição,” - “aquelas regras com as quais toda boa composição tem de se conformar,” quer o autor as tivesse em sua mente, quer não. Do primeiro caráter parecem ter sido (entre outros) muitos dos sistemas lógicos e retóricos dos predecessores de Aristóteles naqueles departamentos. Ele mesmo, evidentemente, acompanha a visão do outro e mais filosófica dos dois ramos: como parece (no caso da retórica) tanto a partir do plano com o qual começa, aquele de investigar as causas do sucesso de todos quem sucedem em efetuar convicção, quanto a partir de várias passagens ocorrendo em várias partes do tratado dele: o que indica quão diligentemente ele esteve de guarda para se conformar com esse plano. Aqueles que não atentaram para a importante distinção há pouco aludida, frequentemente ficam dispostos a sentirem espanto, se não cansaço, diante dessas observações reiteradas de que “todos os homens efetuam persuasão, desta ou daquela maneira;” “é impossível obter um objeto tal e tal [17]de qualquer outra maneira,” etc.; as quais, sem dúvida, foram intencionadas para lembrar os leitores a natureza do desígnio dele; a saber, não ensinar uma arte da retórica, mas a arte; não meramente os instruir em como a convicção poderia ser produzida, mas como ela deve12.
Se essa distinção fosse cuidadosamente mantida em vista pelo professor e pelo estudante de retórica, nós não deveríamos ouvir mais reclamações sobre poderes naturais sendo acorrentados pelas formalidades de um sistema; uma vez que nenhuma reclamação desse tipo pode existir contra um sistema cujas regras são extraídas a partir da prática invariável de todos quem sucederam em obter o seu objeto proposto.
Ninguém esperaria que o estudo das preleções do sir Joshua Reynold limitaria o gênio do pintor. Ninguém reclama das regras da gramática como acorrentando à linguagem; porque é entendido que o correto uso não está fundamentado na gramática, mas a gramática no uso correto. Nesse aspecto, um sistema justo de lógica ou de retórica é análogo à gramática.
Contudo, alguém ainda pode ouvir algumas vezes – embora agora menos do que há poucos anos – as objeções banais contra a lógica e a retórica, e mesmo também a gramática. Cicero tem sido gravemente citado (como Aristóteles também poderia ter sido, na passagem há pouco aludida acima, no seu tratado mesmo sobre retórica) para testemunhar que regras retóricas são derivadas a partir da prática do orador, e não vice-versa; e que, consequentemente, deve ter havido – visto que ainda há – uma coisa tal como um falante ignorante dessas regras. É dito a nós que um carregador, provocará um camarada dizendo, “você é um camarada bonito,” sem ter aprendido que ele está empregando a figura chamada de ironia; e pode empregar “querer (will)” e “dever (shall)” corretamente sem explicar o que princípio que o guia. E pode ser acrescentado que, talvez, ele irá para a casa assobiando um tom, embora ela não conheça o nome de uma [18]nota; que ele mexerá no fogo dele, sem saber como ele está empregando o primeiro tipo de alavanca13; e que ele colocará a sua chaleira sobre ele para ferver, embora ignorante da teoria do calórico e de todo o vocabulário técnico da química. Em resumo, das duas premissas necessárias para a conclusão sobre a qual se disputa, àquela sobre a qual não pode haver dúvida possível, está remoída e elaboradamente provada; e a outra, a qual é muito questionável, está tacitamente assumida. Que os sistemas da lógica, retórica, gramática, música, mecânica, etc, têm de ter sido precedidos pela prática de falar, cantar, etc, do que ninguém vez alguma duvidou ou pode duvidar, é seriamente insistido; mas que, consequentemente, de cada sistema do qual isso pode ser dito tem de ser mera ninharia inútil, o que é, pelo menos, um paradoxo, é quietamente tomado como certo; ou, pelo menos, é suposto estar suficientemente estabelecido, repetindo-se, em substância, a observação do poeta de que
“…… todas as regras de um retor
Apenas o ensinam a nomear suas ferramentas:”
e observando que, pelos pontos mais difíceis de todos, [19]o gênio e a experiência naturais têm de fazer tudo, e os sistemas de arte, nada.
A essa última observação poderia ter sido adicionado que, em nenhum departamento, os sistemas de arte podem equalizar os homens de graus diferentes de habilidade e de experiência; ou ensinar-nos a alcançar tudo que é visado. Nenhum sistema de agricultura pode criar terra; nem pode a arte militar ensinar-nos a produzir, como Cadmo, soldados armados a partir da Terra; embora terra e soldados sejam tão essenciais para a prática dessas artes como a bem conhecida admoestação preliminar no livro de receitas, “primeiro, pegue a sua carpa,” deve ser para a arte culinária. Nem todos os livros que alguma vez foram escritos podem nivelar um homem de gênio e experiência militar com uma pessoa de habilidade ordinária quem nunca serviu.
Quanto à observação sobre “nomear as ferramentas de alguém,” a qual – com concessão justa para exagero poético – pode ser admitida estar perto da verdade, deveria ser lembrado que, se uma inferência fosse extraída daí da inutilidade de ser dessa maneira provido de nomes, nós temos de admitir, por paridade de raciocínio, que não seria inconveniência para um carpinteiro, ou qualquer outro mecânico, não ter nomes para várias das operações de serrar (sawing), aplainar (planing), perfurar (boring), etc., nas quais ele está habitualmente engajado, ou para as ferramentas com as quais ele as realiza; e, de maneira similar, que ele também não ficaria confuso sem nomes – ou sem nomes precisos, apropriados, breves – para os vários artigos de vestimenta e mobília que nós usamos, - para os membros e outros órgãos corporais, e as plantas, os animais, e outros objetos ao redor de nós; - em resumo, que seria pouco ou nenhum mal ter uma linguagem tão imperfeita quanto o chinês, ou absolutamente nenhuma linguagem.
A verdade simples é, TERMOS TÉCNICOS são uma PARTE DA LINGUAGEM. Agora, há pouca necessidade de se familiarizar com qualquer porção da sua linguagem que se relaciona a empregos e situações estranhos aos nossos próprios. Por exemplo, termos náuticos, há pouca perda para [20]um homem da terra ser ignorante deles; embora, para um marinheiro, eles sejam tão necessários quanto qualquer parte da linguagem é para qualquer um. E novamente, uma deficiência na linguagem própria de algum departamento, mesmo embora um com o qual nós não estejamos inteiramente desinteressados, não é sentida como uma inconveniência muito pesada. Mas se nós não estivéssemos em absolutamente nenhuma desvantagem, então, é evidente que o mesmo poderia ser dito de uma deficiência ainda ulterior de um caráter similar; e, por fim, nós deveríamos chegar à absurdidade acima notada, - a inutilidade completa da linguagem.
Mas embora essa seja uma absurdidade que todos perceberiam, - embora ninguém negaria a importância da linguagem, - a extensão plena e o caráter real dessa importância estão longe de serem universalmente entendidos. Ainda há (como eu observei na Lógica, Introdução, §5) muitos, - embora, eu acredite que não tanto quanto há poucos anos, - quem, se questionados sobre o assunto, responderiam que o uso da linguagem é comunicar os nossos pensamentos uns aos outros; e que isso é peculiar ao homem: a verdade sendo que esse uso da linguagem não é peculiar ao homem, embora desfrutada por ele em um grau muito mais alto do que pelos brutos; enquanto que, o que distingue o homem do bruto, é outro, e bastante distinto, uso da linguagem, a saber, como um instrumento do pensamento, um sistema de signos gerais, sem os quais o processo de raciocínio não pode ser conduzido. Consequentemente, a importância completa da linguagem, e da precisa linguagem técnica, - de ter “nomes paras as ferramentas de alguém” precisos e bem definidos, - nunca pode ser devidamente apreciado por aqueles que ainda se agarram à teoria da “ideias;” aqueles objetos imaginários de pensamento, dos quais os “termos comuns” são meramente nomes, e através do quais se supõe que nós sejamos capazes de fazer o que eu estou convencido de que é impossível; realizar uma sequência de raciocínio sem o uso da linguagem, ou de quaisquer signos gerais que sejam.
Mas cada um, na proporção em que ele adota mais completamente [21]a doutrina do nominalismo e, consequentemente, entende o caráter real da linguagem, tornar-se-á melhor qualificado para estimar a importância de um sistema preciso de nomenclatura.
§5.
Provavelmente a razão principal para o prejuízo existente contra os sistemas técnicos de composição deve ser encontrada no caráter estreito, escasso e débil na maioria desses ensaios, etc, como são manifestamente compostos de acordo com as regras de qualquer sistema similar. Contudo, deveria se lembrado que, em primeiro lugar, esses são quase invariavelmente as produções de estudantes; sendo usual para aqueles que alcançaram proficiência, ou escreverem sem pensar em quaisquer regras, ou foram desejosos (como tem sido dito), e, através da sua habilidade desenvolvida, capazes de ocultarem o seu emprego da arte. Agora, não é justo julgar do valor de qualquer sistema de regras, - aquelas de um mestre de desenho, por exemplo, - a partir dos primeiros esboços estranhos de principiantes na arte.
Ainda menos justo seria julgar um sistema a partir do insucesso de outro, cujas regras foram estruturadas (como é o caso com aquelas ordinariamente estabelecidas para o uso de estudantes em composição) sobre princípios estreitos, não filosóficos e errôneos.
Mas a circunstância que tem principalmente tendido a produzir a reclamação aludida é que, nesse caso, o inverso ocorrer no plano seguido na aprendizagem de outras artes; nas quais é usual começar, pelo bem da prática, como o que é mais fácil: aqui, pelo contrário, o principiante usualmente tem uma tarefa mais difícil atribuída a ele, e uma na qual ele é menos provável de ter sucesso do que ele encontrará na atividade real da vida. Pois é inegável que é muito mais difícil encontrar ou proposições para os sustentar, ou argumentos para provar – a saber, em resumo, [22]o que dizer, ou como o dizer – em qualquer assunto sobre o qual alguém dificilmente tem qualquer informação, e nenhum interesse; sobre o qual ele pouco conhece e com o que se importa ainda menos.
Agora, os assuntos usualmente propostos para exercícios de escola ou colégio são (para os estudantes mesmos) precisamente desse tipo. E, consequentemente, comumente acontece que um exercício composto com cuidado diligente por um jovem estudante, embora ele ter-lhe-á custado muito mais dificuldades do que uma carta real escrita por ele para seus amigos, sobre assunto que lhe interessam, será grandemente inferior a ela. Em ocasiões reais da vida posterior (eu quero dizer, quando o objeto proposto não é preencher uma folha, um livro, ou uma hora, mas comunicar seus pensamentos, convencer ou persuadir), - nessas ocasiões reais, para as quais tais exercícios são projetados para o preparar, ele descobrirá igualmente que escreve melhor e com mais facilidade do que na ocasião artificial, como ela pode ser chamada, de composição de uma declamação; - de modo que ele esteve tentando aprender o mais fácil praticando o mais difícil.
Mas o que é pior, frequentemente acontecerá que esses exercícios terão formado um hábito de encadear juntos lugares comuns e declamações vazias, - de multiplicação de palavras e espalhamento de assunto fino, - de composição em uma maneira inflexível, artificial e frígida: e que esse hábito se agarra, mais ou menos, através da vida a alguém que tenha sido treinado dessa maneira, e infectará todas as suas futuras composições.
Tão fortemente, deveria parecer, ficou Milton impressionado com uma sensação desse perigo, que ele foi levado a condenar o uso completo de exercícios em composição. Nessa opinião, talvez, ele esteja sozinho em meio a todos os escritores sobre educação. Talvez eu deveria concordar com ele, se não houvesse absolutamente nenhum outro remédio para o mal em questão; pois eu estou inclinado a pensar que essa parte da educação, se conduzida como ela frequentemente é, no geral, causa mais prejuízo do que bem. Mas eu estou convencido de que prática em composição, igualmente por garotos e [23]jovens homens, pode ser de tal modo conduzida quanto a ser produtiva de muitas e mais essenciais vantagens.
A prevenção óbvia e única dos males dos quais eu tenho falado é um cuidado mais escrupuloso na seleção daqueles temas para exercícios que são prováveis de serem interessantes para o estudante, e dos quais ele tenha (ou possa, com prazer, e sem muito labor, adquirir) informação suficiente. É claro, tais assuntos variarão, de acordo com a idade e o avanço intelectual do estudante; mas seria melhor que eles estivessem antes abaixo do que muito acima dele; quer dizer, eles nunca deveriam ser tais quanto a induzirem-no a concatenar juntas expressões gerais vagas, não transmitindo nenhuma ideia da sua própria mente, e sentimentos de segunda mão que ele não sente. De fato, ele pode transplantar livremente de outros escritores aqueles pensamentos que se enraizarão no solo da própria mente dele; mas ele nunca deve ser tentado a coletar espécimes secas. Ele também deve ser encorajado a expressar a si mesmo (em linguagem correta, de fato, mas) em um estilo livre, natural e simples; o que, é claro, implica (considerando quem e o que o escritor é suposto de ser) um estilo tal que, em si mesmo, estaria aberto à crítica severa, e certamente muito impróprio para aparecer em um livro.
Composições sobre tais assuntos, e em um tal estilo, provavelmente seriam consideradas com um olhar desdenhoso, como pueris, por aqueles acostumados com o modo oposto de ensino. Mas tem de ser lembrado que as composições de garotos têm de ser pueris, de uma maneira ou de outra; e para uma pessoa de gosto não sofisticado e correto, o tipo verdadeiramente desprezível de puerilidade seria encontrado em outros tipos de exercícios. Olhe a carta de um jovem inteligente para um dos seus companheiros, comunicando informação daqueles assuntos insignificantes que são interessantes para ambos – descrevendo as cenas que ele visitou, e as recreações que ele desfrutou durante as férias; e você verá um retrato do jovem mesmo – infantil, de fato, em aparência e em estatura – em vestimenta [24]e em semblante; mas vívido, desacorrentado, natural, dando uma justa promessa para a maturidade, e, em resumo, o quê um garoto deveria ser. Olhe para um tema composto pelo mesmo jovem, sobre “Virtus est medium vitiorum,” ou “Natura beatis omnibus esse dedit,” e você verá um retrato do mesmo garoto, vestido no garbo, e absurdamente imitando o semblante, de um homem idoso. Os nossos ancestrais (e ainda mais recentemente, eu acredito, as nações continentais) eram culpados da absurdidade de vestirem crianças em perucas, espadas, cintos imensos, aros, babados e toda elaborada finura de veste completa de pessoas adultas da época14. Certamente é razoável que absurdidade análoga, também em grandes questões, - em meio ao resto naquela parte da educação da qual eu estou falando, - deveria ser deixada de lado; e que, em todos os pontos, nós deveríamos considerar o quê é apropriado para cada período diferente de vida.
Os assuntos para composição a serem selecionados sobre o princípio que eu estou recomendando geralmente se incluirão em uma de três classes: primeiro, assuntos extraídos dos estudos nos quais o estudante está engajado; por exemplo, relacionando-se aos personagens ou incidentes de qualquer história que ele possa estar lendo; e, algumas vezes, talvez, levando-o a comunicar por conjectura, alguma coisa à qual posteriormente chegará, no livro mesmo: segundo, assuntos extraídos a partir de qualquer conversação que ele possa ter ouvido (com interesse) dos seus sêniores, se dirigida a ele mesmo, ou entre um e os outros; ou, terceiro, relacionando-se à divertimentos, ocorrências familiares, e transações cotidianas, as quais são prováveis de terem formado os tópicos de conversação fácil entre seus amigos familiares. O estudante não deveria ficar confinado exclusivamente a nenhuma dessas três classes de assuntos. Eles deveriam ser misturadas com tanta variedade quanto possível. E o professor frequentemente deveria se lembrar destas duas considerações; primeiro, uma vez que o benefício proposto não [25]consiste no valor intrínseco da composição, mas no exercício da mente do pupilo, não importa quão insignificante possa ser o assunto, se ele apenas o interessar e, através disso, propicia-lhe tal exercício; segundo, que, quanto mais jovem e mais atrasado for cada estudante, mas inadequado ele será para especulações abstratas; e mais distantes têm de ser os assuntos propostos a partir daqueles objetos e ocorrências individuais que sempre formam os começos iniciais da mobília da mente jovem15.
Deveria ser acrescentado, como uma regra prática para todos os casos, se é um exercício que é escrito pelo bem da prática, ou uma composição sobre alguma ocasião real, para que um esboço seja primeiro elaborado, - um esqueleto, como algumas vezes é chamado, - da substância do quê deve ser dito. Quão mais brevemente isso for feito, de modo que ele apenas exiba claramente os vários tópicos da composição, melhor: pois é importante que o todo dela deva ser colocado diante do olho e da mente em um escopo pequeno, e seja compreendido, por assim dizer, a uma olhadela: e, portanto, isso não deveria ser escrito em sentenças, mas como um índice (table os contents). Não se deveria permitir a um tal esboço acorrentar o escritor, se, no curso da composição efetiva, ele encontre qualquer razão para se desviar dela. Ela deveria ser meramente como uma trilha, para marcar o caminho para ele, não como um barranco, para o confinar. Mas a prática de traçar um tal esqueleto dará coerência à composição, uma proporção devida às suas várias partes, e um arranjo claro e fácil delas; tal como raramente pode ser obtida se alguém começa completando uma [26]porção antes de pensar no resto. E também será considerado um exercício muito útil para um principiante praticar – se possível sob o olhar de um preletor judicioso – o traçado de um grande número desses esqueletos, mais do que ele subsequentemente preenche; e, da mesma maneira, praticar análise do mesmo modo das composições de outros, se lidas ou ouvidas.
Se o sistema que eu recomendei for buscado, com a adição de cuidado atento na correção – encorajamento do professor – e inculcação daquelas regras gerais que cada ocasião demanda; então, e não de outra maneira, exercícios em composição serão da mais importante e duradoura vantagem; não apenas com respeito ao objeto imediatamente proposto, mas na produção de clareza de pensamento, e colocando em jogo todas as faculdades. E se esse ramo da educação for conduzido dessa maneira, então, e não de outra maneira, a maior parte do presente tratado, é esperado, será considerado não muito menos adaptado para o uso daqueles que estão escrevendo pelo bem da prática do que daqueles engajados em corresponder às ocasiões da vida real.
§6.
Há um tipo de exercício, - aquele de sociedades de debate, - que não deveria ser passado despercebido, visto que opiniões diferentes prevalecem sobre a sua utilidade. Ele certamente está livre das objeções que existem contra o modo ordinário de escrita de temas; uma vez que os assuntos discutidos são tais que os falantes sentem um interesse real. Por outro lado, ele difere do exercício propiciado pela prática de falar em público em ocasiões reais da vida, na medida que aquilo que é o objeto apropriado da eloquência verdadeira, - comunicar o argumento de alguém, - convencer ou persuadir, em vez de exibir habilidade, - é mais provável de ser perdido de vista, quando o objeto principal admitidamente é aprender a falar bem, e mostrar quão bem [27]alguém consegue falar; não para estabelece uma certa conclusão ou efetuar a adoção de uma certa medida.
Insiste-se em favor desse tipo de exercício que, uma vez que em cada parte um principiante tem de esperar que seus primeiros ensaios sejam comparativamente sem sucesso, um homem quem não teve esse tipo de prática privada antecipadamente tem de aprender a falar no curso de negócio efetivo e, consequentemente, ao custo de falhas diversas em questões de importância real. Comparado com aqueles que aprenderam em sociedades de debate, ele será como um soldado entrando no campo de batalha sem treinamentos e análises prévios, e começando a usar suas armas e praticar suas evoluções pela primeira vez em combate atual.
E, indubitavelmente, há muito peso nessa razão. Mas, por outro lado, urge-se que há perigos a serem apreendidos a partir da prática muito precoce de discurso improvisado, mesmo em ocasiões de negócios reais; perigos que, é claro, são intensificados onde não é com negócios reais que o orador está ocupado.
Quando as faculdades de jovens homens estão em um estado imaturo, e o conhecimento deles, escasso, cru e imperfeitamente arranjado, se eles são prematuramente precipitados ao hábito de elocução fluente, é provável que eles retenham por toda a vida uma facilidade descuidada de verterem pensamentos mal digeridos em frases graciosas e uma aversão à reflexão cautelosa. Pois quando um homem adquiriu esse hábito de pronta fala improvisada que consiste no pensamento improvisado, tanto sua indolência quando sua autoconfiança indispô-lo-ão para o labor de preparar cuidadosamente o seu assunto, e de formar para si mesmo, através de prática em escrita, um estilo preciso e verdadeiramente enérgico; e ele terá estado qualificando a si mesmo apenas para a “parte do Leão (Lion’s part)16” no interlúdio de Píramo e [28]Tísbe. Por outro lado, uma falta de prontidão, em um homem de mente bem disciplinada, quem estudou atentamente o seu assunto, é uma falta muito mais curável pela prática, mesmo depois na vida, do que o oposto.
Em referência a esse assunto, eu não posso evitar de citar algumas observações valiosas de um artigo na “Edinburgh Review17:”
“… Um político frequentemente tem de falar e agir antes que ele tenha pensamento e leitura. Ele pode estar muito mal-informado com respeito à questão; todas as noções dele com respeito a ela podem ser vagas e imprecisas; mas ele tem de falar; e, se ele for um homem de talentos, de tato e de intrepidez, logo descobre que, mesmo sob tais circunstâncias, é possível falar exitosamente. Ele descobre que há uma grande diferença entre o efeito das palavras escritas, as quais são lidas e relidas no silêncio do escritório, e o efeito das palavras faladas, as quais, emitidas pelas graças de afirmação e gesto, vibram por um único minuto no ouvido. Ele descobre que ele pode tropeçar sem muita chance de ser detectado, que ele pode raciocinar sofisticamente, e escapar irrefutado. Ele descobre que, mesmo em questões difíceis de comércio e legislação, ele pode, sem ler dez páginas, ou pensar dez minutos, extrair elogios e aplausos e sentar-se com o crédito de ter feito um discurso excelente. Lísias, diz Plutarco, escreveu uma defesa para um homem quem devia ser julgado diante de um dos tribunais atenienses. Muito antes que o defensor tivesse decorado o discurso, ele tornou-se tão insatisfeito com ele que ele foi em grande perturbação ao autor. ‘Eu fiquei deleitado com o seu discurso na primeira vez em que eu o li; mas eu gostei menos dele na segunda vez, e ainda menos na terceira vez; e agora ele absolutamente não me parece defesa nenhuma.’ ‘Meu bom amigo,’ disse Lísias, ‘você bem se esqueceu de que os juízes devem ouvi-lo apenas uma vez.’ O caso é o mesmo com o parlamento inglês. Seria tão inútil em um orador [29]desperdiçar meditação profunda e pesquisa longa nos seus discursos quanto seria no gerente de um teatro adornar toda a multidão de cortesãos e damas que cruzam o palco em uma cortejo com pérolas e diamantes reais. Não é por precisão ou profundidade que os homens tornam-se os mestres de grandes assembleias. E porque ficar à acusação de fornecer lógica da melhor qualidade, quando um artigo inferior será igualmente aceitável? Por que se aprofundar tanto em questão quanto Burke, apenas para ser, como Burke, interrompindo com tosses, ou deixado falando para bancos verde e caixas vermelhas? Isso há muito nos pareceu ser o mais sério dos males que devem ser explodidos contra as muitas bençãos do governo popular. É justo e verdadeiro dizer de Bacon, que a leitura faz um homem completo, a fala, um homem pronto, e a escrita, um homem exato. A tendência de instituições como aquelas da Inglaterra é encorajar a prontidão nos homens públicos, ao custo tanto da completude quanto da exatidão. As mentes mais afiadas e vigorosas de cada geração, mentes frequentemente admiravelmente adequadas para a investigação da verdade, habitualmente são empregadas na produção de argumentos tais que nenhum homem de bom senso alguma vez colocaria em um tratado intencionado para publicação, argumentos que são apenas exatamente bons para serem usados uma vez, quando auxiliados por modo de falar fluente e linguagem contundente. O hábito de discutir questões dessa maneira necessariamente reage sobre os intelectos dos nossos homens mais sábios; particularmente daqueles que são introduzidos no parlamento em uma idade muito precoce, antes que as mentes deles tenham expandido-se à maturidade completa. O talento para o debate é desenvolvido em tais homens a um grau que, para a multidão, parece tão maravilhoso quanto as performances de um improvisatore italiano. Mas eles são de fato afortunados se eles retêm intactas as faculdades que são requeridas para raciocínio estrito e especulação alargada. De fato, nós antes deveríamos esperar um grande trabalho original sobre ciência política, uma obra tal como, por exemplo, a ‘Wealth of Nations,’ de um apotecário em uma cidade do interior, ou de um ministro nas Hébridas, do que de um estadista que, [30]sempre desde que ele tinha vinte e um, tenha sido um debatedor distinto na Casa dos Comuns.”
Contudo, pode ser dito que, em referência às observações acima, que elas não provam nada contra os efeitos benéficos, com uma visão para excelência oratória (a qual é o ponto agora em questão), de prática precoce em discurso improvisado e, portanto, daquela propiciada por sociedades de debate. De fato, nós suporemos que essa excelência pode ser adquirida ao custo da atrofia dos poderes filosóficos, e, no todo, da deterioração da mente; mas a questão presente é quanto ao mero aperfeiçoamento da oratória. De fato, eu não tentarei dizer que um homem não pode obter uma proficiência inicial – talvez até uma maior – em discurso público (especialmente com uma visão para o efeito imediato) sacrificando àquele objeto qualquer outro. Mas eu duvido de se a vantagem a ser ganha, mesmo a um custo tão grande, não é, algumas vezes supervalorizada em si mesma. Um orador pode ter sobre outro, quem é um raciocinador mais correto e um homem de uma mente geralmente bem cultivada, uma vantagem mais aparente do que real; ele pode excitar mais admiração e ser recebido com um aplauso aparente maior, e, contudo, pode produzir menos convicção e menos de influência permanente: as palavras do outro podem penetrar mais. E novamente, um orador exibido e fluente, mas superficial, quem, no momento, pode parece estar realizando tudo diante dele triunfantemente, pode ser respondido por aqueles capazes de discernirem e exporem qualquer fraqueza nos argumentos deles. Além disso, aquilo que vai “apenas suportar ser ouvido uma vez,” pode, subsequentemente, ser lido calmamente e ter o seu vazio detectado. Para resumir, há apenas alguns poucos casos nos quais conhecimento preciso e bem digerido, julgamento correto e argumentos claros e bem organizados, não terão grande peso, mesmo quando opostos por qualificações mais exibidas mas insubstanciais.
Contudo, embora eu esteja convencido que um hábito precocemente adquirido [31]de fluência vazia seja adverso ao sucesso de um homem como um orador, eu não tentarei dizer que, como um orador, o seu alcance do mais alto grau de sucesso será mais provável, a partir da posse dele da mente mais filosófica, treinada à precisão mais escrupulosa de investigação. Inestimável em outros aspectos, tal como é uma dotação, e certamente compatível com eloquência muito grande, eu duvido de se o grau mais elevado dela seja compatível com o grau mais elevado do poder oratório geral. Se, por fim, esse homem pode ser considerado o mais perfeito orador, quem (como Cicero estabelece) pode falar melhor e mais persuasivamente sobre qualquer questão que possa surgir, pode ser duvidado de se um homem de primeira classe por ser um orador de primeira classe. De fato, ele pode falar admiravelmente em um assunto no qual ele seja bem considerado; mas, quando qualquer novo assunto ou novo argumento for iniciado no curso de um debate, embora ele possa adotar uma visão mais justa dele à primeira vista, na exigência do momento, do que qualquer outro poderia, ele não falhará, - como um homem de esperteza mais superficial falharia, - em perceber quão impossível tem de ser fazer justiça completa a um assunto demandando mais reflexão e investigação; nem, portanto, ele pode nivelar-se, em um tal caso, com alguém de mente mais rasa, quem, sendo em todos os casos menos hábil de olhar debaixo da superfície das coisas, obtém, à primeira vista, a melhor visão que ele pode ter de qualquer assunto e, portanto, pode exibir, sem nenhuma necessidade de artifício, aquela confiança fácil desimpedida que nunca pode ser assumida com igual efeito. Em resumo, para falar perfeitamente bem, um homem tem de sentir que ele chegou ao fundo do assunto; e sentir isso em ocasiões onde, a partir da natureza do caso, é impossível que ele o tenha feito, é inconsistente com o caráter de grande profundidade.
Além disso, uma pessoa que está pouco, e não muito, além da generalidade, frequentemente será capaz de conceber novos e impressionantes argumentos em defesa de erros populares, embora não perceba que eles são erros; e terá apenas [32]engenhosidade suficiente para estruturar sofismas plausíveis e para os expressar forçosamente, embora não os detecte. E isso, - o que, frequentemente, será propício ao seu sucesso presente, pelo menos, - é provável que ele faça com um ar de seriedade natural que teria sido dificilmente possível fingir, supondo-o ciente da incorreção do que ele está dizendo. Quando Hervey, o descobridor da circulação (pelo que ele perdeu muito da sua prática), foi desacreditado pelo mundo médico, sem dúvida aqueles argumentaram melhor do que ele, quem realmente desacreditaram da descoberta dele. E quando Dean Tucker inicialmente indicou que a separação das nossas colônias americanas não seria perda para o império, - pelo quê ele foi universalmente desprezado, embora agora e pelo último meio século, a correção da visão dele seja universalmente admitida, - os grande oradores da época dele sem dúvida argumentaram contra ele muito melhores por verem a si mesmos participes da ilusão geral.
Para retornar à questão prática a respeito das sociedades de debate, aparecerá, ao equilibrar junto o quê pode ser dito a favor e contra elas, que as vantagens que elas apresentam, embora nem irreais bem desconsideráveis, não são desacompanhadas por perigos consideráveis, contra os quais se deveria cuidadosamente se guardar, com o receio de que mais mal do que bem deveria ser o resultado.
Uma introdução precoce a esse tipo de prática deve ser especialmente desprezada, pelas razões acima formuladas; e ela deveria ser antecedida não apenas pelo cultivo geral da mente, mas também por muita prática na escrita; se possível, sob a orientação de um instrutor competente: um exercício que também seria muito desejável não descontinuar, quando a prática de discurso improvisado for iniciada. E a substância do quê deve ser falado em cada ocasião deveria ser, após reflexão, escrita; não nas palavras projetadas para serem expressas (pois, em vez de ser uma ajuda na direção do hábito de estruturação de expressões extemporâneas, isso se provaria um embaraçamento), [33]mas em tópicos breves, formando um esboço tal como na seção anterior foi recomendado; para que tão pouco quanto possível seja deixado para estruturar no momento, exceto as meras expressões. Gradualmente, quando a prática deverá ter produzido maior autodomínio e prontidão, um esboço cada vez menos completo anteriormente escrito será suficiente; e, com o tempo, o hábito será gerado de até formar julgamentos corretos, e argumentos corretos e bem expressos, no impulso do momento.
Mas uma prontidão prematura é mais provável de conduzir a faltas incuráveis. E todos os perigos que acompanham esse tipo de exercício, o estudante quem está engajado nele deveria lembrar-se e refletir, para que ele possa se guardar melhor contra eles; nunca se admitindo, em um desses debates simulados, sustentar qualquer coisa que ele mesmo acredite ser inverdadeira, ou usar um argumento que ele percebe ser falacioso.
A tentação para transgredir essa regra frequentemente será muito forte; porque, para aquelas pessoas que usualmente formam a maioria dessas sociedades, - jovens de julgamento imaturo, superficiais e meio educados, falsidade especiosa e sofistica sempre parecerão superiores à verdade e ao raciocínio correto, e convocarão louvores e aplausos; e o lado errado de uma questão frequentemente propiciará espaço para uma exibição tão cativante de engenhosidade, conforme seja, para eles, mais facilmente sustentada do que o correto. E os escrúpulos de consciência, relativos a veracidade e justiça, não são improváveis de serem silenciados pela consideração de que, afinal, não é batalha real, mas um torneio; ali não havendo nenhuma medida para ser efetivamente decidida, mas apenas um debate realizado em prol da prática.
Mas irreal como seja a ocasião, e insignificante como possa ser o ponto particular, um hábito será formado que não será facilmente desaprendido depois, de desconsiderar a razão correta, e a verdade, e o argumento justo. E um tal hábito não é meramente depreciador do caráter moral, mas também, em [34]um ponto de vista retórico, se eu posso falar assim, frequentemente se prova prejudicial. Frequentemente tem enfraquecido o efeito, a um grau muito maior do que a maioria das pessoas supõem, do que tem sido escrito e dito por homens de grande habilidade; privando-o daquele ar de veracidade simples que tem uma força tão vencedora, e que é tão impossível de simular completamente.
Parte I
ORIGINAL:
WHATELY, R. Elements of Rhetoric: Comprising an Analysis of the Laws of Moral Evidence and of Persuasion, with Rules for Argumentative Composition and Elocution. Seventh Edition, Revised. London: John W. Parker, West Strand, 1846. p. 1-34. Disponível em: <https://archive.org/details/elementsofrhetor00whatiala/page/1/mode/1up>
TRADUÇÃO:
EderNB do Blog Eidonet
Licença: CC BY-NC-SA 4.0
1[2]Aristóteles, Rhet. livro III.
2Ou antes do papel; pois a invenção da imprensa é óbvia demais para não ser rapidamente seguida, em uma nação literária, pela introdução de papel suficientemente barato para tornar a arte disponível. De fato, os selos dos antigos parecem ter sido um tipo de estampas, com as quais eles imprimiam os nomes deles. Mas o alto preço dos livros, causado pela carestia de papel, impedia a venda de cópias, exceto em um número tão pequeno que a impressão deles teria sido mais custosa do que a transcrição.
3[3]Ver Quintiliano.
4Elementos de Lógica, Introdução.
5[6]Ver o ensaio sobre o Amor à Verdade, 2ª série.
6[7]Ver parte I, cap. 3, §v.
7[8]Ver apêndice, [A.]
8[10]“Quid enim opus est longis in Senatu sententiis, cum optimi cito consentiant? Quid, multis apud populum conscionibus, cum de Republica non imperitit et multi deliberent, sed sapientissimus, et unus?”
9Tucídides, livro ii. Ver o Motto.
10[12]Arist. Rhet. Cap. 1. – Ele poderia ter avançado mais; pois frequentemente acontecerá que, diante de uma audiência popular, um grau maior de habilidade é necessário para a sustentação da causa da verdade do que da falsidade. Há casos nos quais os argumentos que se estendem mais à superfície, e são, para os raciocinadores superficiais, os mais facilmente estabelecidos em uma forma plausível, são aqueles do lado errado. [13]Frequentemente é difícil para um escritor, e ainda mais para um orador, identificar e exibir, em sua força completa, as distinções delicadas das quais a verdade algumas vezes depende.
11[14]Ὅπερ ἐστὶ τεχνἦς ἔργον. – Rhet. Livro i, cap. 1.
12[17]Ver apêndice, nota (AA.).
13É uma circunstância curiosa que, há não muito tempo mais do que parte inicial do último século, os estudos matemáticos eram um tópico comum de ridículo desdenhoso entre aqueles ignorantes sobre o assunto; exatamente como é o caso mesmo agora, a uma certa extensão, com a lógica (incluindo grande parte do assunto tratado neste volume), com a economia política, e alguns outros. Pope fala do quê ele chama de “louca Mathesis,” como “correndo ao redor do círculo” e “descobrindo-o quadrado!” Alguém também pode encontrar em meio à poesia fugitiva dos tempos dele, descrições de um matemático como alguma coisa entre tolo e louco. E a viagem a Laputa, de Swift, evidencia esse desdém completo pois tais estudos, e, da mesma maneira, a sua ignorância completa deles. Ele ridiculariza os laputianos por terem o pão deles cortado em “ciclóides;” o qual ele concebia ser o nome de uma figura sólida: e ele (contemporâneo de Newton) indica a sua convicção que o sistema aristotélico de astronomia estava no nível dos outros, e que os vários sistemas sempre estariam sucessivamente entrando e saindo de moda novamente, como modos de vestimenta.
O caso está alterado agora, até onde se diz respeito a investigações matemáticas; as quais são respeitadas até por aqueles não versados nelas: mas aquelas outras ciências acima referidas, embora estudadas por um número muito considerável e diariamente crescente, ainda são zombadas, - como anteriormente foi o caso com a matemática, - por muitos daqueles que não as estudaram (incluindo alguns matemáticos), e quem não conhecem mais sobre o assunto do que Swift conhecia de ciclóides.
14[24]Ver “Sandford and Merton,” passim.
15[25]Para algumas observações relativas à aprendizagem da elocução, ver a parte IV, cap. ii, §5 e iv, §2. Ver também algumas observações valiosas sobre o assunto de exercícios em composição na obra engenhosa do sr. Mill sobre educação pública. Pode ser acrescentado que, se o professor desejar, depois de identificar quaisquer faltas no exercício do estudante, e fazer ele alterá-lo ou reescrevê-lo, se necessário, então, coloque diante dele uma composição sobre o mesmo assunto escrita por ele mesmo, ou por algum escritor aprovado, - uma tal prática, se tanto o aluno quanto o professor tiverem paciência e indústria suficientes para a seguir, será provável de produzir grande aperfeiçoamento.
16[27]“Snug. – Você tem a parte do Leão escrita? Se tiver, eu suplico a você, dê-a para mim; pois eu sou lento de estudo.”
“Quince. – Você pode fazer isso de improviso; pois nada é senão rugido.”
Midsummer Night’s Dream.
17[28]Abril de 1839.
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